COMO SE A VIDA TIVESSE RECOMEÇADO

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Minha história começa após uma moça ser estuprada e, além do trauma, a jovem ficou grávida. Essa jovem é minha mãe e eu sou produto desse estupro.

Nasci muito pequeno e precisei ficar na incubadora. Logo ficou claro que eu era uma criança bastante doente. Outros problemas foram aparecendo: dificuldades visuais, problemas cardíacos e respiratórios, etc.

Minha mãe não conseguiu uma família para me adotar. Sem amparo psicológico, num surto de desespero, ela tentou contra a própria vida e ateou fogo em si mesma. Por um ato de Deus, fui poupado e infelizmente minha mãe teve queimaduras de 3º grau por todo o corpo. Ficou muito tempo internada no tratamento das queimaduras e em tratamento psiquiátrico. Fiquei sem os cuidados maternos, mas pessoas da comunidade cuidaram de mim. Foram enviadas por Deus para cuidar de uma criança doente. Foi um grande gesto de amor.

Depois de um certo tempo, uma prima da minha mãe, Maria, tomou conhecimento dos acontecimentos e decidiu tomar conta de mim, mesmo sem ter condição para isso. Comíamos o mínimo e a base alimentar era a farinha. Não tínhamos cama. Dormíamos no chão, mas eu me sentia muito bem. Minha mãe saiu do hospital e se juntou a nós. Logo passou a se relacionar com um homem envolvido com drogas e álcool. A vida de todos se transformou num verdadeiro inferno até que minha mãe tentou dar um fim ao relacionamento. O homem não aceitou e a jurou de morte. Em desespero, todos nós fugimos, abandonando o barraco e os poucos pertences. Passei a morar com alguns familiares no extremo leste de São Paulo. Mais uma vez, Maria me buscou e me levou para morar com ela num cortiço. Era fétido e degradante, mas passou a ser o nosso lar. Minha prima não reclamava e, com uma resiliência absurda, decidiu estudar. Seus estudos passaram a ser uma diversão para mim. Quando vi seus livros, já tinha 4 anos. Fiquei simplesmente encantado! Como não tinha mais nada a fazer, aqueles livros se tornaram meus companheiros e aprendi a ler sozinho.

Depois de algum tempo, minha mãe apareceu com um rapaz e decidiu me levar para morar com eles em um barraquinho de madeira, no Itaim Paulista. Eu sentia muita saudade de minha prima e chorava muito. Sentia falta de nossas brincadeiras e de nossas leituras. Não tinha mais o que ler e passei a ser muito espancado pela minha mãe, por conta dos surtos psíquicos. Em boa parte do tempo, não tínhamos o que comer. De tanta fome, comecei a comer cal de construção de um vizinho. Isso aliviava um pouco a fome, mas tive complicações renais graves. Quando minha mãe me levou ao hospital, foi repreendida pela médica que dizia que eu morreria em poucas horas, mas, depois de semanas de internação, comecei a melhorar. Sai do hospital e voltei para casa onde encontrei um ambiente bem complicado. Meu padrasto era um homem violento. Diante desse quadro, mais uma vez, Maria me levou novamente para sua casa, onde vivemos momentos agradáveis, conversávamos muito e íamos à igreja. Ela me ensinava a Bíblia. Até que, infelizmente, perdi a pessoa que eu tanto amava. Maria, minha cuidadora, amiga e conselheira, faleceu e meu mundo desabou completamente.

Não tinha para onde ir e, na casa da minha mãe, meu padrasto não me aceitava, alegando que eu era filho de um estuprador. Porém, minha mãe o enfrentou e ele acabou permitindo que eu dormisse em uma pequena área de serviço no chão. Ali sofri os piores momentos da minha vida.

