INTELIGÊNCIA EMOCIONAL – DESAFIO PARA LIDERANÇA ECLESIÁSTICA SAUDÁVEL

Desde sempre a liderança foi um desafio laborioso, dentro ou fora dos limites da religião. Assim como outras ciências do comportamento, a psicologia tem trabalhado nas duas últimas décadas, produzindo ferramentas que melhoram o desempenho da liderança em todos os âmbitos, na mesma rapidez com que se constrói um novo conceito da figura do líder.

No novo paradigma de liderança, não há mais espaço para o líder que “explode” por uma fagulha qualquer, fere a equipe com rispidez, encolhe-se de medo com frequência ou se melindra com facilidade.

O problema não é a emoção, mesmo porque todas as emoções são legítimas na dose adequada. O problema é a perda do controle de uma situação em face à emoção “mal dosada”.

Para os cristãos, a temperança expressa a contenção de excessos. Portanto, o objetivo da inteligência emocional é o equilíbrio e não a supressão das emoções.

Uma vida sem paixões e emoções seria um deserto de neutralidade, ao passo que uma vida com emoções descontroladas seria uma inundação com redemoinhos.  

Conhecendo o perigo do descontrole emocional que permeia o patamar da liderança, a ciência passou a investir no tema. Há cerca de duas décadas, o mundo conheceu a teoria e a expressão talhada por Daniel Goleman, psicólogo e jornalista: “Inteligência Emocional, a capacidade de identificar nossos próprios sentimentos e dos outros, de nos motivarmos e gerirmos os impulsos dentro de nós e em nossos relacionamentos”.

Uma recomendação bíblica

“Quando as pessoas não têm alta inteligência emocional, as emoções saem descontroladas. Elas podem ter um ataque de raiva ou se isolar. Passamos por várias situações ao longo do nosso dia que vão nos tirando da nossa linha de base. Algumas pessoas usam agressão física, outras, gritos ou uma estratégia para resolver a situação, acalmar a emoção e voltar à linha de base”, explica a psicóloga Adriane Arteche.

Não podemos nos furtar a reconhecer esta necessidade em nossas comunidades de fé. Algumas delas já se tornaram ambientes tóxicos.

Um dos conceitos desenvolvidos por Goleman diz respeito à existência das duas mentes – a mente emocional (que sente) e a mente racional (que raciocina) – bem como o desafio de nivelar ambas.

Quem consegue homogeneizá-las tem melhor sociabilidade e reúne maior capacidade para liderança.

Muitas descobertas científicas reafirmam verdades bíblicas milenares. Por exemplo, no livro de Provérbios encontramos 4 versos relacionando o domínio próprio à sabedoria de vida. Um deles chama a atenção: “Melhor é o homem paciente do que o guerreiro; mais vale controlar o seu espírito do que conquistar uma cidade” (Pv 16.32).

Quando observamos o fruto do Espírito com suas nove “fatias” elencadas em Gálatas 5.22-23, notamos que 6 delas se referem à inteligência emocional: paz, longanimidade, benignidade, bondade, mansidão e domínio próprio.

Um requisito para o líder cristão

Pensando em liderança eclesiástica, quando da vocação de Moisés, 40 anos depois do ato de “desequilíbrio emocional” quando matou o egípcio, o texto relata: “Moisés era homem mui manso, mais do que todos os homens que havia sobre a terra” (Nm 12.3).

Uma tradução livre para os termos manso, paciente e humilde seria “aquele que domina suas emoções sem perder a firmeza”.

Da lista de 14 qualificações requisitadas para o episcopado, 7 delas dizem respeito ao equilíbrio emocional (temperante, sóbrio, modesto, não dado ao vinho, não violento, cordato e inimigo de contendas).

