A IGREJA MILITANTE E A IGREJA TRIUNFANTE

É bom estabelecer, de início, a ideia que norteia este artigo. Quando falamos em Igreja Militante e Igreja Triunfante, não estamos a nos referir a duas igrejas distintas, mas a uma só em dois estados diferentes. Isso porque, de fato, acreditamos na existência de uma só igreja, como afirma Paulo (Ef 4.5). E nós afirmamos, também, conforme o Credo Niceno, que uma das marcas da igreja é sua unidade.

Dizemos Igreja Militante para nos referir àquela que está no mundo, lugar de sua atuação. Deve-se lembrar que o próprio Cristo, na oração sacerdotal, intercedendo pelos discípulos, disse: “Não peço que os tires do mundo, e sim que os guardes do mal” (Jo17.15).

O adjetivo militante lembra a ideia de combate porque, ao exercer sua missão no presente mundo, a igreja não pode renunciar à luta. É portadora do Evangelho de Cristo e este não se deixa modelar pelos critérios estabelecidos por qualquer cultura (Rm 12.2).

Seu dever é combater a injustiça e todas as estruturas que venham a oprimir o gênero humano.

Além disso, há poderes demoníacos que pretendem destruir a Igreja de Cristo. Corroboram com essa ideia as palavras do apóstolo Paulo, lembrando sua partida que ele supunha estar próxima: “Combati o bom combate…” (2Tm 4.7).

Esta igreja está a caminho, é peregrina e, nessa caminhada, enfrenta o deserto, lugar de tentação e provação da fé.

Estando no mundo, caracteriza-se por sua visibilidade, pois assume um caráter público de testemunho. Tal visibilidade é sinal da concretude de sua existência e, daí, a necessidade de apresentar o seu aspecto institucional.

Dispõe de seus ministérios e formas operacionais bem visíveis, pois tem que cumprir o mandamento de Jesus Cristo: “Sereis minhas testemunhas…” (At 1.8).

Assumindo tais aspectos institucionais, mostra sua corporeidade, sua historicidade, articulando-se aqui na terra com os demais poderes: de cooperação, se tais poderes ajudam promover o Reino; de franca oposição e combate, se os mesmos se manifestam contrários ao Reino.

Em virtude dessa visibilidade, tende a mostrar sua identidade através das afirmações de fé que integram seu corpo doutrinário, apontando, inevitavelmente, para as diferenças que marcam as igrejas no presente mundo.

É o pluralismo a manifestar-se e, por isso, uns dizem ser calvinistas e outros luteranos; uns afirmam ser metodistas e outros anglicanos; outros, pentecostais, etc. E, dentro desses segmentos, surgem outras ramificações, que poderíamos chamar denominações que, obviamente, são muitas.

Ao assumir esse pluralismo, a Igreja Militante não mostra o seu lado doentio, mas a extensão de sua concretude.

Para que essa identidade seja afirmada não é necessário que haja oposição de uma comunidade em relação às outras. A perspectiva ecumênica requer que as diferentes comunidades convivam em paz, realizando o trabalho evangelístico.

O que deve ser colocado em primeiro lugar é salvar almas, não o fortalecimento institucional ou o crescimento numérico de cada denominação.

Quando a oposição entre as denominações se manifesta temos, inevitavelmente, o proselitismo, prática não aconselhável, visto que o Mestre sempre pregou a tolerância. Lembremos a passagem evangélica referente ao encontro que os discípulos tiveram com alguém que expulsava demônios empregando o nome de Jesus Cristo, mas não pertencia ao colegiado dos apóstolos. Houve a manifestação de um zelo exacerbado, descambando para a censura e a intolerância, o que foi repreendido de modo enfático pelo Mestre (Mc 9.39-40).

Já a Igreja Triunfante caracteriza-se pela sua invisibilidade, pois congrega os que já partiram para junto de Cristo, formando a comunidade dos salvos.

Nas celebrações fúnebres, é comum dizer que o irmão ou a irmã partiu da Igreja Militante para a Igreja Triunfante. Essa igreja não está mais envolta em lutas, como a militante, nem aprimorando seus aparatos institucionais ou envolvida em problemas de ordem cultural, porque é triunfante. Venceu todas as batalhas e, agora, vitoriosa, reina com Cristo.

Na Igreja Triunfante não há lugar para que diferentes denominações se sobressaiam visto que todos integram a comunidade dos salvos, sem ostentação de qualquer separação.

Nesse caso, ela deixa de ostentar qualquer diferença, pois é única, ou seja, o ecumenismo pleno se instaura. E, porque não há mais diferença, dispensa-se, inclusive, a existência de templo, local visível e identificável de adoração como descreve o Apocalipse (21.22).

Seu caráter de santidade se completa, diferentemente da Igreja Militante que, não obstante ostentar sua marca de santidade é, ao mesmo tempo, santa e pecadora.

Em síntese, a distinção adotada nas considerações precedentes significa que há um grupo de cristãos aqui na terra que, atendendo ao chamado de Jesus Cristo, procura ser fiel a Ele.

Como parte dessa fidelidade seus membros tendem a travar, individual ou coletivamente, a luta inerente à sua jornada, visto que há forças opostas (daí ser militante).

Por outro lado, há um grupo de cristãos nos céus que, vitoriosos em relação ao pecado, estão com Cristo, aguardando a ressurreição. Esta igreja já venceu todos os tipos de vicissitudes e, vitoriosa (daí ser triunfante), reina com Cristo, o Senhor da Igreja.

Uma, portanto, diz respeito aos fiéis que ainda estão vivendo neste mundo e a outra é constituída dos redimidos que, morrendo, estão na glória ao lado do Senhor.

Essas distinções, contudo, são estabelecidas pela teologia para melhor compreensão de todos nós, mas isso não afeta a sua unidade. A Igreja é única, assumindo a figura de corpo, sendo Cristo o cabeça.

Para terminar, lembremos o sonho de Wesley que George Whitefield, personagem bastante conhecida do “revival” norte-americano, costumava contar.

No sonho, Wesley teria sido conduzido até os portões do inferno. Lá ele perguntou: “Há algum presbiteriano aqui?” “Sim”, foi a resposta. E continuou: “Há algum batista? Algum anglicano? Algum metodista?” A resposta foi sim a cada uma dessas perguntas. Angustiado, Wesley foi conduzido aos portões do céu. Lá, fez as mesmas interrogações. “Há algum presbiteriano aqui?” “Não”, foi a resposta. “Algum batista?” “Não.” “Algum anglicano?” “Não.” “Algum metodista?” “Não.”

Surpreso, Wesley perguntou: “Quem, então, está aí dentro?” A resposta foi: “Só há cristãos aqui. Só os que foram salvos por Cristo”.

Rev. Dr. Paulo de Góes
Ministro jubilado do Presbitério de Sorocaba

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

O ESTANDARTE