APENAS UM CORAÇÃO SOLITÁRIO

O coronavírus trouxe consigo estragos adicionais. O isolamento social provocou atritos dentro da própria casa, acirrou a violência doméstica, atingiu crianças indefesas e provocou uma súbita corrida para adoção de animais de estimação, para preencher um vazio.

Várias autoridades, políticos e ativistas lançam-se em ferozes ataques de ordem política e ideológica. Alguns, pensando apenas nas eleições de 2022. Outros, nas eleições municipais deste ano. Demagogia e não cidadania: pensam em tudo, menos no que interessa – o coronavírus – alvo repugnante para fraudes e corrupção. Falsos “especialistas” disputam entre si as mais variadas opiniões, deixando os cidadãos sem saber o que pensar.

Muita gente, fechada em si mesma, não consegue viver no coletivo, sem conseguir amar o próximo, mesmo que ele esteja bem ao seu lado. A solidão forçada carrega dentro de si uma caixa bem fechada de segredos, aparentemente contraditórios: é possível estar só mesmo entre muitas pessoas. Ficar sozinho na multidão. É um estado de espírito, um hino à solidão. Dizem até que é melhor ficar só do que mal acompanhado. Tarefa para terapeutas, mas é preferencial pedir e receber a ajuda do nosso bom e misericordioso Deus, diante do colapso de emoções. É a nossa nova tarefa.

Há quem prefira isolar-se, mesmo sem o vírus. Adolescentes adoram trancar-se no quarto. Aprisionam-se, querendo fugir de algo indecifrável. Não é a pretensão de mudar o mundo em que vivem, mas acreditar que o mundo gira em torno deles. Nasce daí a tentação de desprezar e desistir da vida, um desejo cego, mas faminto como o amor. O solitário tende a sentir-se incompreendido. Acha que na sociedade não existe mais espaço para ele.

O poeta John Donne escreveu que “nenhum homem é uma ilha, sozinho em si mesmo”, pois “a morte de qualquer homem me diminui, porque eu sou parte da humanidade; e por isso nunca mandes indagar por quem os sinos dobram; eles dobram por ti”. 

Isolar-se deliberadamente é não querer viver junto de ninguém. Pessoas assim acreditam que apenas elas estão certas e o mundo todo, errado. A fórmula não funciona. Com o apóstolo Paulo, por exemplo, aprendemos que “devemos olhar para tudo e reter o bem, fazendo do conhecimento um grande reforço na fé, que nos livra de engodos, superstições e equívocos, as matérias primas da desinformação e da mentira” (1Ts 5.21).

Ninguém é uma ilha, ninguém vive sozinho, ninguém se esconde dentro de uma bolha imaginária, ninguém se blinda para ficar longe de incômodos indesejáveis. Nós, militantes da fé, sabemos que devemos encaminhar ao Senhor os aflitos, uma etapa da acolhida amorosa para abertura de novos caminhos e descobertas surpreendentes.

Num mundo multifacetado, precisamos ir mais longe. Consultemos, pois, as Escrituras, o manual divino. Já no livro das origens, vemos “que não é recomendável ao ser humano estar só. Deve multiplicar-se”. Isso é uma coisa. Outra, diferente, percebermos que Jesus, nosso Mestre, gostava de afastar-se de todos para orar, não para se isolar, mas para estar intimamente com o Pai.

Temos outros exemplos bíblicos:

Elias foi ficar sozinho no ribeiro de Querite (1Rs 17.3);

Jó, ao lado de três amigos (2.11), sentiu-se irremediavelmente só,

o mesmo sentimento de Daniel, jogado na cova dos leões;

João, só na caverna da ilha de Patmos, recebeu a revelação do último livro da Bíblia;

Jesus, só no Getsêmani;

a recomendação de que ”melhor é serem dois do que um” (Ec 4.9)

e a informação de que há um amigo (Cristo) “mais chegado do que um irmão”(Pv 18.24);

Elias, amedrontado, se escondeu na caverna da solidão, ameaçado de morte por Jezabel, a alucinada mulher do rei Acabe, que procurava igualar Baal a Deus, ouvindo dele a pergunta na caverna: “Que fazes aqui, Elias?”.

