A CONFISSÃO DE FÉ E A REVELAÇÃO

Nestes últimos dia, Deus nos falou pelo Filho” (Hb 1.2).

A palavra “revelação”, hoje em dia, é largamente utilizada nas igrejas. Ou seja, o termo “revelação” é empregado de maneira indiscriminada. É comum ouvirmos pessoas afirmarem que tiveram uma “revelação” de Deus. Tais “revelações” referem-se, em geral, a coisas do futuro.
Alguns exemplos:

  • “O pastor de uma igreja estava sem saber se deveria aceitar um convite para assumir a direção de outra comunidade. Ele orou a Deus. Depois, disse que Deus lhe ‘revelou’ que devia aceitar o convite e trocou de igreja”.
  • “Um casal estava indeciso se devia adquirir uma casa. Marido e mulher buscaram orientação de Deus. Depois, a mulher sonhou que a compra devia ser feita. O sonho foi entendido como uma ‘revelação’ de Deus e a casa foi comprada”.
  • “Um jovem não sabia se deveria prosseguir com seu namoro e casar-se. Orou a Deus e resolveu casar- se. Disse a amigos que Deus lhe ‘revelara’ que aquele casamento seria abençoado”.

Histórias semelhantes a essas acontecem nas igrejas evangélicas. Elas comprovam que a palavra “revelação” está sendo muito usada. Demonstram que as pessoas buscam “revelações” sempre que têm dificuldades para tomar decisões.

O que a Confissão de Fé de Westminster (CFW) tem a dizer sobre revelação?

O primeiro capítulo da CFW tem o seguinte título: “Da Escritura Sagrada”. Esse capítulo trata da revelação de Deus. Vamos focalizar seu conteúdo em dois artigos: este, abordando a questão da revelação e, na próxima edição de O Estandarte, estudando o papel da Bíblia na revelação. Temos de definir bem o que se entende por “revelação”. Isso é necessário porque existe um verdadeiro “uso e abuso” da palavra “revelação”.

A palavra “revelar” significa “tirar o véu” ou “descobrir alguma coisa que estava oculta”. A CFW afirma que revelação é “todo o conselho de Deus concernente a todas as coisas necessárias para a glória dele e para a salvação, fé e vida do homem” (CFW 1.6).

Temos aí uma definição sobre a “revelação de Deus”! A “revelação” diz respeito, única e exclusivamente, àquelas coisas que Deus mostrou para a sua glória e para a nossa salvação. Ou seja, “revelação de Deus” não se refere a uma adivinhação do futuro. Os mistérios do futuro nos atraem. Achamos que a vida seria mais fácil, se Deus nos concedesse conhecer o que acontecerá amanhã ou daqui a dez anos. Isso, porém, não é necessário para a nossa salvação.

Além disso, segundo a Bíblia, Deus é radicalmente contra a adivinhação do futuro: “Não deixem que no meio do povo haja adivinhos ou pessoas que tiram sortes; não tolerem feiticeiros, nem quem faz despachos, nem os que invocam os espíritos dos mortos” (Dt 18.10-11). “Os povos da terra que vai ser de vocês seguem os conselhos dos que adivinham o futuro e dos que tiram sortes; mas o Senhor, nosso Deus, não quer que vocês façam isso” (Dt 18.1). Seria uma incoerência de Deus proibir a existência de adivinhadores e, ao mesmo tempo, conceder o dom da adivinhação a certas pessoas. Na verdade, a busca de adivinhações sobre o futuro demonstra uma enorme falta de fé. As pessoas temem o futuro e, por causa disso, querem saber antes o que vai suceder. Porém, quem caminha pela fé dispensa qualquer “revelação” sobre o futuro porque confia na proteção Deus.

A “revelação de Deus” nada tem a ver isso. Ela refere-se a algo mais importante. “Revelação” é o conhecimento que Deus nos dá a respeito de si mesmo. “Revelação” é a ação de Deus na história para nos redimir. E a “revelação” máxima de Deus foi sua vinda ao mundo, na pessoa de Jesus. Somente nesse sentido devemos utilizar a palavra “revelação”. E é nesse sentido que prosseguimos estudando a “revelação de Deus”.

