PRESBITERIANOS E POVOS INDÍGENAS NO BRASIL

A atuação da Missão Evangélica Caiuá

Atuação missionária transcultural é quando a igreja não se restringe a uma só cultura, mas tem alcance abrangente, em todos os quadrantes da terra, onde quer que haja uma etnia que não tenha ouvido o evangelho. Não se trata somente de atravessar fronteiras geopolíticas, mas, sobretudo, fronteiras culturais. E isto pode acontecer dentro de um mesmo país. No contexto brasileiro, um dos desafios transculturais é o de alcançar os diversos povos indígenas, com suas especificidades em termos de cosmovisão, costumes e línguas.

Há organismos de governos e da sociedade civil que atuam junto aos povos indígenas. As políticas governamentais ficam à mercê dos interesses dos grupos políticos e de acordo com os interesses econômicos geralmente das grandes corporações. Ou seja, dependem das riquezas existentes nas áreas denominadas indígenas. Vez ou outra, acompanhamos pela mídia conflitos com índios por conta da exploração de recursos naturais, sobretudo a exploração madeireira e atividades de mineração em suas áreas de terras demarcadas.

Entre os cristãos, existe um desejo de atuar entre os indígenas. Isto acontece desde os primórdios da história. Na história do protestantismo brasileiro, tivemos experiências de aproximação junto aos indígenas desde os primeiros momentos da vinda de europeus para o Brasil.

A presença mais consolidada de missão protestante entre os indígenas, a Missão Evangélica Caiuá (MEC), tem sua sede em Dourados, MS, desde 1928. Neste mês de agosto, a MEC completa 92 anos de atuação missionária junto aos povos indígenas. Seu lema é: “A serviço do índio para a glória de Deus”. Esta presença é exemplar para os evangélicos por ser uma atuação de vanguarda. Por exemplo, ela começou com uma missão que contava com a colaboração de três igrejas brasileiras em parceria com uma igreja norte-americana.

História

No grupo pioneiro, tínhamos o Rev. Albert S. Maxwell e sua esposa Mabel Maxwell, da Presbyterian Church in the United States, o médico Dr. Nelson de Araújo, da Igreja Metodista, o agrônomo João José da Silva e sua esposa Guilhermina Alves da Silva com o filho Erasmo, pela Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB) e o Prof. Esthon Marques, da IPIB.

A missão sempre atuou através de serviços concretos nas áreas de saúde (hospital), educação (escolas) e projetos de autossustentação dos povos. A primeira equipe possuía um médico, um agrônomo, um professor e um pastor. Ao longo da caminhada, outros obreiros se destacaram pela disposição de viver os valores do Reino de Deus em meio aos povos Guarani, Kaiwá e Terena. O casal Lóide (membro da IPIB) e Rev. Orlando Andrade atuaram cerca de 40 anos na direção da MEC.

Embora concentre sua atuação basicamente no Mato Grosso do Sul, a MEC atinge uma considerável parcela da população indígena. Isto porque neste Estado concentra-se uma das maiores populações indígenas do Brasil. Corrobora com isto o fato de ser uma das regiões onde esses povos estão mais desprovidos dos meios necessários a uma vida digna. Não há mais peixes nos rios nem caça nas matas. Na verdade, já não existem mais fauna e flora que permitam uma vida possível a estes dignos brasileiros. Por isso, proliferam problemas semelhantes aos da periferia das grandes cidades: fome, alcoolismo, desestruturação do núcleo familiar, etc.

Área educacional

Uma demanda assumida para a ação transcultural da MEC é a educação. Desde o início, ela constatou que o analfabetismo atingia cerca de 100% dos indígenas. Ultimamente, a educação entre os povos indígenas vem passando por um grande avanço. O poder público vem investindo na formação de professores indígenas e na construção de escolas dentro das aldeias. Mas a MEC ainda administra quatro escolas de pré e de ensino fundamental, através de convênios com prefeituras.

