VÍRUS NAS ALMAS

O vírus começou a se espalhar na Ásia, foi avançando, ganhou cada vez mais espaço, cruzou oceanos e continentes, instalou-se poderosamente. A epidemia alcançou rapidamente os contornos letais da pandemia. Normas e cuidados foram implantados, as precauções chegaram às igrejas, afetando rotinas, maneiras de cumprimentar e as liturgias dos cultos, também virtuais.

Coisas demoníacas, disseram alguns. Teve até polícia em cima de charlatães/vendilhões que “vendiam” imunização, usando e abusando da palavra “ungido”. Uma médica, em Ribeirão Preto, SP, anunciou ter em seu consultório uma vacina extraordinária, exclusiva, vendida a preço nada módico, para neutralizar eventuais ataques do coronavírus. Embustes, mentiras, insinuações medíocres, estelionato espiritual e tentativas de lucrar com a perigosa ameaça ao planeta.

Que fazer para enfrentá-lo? Isolamentos, máscaras, internações, cuidados extremos com higiene pessoal, nada de abraços, beijinhos, aglomerações e outras providências.

Experimentei o isolamento, imposto pela faixa etária, e passei a meditar sobre os valores reais da vida, subitamente colocados em xeque. Constatei o óbvio, olhando para cuidados, sobre o transcendente, a salvação e a imunização contra o pecado, percebendo que muitas almas estão contaminadas. Os sintomas iniciais são um bolor, uma espécie de mofo que se instala nas almas, que passam a não reagir, cedendo às manifestações tentadoras do pecado, que são as formas de se relacionar pessimamente com Deus. Diagnóstico inevitável: há vírus infectando as almas e causando alta febre espiritual.

Analogia com o corona: o vírus que devasta a alma é mais nefasto, pois provoca o contágio de maneira insidiosa, maléfica, as marcas do pai da mentira, e vão conquistando uma vida aos poucos, até se tornar o senhor absoluto dela, sepultando o bem e fazendo sobressair o mal. Isto é o pecado! Esta é a alma vulnerável, quando não protegida pelos antídotos espirituais. As consequências estão espalhadas e acabam despercebidas porque vamos nos acostumando a elas, resignados, admitindo a sua proliferação como uma peste envolvente.

Em tempos de desafios à saúde pública, que impõem aos cidadãos a supremacia do poder dos governantes, necessária para salvar vidas, o apóstolo Pedro é ótima referência ao se referir à salvação das almas: “…obtendo (alcançando) o fim da vossa fé, a salvação das vossas almas” (1Pe 1.9). O mesmo Pedro nos exorta à abstenção dos desejos carnais, “que promovem guerra contra a alma” (1Pe 2.11). Na mesma linha, Tiago estimula a renunciar a toda imundície e excessos de maldade, recebendo com humildade a Palavra que foi plantada em nossos corações, “capaz de salvar as vossas almas” (Tg 1.21”.

Nosso Mestre e Salvador chega a perguntar que proveito poderia tirar o ser humano se, mesmo ganhando o mundo inteiro, perdesse a sua alma (Mt 16.26). É certo que tem gente que prefere vender a alma, como fez o doutor Fausto com o diabo, na monumental obra de Goethe. Há Faustos (tantos…) por aí.

Mas o que é a alma? Você entra na igreja só com o corpo e a deixa pendurada à entrada? Não. Estamos falando daquela que vem a ser a sobrevivência e a subsistência post-mortem de um elemento espiritual, dotado de consciência e vontade. É a sustentação da fé. Nossos orientadores espirituais são pastores de almas, cujo trabalho possui a abrangência de zelar por elas, curá-las, resguardá-las para o bem. A salvação das almas se constitui na lei suprema da igreja.

Almas não podem estar mofadas, emboloradas, alvo fácil dos ataques dos lobos de nosso tempo. Precisam estar ativas, saudáveis. Como se diz nas academias que cultuam o corpo, as almas precisam estar saradas, fortes, robustas, bem alimentadas espiritualmente. Não se pode deixá-las vazias, como adverte o profeta Isaias (29.8), ao compará-las com o faminto que sonha estar comendo, mas, ao acordar, sente a alma vazia, faminta.