John MacArthur escreve: “Há uma razão boa e vital pela qual Paulo disse: ‘A ninguém imponhas precipitadamente as mãos’ (1Tm 5.22). As qualificações bíblicas para os presbíteros são todas características de piedade e dons que devem ser provadas ao longo do tempo. Um homem pode saber instintivamente como causar uma boa impressão. Ele aparenta superficialmente ter o pensamento afiado, ser bem informado, ser maduro ou ser supremamente dotado como um professor. Mas ele pode ter, na verdade, sérios problemas que o desqualificariam para o presbiterato e algumas vezes esses problemas se tornam claramente evidentes somente através de padrões de comportamento de longo prazo”.   

Quando lidamos com a relação “autoridade e relações interpessoais” no Reino de Deus, desde coordenadores de Escola Dominical até líderes maiores de denominações, os princípios são análogos aos do mundo corporativo.

Liderar de forma saudável requer equilíbrio emocional em qualquer espaço e, se pensarmos em valores eternos, a liderança eclesiástica requer maior zelo.

Não podemos negar que há um número sem fim de líderes cristãos que seriam abençoadores quando consideramos a capacitação, a formação e a disposição. No entanto são trôpegos e imprevisíveis quando se trata de controle sobre as emoções. 

Por outro lado, as crescentes demandas do cotidiano acabam por empurrar o líder para o pico de estresse. Pastores são constantemente provocados, discretamente insultados, frontalmente cobrados, requeridos, inqueridos, desafiados.

Segundo Goleman, todas as emoções são impulsos legados pela evolução para uma ação imediata. É exatamente aí que mora o perigo.

Há alguns anos, ouvi a respeito de um pastor que retornava de um concílio longo e muito desgastante. Viajou num ônibus sem ar condicionado, durante toda a noite. Sua mente estava ocupada com a escolha de um bom texto para a pregação do domingo e, por isso, não pegava no sono. Sua sobrecarga de atividades era intensa.

No fim da madrugada, o ônibus passaria bem próximo à sua casa antes de chegar à rodoviária e ele solicitou o favor do motorista em parar, o que o facilitaria.

No entanto o motorista alegou não poder fazer paradas fora da rodoviária.

O pastor explodiu em protestos e, na chegada, o conflito culminou em troca de ameaças e empurrões.

No domingo à noite, ele não conseguiu pregar e a igreja parecia estar de luto. A cidade era pequena e as notícias corriam velozmente.

Ao longo da semana, ele teve de ser transferido, pois as dificuldades seriam enormes em administrar os desdobramentos dos seus “cinco minutos de bobeira”. Trata-se de um excelente ministro, entrementes traído pelo pico de estresse.

Um desafio para nossos dias

Precisamos constantemente avaliar a proporcionalidade entre nossos sentimentos e as circunstâncias que os provocam.

De que forma respondemos às contrariedades da equipe de trabalho? Em que proporção projetamos nossas emoções quando somos questionados em reuniões?

Ouvi a respeito de um colega pastor que, ao longo do ministério de 23 anos, passou por 19 igrejas locais, algumas delas pastoreando menos de um ano. Sempre, a seu ver, amparado por fortes razões, mas deixando, em todas as vezes, o relacionamento com a liderança estremecido.

A ciência do comportamento aponta que este dilema será cada vez mais frequente na sociedade, o que também atinge a igreja.

As emoções são contagiantes e, num mundo superpopuloso, rápido e esgotante, elas tendem a ser pandêmicas.

Aliás, a psicologia já alerta para a “pandemia dos relacionamentos tóxicos”.

Paulo, o apóstolo, já alertava Timóteo: “Nos últimos dias, sobrevirão tempos trabalhosos; porque haverá homens amantes de si mesmos, avarentos, presunçosos, soberbos, blasfemos, desobedientes a pais e mães, ingratos, profanos, sem afeto natural, irreconciliáveis, caluniadores, incontinentes, cruéis, sem amor para com os bons, traidores, obstinados, orgulhosos, mais amigos dos deleites do que amigos de Deus, tendo aparência de piedade, mas negando a eficácia dela…” (2Tm 3.1-5).

Deus nos dê graça para o exercício de liderança emocionalmente saudável!

Rev. Marcos Kopeska Paraizo
Pastor da 3ª IPI de Marília, SP

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