Não tínhamos muito para comer. Meu padrasto fazia questão de dizer que eu não era parte da família. Eu não podia sentar-me à mesa e comia separadamente. Muitas vezes, ele cuspia no meu prato. Depois, começaram as agressões físicas. Minha mãe tolerava tudo isso. Na verdade, eu era um desastre que tinha acontecido na vida dela. Fui tirado da escola mesmo com bom desempenho escolar. Vivíamos numa comunidade violenta em meio a tiroteios, drogas, armas, brigas, mortes, abusos diversos. Mesmo sendo tirado da escola, continuei com meus hábitos de leitura. Embora eu morasse numa comunidade dominada pela violência, Deus me livrou de qualquer envolvimento no crime.

Diante de toda essa realidade, uma coisa maravilhosa aconteceu comigo. Minha mãe e meu padrasto estavam frequentando a igreja. A igreja se tornou um oásis para mim. Lá participava da Escola Dominical. Fiz muitos amigos. Recebia algumas roupas e calçados doados. No dia de ir ao culto, colocava a roupa mais nova, porém, mesmo assim, eu era invadido por um complexo de inferioridade e comecei a me deprimir. Vieram pensamentos de morte. Passei a odiar a vida e a todos. Mesmo assim, não parei de congregar. Comecei a aprender a tocar um instrumento de forma autodidata. Isso foi ótimo! Logo passei a tocar na igreja e comecei a sentir que eu não era um lixo. Minha vida deu um salto de qualidade. Aos domingos, já não passava fome. Era sempre convidado para almoçar na casa de irmãos.

Para ajudar minha família, passei a trabalhar como ajudante de pedreiro. Não era fácil, mas não desisti. Logo consegui a sonhada vaga de emprego formal. Estava me sentindo vivo, mas ainda era muito triste. Nesse período, minha mãe adoeceu. Ela me chamou e pediu-me perdão pelos maus-tratos. Eu compreendi sua dor e me solidarizei com ela. Aquela conversa foi libertadora, como se a vida tivesse recomeçado. Enxerguei minha mãe com mais empatia. Aquela sensação de rejeição por todos foi sendo superada.

Com o tempo, decidi morar sozinho, mas, mesmo sofrendo e enfrentando dificuldades, no meu coração havia perdão e paz. Passei por uma grande transformação na forma de interpretar a vida. Minha visão começou se abrir. Não me via como vítima, mas como um homem de cabeça erguida. Sentia as feridas internas sendo tratadas. Lembrava das dificuldades com gratidão a Deus. Comecei a sentir o desejo de estar mais próximo das pessoas e ajudar sempre que possível. Desenvolvi um olhar mais tolerante. Já não ia à igreja apenas para tocar um instrumento, mas com prazer de compartilhar amor e de fazer parte de algo tão importante que é o Reino de Deus. Passei a sentir felicidade de fazer parte da família de Deus. Minhas leituras bíblicas foram intensificadas. O evangelho penetrou em meu coração. Voltei aos estudos e consegui concluir o ensino médio. Casei-me com uma linda mulher e Deus me agraciou com um casal de filhos maravilhosos e, com a ajuda do Senhor, consegui algumas graduações e até pós.

Nunca imaginei que pudesse superar tantas dificuldades. Tive de superar as discriminações, a pressão social, a miséria e a fome. Minhas necessidades foram supridas por Deus por intermédio do amor dos meus irmãos.

Eu necessitava de afeto, de um sorriso, de um abraço. Sou extremamente grato a Deus pelas pessoas que me deram carinho ou um olhar, sem me desprezar. Essas pessoas foram instrumentos de Deus. Quero também ser instrumento de Deus na vida de pessoas que estão quebradas e se sentem marginalizadas.

Que o Espírito Santo me habilite a cuidar de pessoas e auxiliar aqueles que precisam de superação. O texto lido por Jesus Cristo na sinagoga de Nazaré é minha inspiração. “O Espírito do Senhor é sobre mim, pois que me ungiu para evangelizar os pobres. Enviou-me a curar os quebrantados de coração, a pregar liberdade aos cativos e restauração da vista aos cegos, a pôr em liberdade os oprimidos, a anunciar o ano aceitável do Senhor” (Lc 4.18-19).

Rev. Nerinaldo Cirilo dos Santos
Pastor da IPI do Jardim das Oliveiras, São Paulo, SP

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