A Palavra ensina que a alma não é víscera, mas substância espiritual, sem formas ou estrutura, que, numa simbiose incrível, une-se ao corpo, integrando-se plenamente ao ser humano desde quando o Senhor deu-lhe o sopro da vida (Gn 2.7), tornando o ser humano alma vivente.  Como disse Aristóteles: a alma passou, assim, a ser o princípio pelo qual vivemos, sentimos, nos movemos e pensamos, desse modo igualmente definido por Tomás de Aquino na sua obra Suma Teológica.

Alma é o princípio vital, criado por Deus, com racionalidade, espiritualidade e imortalidade. Não nasce dos pais, gerada, e sua criação vem diretamente de Deus. A alma nasce ainda no seio materno, provavelmente no momento da concepção. Sendo princípio vital, é ela que faz o corpo ser o que realmente é, na essência: um corpo humano. Deve ser sinalizado, aqui, que a igreja tem a sua alma, que é o Espírito Santo animando seus membros com sua graça santificante. Esta é a igreja mater et magistra – mãe, mestra e educadora – ensinando que no Senhor está o manancial da vida, isto é, na tua luz, vemos a luz (Sl 36.9).

O coração sem amor é vazio. O ser humano despencando no espaço, com falta do que o anime – esperança, alegria, vontade. Como ter paz permanecendo no vácuo? Se vazia, a alma fica pesada. Dói. Vida vazia. A pior solidão é a ausência de Deus. A única solução é permitir que Deus faça em nós habitação, dando conteúdo à nossa alma. Ela pode estar infectada porque, curvando-se aos prazeres do mundo e alijando a perspectiva do transcendente, adere ao pecado, que é desobediência a Deus. Por causa de um só, Adão, toda a humanidade se tornou pecadora. Por causa de um só, Cristo, todos podem se tornar justos (Rm 5.18).

O pecado é a lama onde se chafurda. Muitas almas preferem viver atoladas no lamaçal, abusando do livre arbítrio, fazendo com que se relacionem muito mal com Deus, porque preferem odiar a amar, ausentes e não solidárias, transformando o próximo num inatingível ser distante – todas as práticas que desagradam ao Senhor, sempre disposto a nos resgatar da lama maléfica do pecado. Alma infectada é alma com baixa imunidade, vulnerável, contaminada, à espera de uma vacina redentora e de um remédio eficazmente duradouro e não volátil, Cristo, que cura todas as feridas e enfermidades.

A catástrofe do coronavírus serviu para ensinar a humanidade que não se consegue viver sem solidariedade. Ou ajudamos uns aos outros ou… perecemos. Curioso é que isso está escrito e previsto: os fariseus, que viviam aborrecendo a Jesus com suas perguntas capciosas, insistiram nelas mais uma vez (Mt 21.36), perguntando a Ele qual seria o grande mandamento e obtendo a resposta: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Mt 21.29). Isso dito após afirmar: “Amar o Senhor de todo o eu coração, o grande e primeiro mandamento.

A resposta aos fariseus nos oferece oportunas nuances. A solidariedade, antes espontânea, virou item de sobrevivência, se bem que amar a si mesmo é prática automática, assinalada pelo apóstolo Paulo: “Ninguém odiou a própria carne, antes a alimenta a dela cuida, como também Cristo o faz com a igreja” (Ef 5.29). Tem gente egoísta que faz de conta que o próximo não existe.

Diante da calamidade pública, aprende que é preciso despir-se de qualquer individualismo e pensar no coletivo, o próximo, os próximos, porque um depende de todos e todos podem depender de um. Há tempos, uma frase aparentemente misteriosa apareceu escrita em fachadas e muros de São Paulo: “Mais amor, por favor”. A frase é inspirada nos evangelhos. Ou você é solidário porque sente em seu coração a necessidade de amar ao próximo, ou acaba aprendendo que chega a hora em que você é o próximo para o outro.

Sendo assim, ninguém é uma ilha em si mesmo. Não se vive sozinho. Não existe eremita social. Livre-se do vírus. Previna-se. Combata-o. Proteja-se. A sua alma, salva, irá sentir-se bem melhor.

Percival de Souza
Jornalista e Escritor
Membro da 1ª IPI de São Paulo, SP

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