Nas escolas de Dourados e Amambai, além do material pedagógico específico para os indígenas, destaca-se a preocupação em proporcionar material que atenda alunos com necessidades especiais. com professores treinados para esta função, a fim de garantir a todos o acesso à educação.

Área da saúde

O departamento de saúde da MEC mantém o Hospital e Maternidade Indígena “Porta da Esperança”. O hospital atende por meio do SUS, colocando à disposição do sistema de saúde 53 leitos.

Há ainda uma atuação forte da MEC na área da saúde desde a virada para os anos 2000, com a administração de convênios com o Ministério da Saúde. Devido ao conhecimento e estrutura da MEC, ela passou a administrar convênios que consistem, basicamente, no seu uso como instituição para contratar profissionais para atuação na saúde preventiva nas áreas indígenas. A MEC já gerenciou convênios em todas as regiões do país e, atualmente, mantém 9 destes convênios.

Igreja Indígena Presbiteriana no Brasil

Foi organizada em agosto de 2008, com a presença de caravanas vindas de 13 aldeias. O momento foi celebrado com um culto de gratidão a Deus, contando com a presença dos presidentes das igrejas associadas IPB e IPIB.

Atualmente, a MEC trabalha em parceria com a igreja indígena. São cerca 35 entre igrejas e congregações, contando com 863 membros. São 52 oficiais indígenas entre presbíteros, diáconos e pastores. Num contexto transcultural, sempre se precisa trabalhar a questão da autoctonia, ou seja, cada vez mais os índios assumem a liderança na construção de uma igreja deles e para eles. Para isso, contribui muito o Instituto Bíblico Felipe Landes que tem preparado índios para missionar entre os índios. O papel da MEC é facilitar a consolidação de uma igreja autóctone.

Evidentemente, missionários não-índios continuam sendo demandados para atuar junto aos povos indígenas, em parceria com a igreja indígena, apoiando o avanço para outros campos sem presença evangélica ou com pouca presença.

Direção e funcionamento da MEC

A MEC é dirigida por uma Assembleia Geral, órgão máximo de deliberação e elaboração do plano de trabalho e definição de metas.

A execução do plano de trabalho e a busca pelas metas estabelecidas são de responsabilidade do secretário executivo, auxiliado por colaboradores e diretores dos departamentos internos da MEC. As demandas do dia a dia vêm sendo lideradas pelo casal de missionários Margarida e Rev. Beijamim Bernardes (IPB). Eles sucederam o casal Lóide e Orlando Bonfim e estão há 35 anos na MEC.

A composição da Assembleia Geral da MEC atualmente é formada por 4 representantes da IPB, 4 representantes da IPIB e 2 representantes da Igreja Indígena Presbiteriana.

A avaliação de um empreendimento missionário cristão transcultural é se ele honra a Deus e, como consequência, faz bem ao povo que tem como alvo. E é exatamente isso que temos na história da MEC. Deus é glorificado, pois o evangelho é pregado e os povos indígenas ganham melhores condições de vida. Ouvi um testemunho de um antropólogo que disse ser corrente uma máxima sobre a realidade dos Guarani, Caiowá e Terena do Mato Grosso do Sul. Ele afirmou: “Se não fosse a presença da Missão Caiuá é provável que estes povos não teriam sobrevivido”. Isto basta!

Precisamos voltar a olhar a MEC com o mesmo carinho do passado, quando nossas igrejas conheciam a atuação da missão e realizavam campanhas em apoio aos índios. Caravanas eram formadas para visitar campos da missão com disposição para dedicar períodos de feriado ou férias para participar em projetos sociais e de evangelização nas aldeias do Mato Grosso do Sul.

Este empreendimento missionário quase centenário continua necessitado do povo de Deus. Por quê? Porque os indígenas do Mato Grosso do Sul e do Brasil precisam conhecer o amor de Deus através da atuação de uma igreja solidária.

Rev. Jonas Furtado do Nascimento
Pastor da IPI do Cambuci, São Paulo, SP,
Gestor Missionário da Secretaria de Evangelização da IPIB
Representante da IPIB na Assembleia da Missão Evangélica Caiuá

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