O profeta saiu vitorioso. Jezabel foi devorada por cães (1Rs 21.23). Aprendemos na Palavra: “Quem está com o Senhor, nunca está só”. Como ensinou Santo Agostinho: Deus é mais íntimo a nós do que nós a nós mesmos.

Solidão implica em meditar: por que gostamos dela? Soa como uma súplica: podemos pedir que ela não nos seja tirada, sem o contraponto da autêntica companhia. Há pessoas que nos fazem bem, porque nos alimentam. São bálsamos de consolação, solidárias, presentes, vivendo as nossas aflições, vibrando com as nossas alegrias, entendendo que a solidão pode ser sinônimo de desolação, pois segundo o poeta Fernando Pessoa, “Cada homem é ao mesmo tempo um ente individual e um ente social” e, por vezes, o recolhimento voluntário é a fórmula para ser “sincero e puro na alma”.

Certa vez, o filósofo Arthur Schopenhauer foi ao topo de um monte e viu porcos-espinho procurando se aquecer do frio. Contudo, espetavam-se com seus pelos ponte agudos e, por isso, saíam de perto uns dos outros. O professor Leandro Karnal interpreta a cena: “Quando solitários, somos livres, porém passamos frio. A dois, ou em grupo, as diferenças causam dores”.

Alguns pensam, erroneamente, que a saída plausível seria um mundo virtual. Já vimos que não. É insuportável. Solidão excessiva pode ser fatal. Envolve tristeza, depressão e aflição pelo isolamento. Onde ela aparece mais? Em grupo ou, paradoxal, na própria família. Assim sendo, a solidão não quer dizer, necessariamente, não ter ninguém como companhia e nem ter alguém ao lado significa companhia.

Os jovens podem ser completamente dominados pelo controle remoto ou ficar entorpecidos pelas redes sociais, conversando pelos teclados. São disfarces tecnológicos para doenças da alma. Como anular esse tipo de domínio? Recuperando e reatando laços, transformando relações tênues em ligações sólidas, conectando-se consigo mesmo e com o mundo, deixando de ser apenas um coração solitário. As agressivas discussões políticas nada mais são do que os espelhos de cada um, porque partem de quem não pensa e nem ouve.

Nas questões da alma, a inteligência que Deus nos deu não pode faltar: comportamentos lamentáveis são fugas para sentimentos de insegurança. Entretanto, a solidão planejada pode ajudar no amadurecimento individual e na busca do ser equilibrado, procurando a resposta para a grande pergunta: Quem sou?

É a troca dentro do solitário que lida com seu Narciso particular, o personagem da mitologia grega, que – belíssimo – preferia viver em solidão, contemplando embevecido a si próprio, acreditando que não haveria no mundo alguém mais bonito do que ele. O solitário narciso real pensa que é o centro do mundo, que não existe ninguém mais importante do que ele. Leia-se no masculino e no feminino: a tristeza na solidão simboliza o narciso ferido, afogando-se no lago contemplativo da vaidade, pensando que possa existir felicidade na solidão.   

No caso das infecções, precisamos usar máscaras. Na hipótese da ausência testada da enfermidade, encontramos outro tipo de máscara. Sêneca, filósofo romano, trocou várias cartas com o apóstolo Paulo e mostrou várias delas para o sanguinário Nero. Calvino escreveu seu primeiro livro tomando como base exatamente essas cartas. Sêneca referiu-se ao uso de máscaras, não as usadas para prevenção de contaminações, mas a outra, que encobre intenções que procuram falsear a personalidade: “Ninguém pode usar máscara por muito tempo”. Ou seja: não se consegue enganar por todo o tempo.

Um dia, a máscara cai. Nesses tempos difíceis, de isolamentos e perspectivas de grave regressão econômica, com fortes impactos sociais, precisamos prestar muita atenção nos mascarados populistas e demagogos, e fixar nossas ações, tirando lições para aplicá-las nesse momento de enfermidades morais, afetação das almas e carência das ações cristãs, que hoje exigem forte conexão interdisciplinar. 

Percival de Souza
Jornalista e Escritor
Membro da 1ª IPI de São Paulo, SP

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

O ESTANDARTE