A Revelação Geral

A CFW estabelece uma distinção entre duas espécies diferentes da revelação de Deus: a geral e a especial. A geral é aquela que se dá através da “luz da natureza e das obras da criação e da providência”, as quais manifestam “a bondade, a sabedoria e o poder de Deus” (CFW 1.1).
A existência da revelação geral é atestada por vários textos bíblicos:

  • Salmo 19 – Neste Salmo, lemos que “os céus proclamam a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra das suas mãos”. A ideia é a de que as coisas que foram criadas levam-nos à conclusão de que existe um Deus que as criou.
  • Romanos 1.20 – Paulo afirma que Deus pode ser reconhecido por “meio das coisas que foram criadas”. Seus atributos, seu poder e sua divindade se reconhecem através da simples observação do que existe.

Todavia, a CFW ensina que essa revelação de Deus tem uma eficácia limitada. A revelação geral não é suficiente “para dar aquele conhecimento de Deus e da sua vontade necessário para a salvação” (CFW 1.1). De fato, observando a criação, podemos concluir que Deus existe. Mas reconhecer que Deus existe não basta para a nossa salvação.

A Revelação Especial

Devido à insuficiência da revelação geral, Deus concedeu a revelação especial. Tal revelação ocorreu através da ação de Deus. Deus se revelou:

  • Falando a Abraão (Gn 12.1);
  • Chamando Moisés (Êx 3.1-4);
  • Convivendo com Moisés num relacionamento “face a face” (Dt 34.10);
  • Falando com Samuel através de um sonho (1Sm 3.1-15);
  • Anunciando sua vontade através dos profetas, aos quais “vinha a palavra do Senhor” (Jr 1.1-10);
  • Manifestando-se em visões (Is 6.1-3).

Depois, Deus lançou mão de outro procedimento para se revelar. Ele mesmo veio ao mundo, na pessoa de Jesus: “O Filho, é a revelação visível do Deus invisível; ele é superior a todas as coisas criadas” (Cl 1.15).

Esses atos históricos, culminando no envio de Jesus ao mundo, constituem a revelação especial de Deus. Devemos lembrar que, se a memória dos atos históricos de Deus não fosse conservada, eles cairiam no esquecimento e não chegariam até nós. Por isso, Deus providenciou que a sua ação histórica fosse escrita para “preservação e propagação da verdade”, bem como “para o mais seguro estabelecimento e conforto da Igreja” (CFW 1.1).
Foi assim que surgiu a Bíblia.

Segundo a CFW, os antigos modos pelos quais Deus se revelou cessaram definitivamente: “Antigamente, por meio dos profetas, Deus falou muitas vezes e de muitas maneiras aos nossos antepassados, mas nestes últimos tempos ele nos falou por meio do seu Filho. Por meio dele, Deus criou o universo. O Filho brilha com o brilho da glória de Deus e é a perfeita semelhança do próprio Deus” (Hb 1.1-3).

Isso quer dizer que não ocorrem novas revelações de Deus. Tudo que Deus tinha para revelar já foi revelado. E, se quisermos conhecer a revelação de Deus, temos de buscá-la nas Escrituras Sagradas.

Conclusão

Deus se revelou de várias maneiras. Sobretudo, Ele veio ao mundo na pessoa de Jesus e providenciou que sua revelação fosse escrita, para ser preservada e propagada. Será que Deus não age mais na história? Será que Ele já fez tudo o que tinha para fazer e nos abandonou à nossa própria sorte? É claro que não!

O que terminou foi a revelação de Deus! Ele já nos mostrou tudo o que necessitamos para a nossa redenção. Todavia, Deus continua a agir na história. “Ele está conosco todos os dias até a consumação dos séculos” e “possui toda autoridade no céu e na terra” (Mt 28.18-20), na pessoa de Jesus, através do Espírito Santo.

Rev. Gerson Correia de Lacerda
Editor de O Estandarte
Pastor Auxiliar da 1ª IPI de Osasco, SP


A partir da edição de fevereiro, passamos a publicar, por decisão do Conselho Editorial de O Estandarte, os textos do e-book que se encontra no site da IPI do Brasil, intitulado “A Coragem de Confessar

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