ESPIRITUALIDADE E SAÚDE

O tema espiritualidade e saúde tem sido muito abordado nos últimos anos por vários autores, em que se destaca o psiquiatra Dr. Harold Koenig, da Universidade de Duke, da Carolina do Norte, EUA.

Segundo ele, a espiritualidade é uma “busca pessoal de respostas sobre o significado da vida e o relacionamento com o sagrado e/ou transcendente”. É, portanto, aquilo que motiva e impulsiona o indivíduo; um entendimento de que existe algo a mais na vida do que pode ser completamente compreendido.

A religião pode ser entendida como um conjunto de crenças e práticas, que ajudam a aproximação com o transcendente. O religioso, portanto, é um seguidor desses padrões.

Do mesmo modo, a espiritualidade pode ser entendida como a busca de significado à vida de uma maneira transcendental, podendo ou não incluir a prática religiosa.

A História da Medicina nos relata que, na antiguidade, os primeiros médicos babilônios eram sacerdotes.

Os egípcios davam importância às práticas religiosas relacionadas à prática médica.

Os cientistas gregos consideravam a existência da alma.

Os hebreus supervisionavam as regras de higiene social e tinham um vasto conhecimento anatômico.

Antes do século IV, não existiam hospitais. Em 370 d. C, os cristãos ortodoxos criaram um grande hospital na Turquia. Depois de 1200 anos, esses estabelecimentos estavam espalhados por toda a Europa, sendo o controle das universidades realizado pela igreja.

Dessa maneira, por muito tempo, houve uma relação entrelaçada da espiritualidade e religião com a saúde.

Da Idade Média à Revolução Francesa, os médicos clérigos eram os responsáveis pelo licenciamento profissional. No entanto, no século XVI, ocorreu a diminuição desta influência, determinando o afastamento entre religião e ciência.

Neste novo modelo, importava as anormalidades biológicas e os micro-organismos causadores de doenças. Assim, criou-se um protótipo que ignorava os “aspectos psicológicos e espirituais da saúde”, em que a racionalidade era centrada exclusivamente no aspecto físico-biológico. Enfim, um modelo mecanicista baseado em causas, diagnósticos e tratamentos.

Na atualidade, surge uma nova mudança. A saúde não é mais vista apenas como a ausência de doenças. A própria Organização Mundial de Saúde, em 1998, a definiu como “um estado dinâmico de completo bem-estar físico, mental, espiritual e social”. O aspecto espiritual foi consignado neste conceito.

Faz-se mister entender que as pessoas têm necessidades espirituais e desejam que essas carências sejam incluídas em seu cuidado. Muitas pesquisas apontam para o binômio saúde-espiritualidade e, por essa razão, no presente, há muitos grupos de estudos sobre o tema compostos por médicos, enfermeiros, terapeutas ocupacionais, psicólogos, etc.

A maioria das escolas médicas norte-americanas já oferecem o ensino de espiritualidade em seus currículos.

No Brasil podemos citar: UFF (Núcleo de estudos em saúde e espiritualidade -Nesme), USP (Programa de Saúde, Espiritualidade e Religiosidade da Faculdade de Medicina – ProSer), UFJF (Núcleo de Pesquisa em Espiritualidade e Saúde -NUPES), UFC e UFRS.

Vários aspectos positivos são reconhecidos nesta relação espiritualidade/religiosidade/saúde (E/R/S).

Pessoas que apresentam (E/R/S) detêm menores taxas de depressão e maior otimismo. Há menor incidência do uso de álcool, tabaco e outras drogas, como também a ocorrência de baixas taxas de suicídio.

Esses indivíduos igualmente referem ter melhor saúde, satisfação com a vida e comunidade.

Os estudos também indicam maior expectativa de vida, efeitos favoráveis no controle da pressão arterial, aumento da prática de exercícios físicos e aumento na resposta imunológica.

O Conselho Federal de Medicina em seu site apresenta um artigo sobre o assunto intitulado: “Espiritualidade na vida e no consultório faz bem à saúde”.

Contudo, essa relação E/R/S pode trazer também aspectos negativos, se porventura essa seja entendida de maneira equivocada. Uma sensação de “superioridade” em ter uma “proteção especial” pode fazer com que o indivíduo deixe de tomar as medidas de prevenção como uso de máscara, falta de distanciamento social, não utilização de vacinas, etc.

Há de se considerar que o ser humano é suscetível. Logo, a presunção de “ser especial” pode determinar a aquisição de riscos desnecessários, como o abandono de medidas de profilaxia e/ou a negação ou substituição do tratamento médico. 

Ainda na avaliação desses aspectos, o uso da oração aliada a pensamentos mágicos pode culminar em frustação, caso esses pedidos não forem realizados, e até à indução de culpa.

E, finalmente, pessoas de má índole podem utilizar “a religião” como ferramenta de controle e dominação.

Na própria Bíblia, há um alerta: “O propósito é que não sejamos mais como crianças, levados de um lado para outro pelas ondas, nem jogados para cá e para lá por todo vento de doutrina e pela astúcia e esperteza de homens que induzem ao erro” (Ef 4.14).

É importante, portanto, uma reflexão sobre a espiritualidade cristã que apresenta a mensagem das boas novas e tem como referência Jesus.

Ele nos deixou o projeto que dá sentido à vida. Na Teologia do Caminho, o Senhor instruiu através de exemplos marcados no encontro de pessoas: a mulher samaritana (Jo 4.7- 26); a mulher adúltera (Jo 8.3-11); o homem paralítico (Mc 2.1-12); a viúva de Naim (Lc 7.11-17); a viúva pobre (Lc 21.1-4).

A Bíblia traz o registro dessas pessoas reais com necessidades diversas, iguais às de nossa realidade e que, identicamente, buscavam saúde física, emocional, material, etc.

Nas Escrituras, há registros de muitas circunstâncias que nos levam a concluir que é necessário aceitar nossas limitações, perdoar e aceitar o perdão, deixar as mágoas do passado, buscar estabilidade emocional e entender o papel fundamental da família.

Jesus apresentou a direção e afirmou: “Eu sou o caminho, e a verdade e a vida” (Jo 14.6).

O seu ensino com respeito, empatia, compaixão e amor contém palavras simples e histórias cotidianas. Ele anunciava o evangelho de vida e libertação das pessoas e declarava: “Eu vim para que tenham vida, e a tenham com abundância” (Jo 10.10).

Vários ensaios científicos comprovam a importância da espiritualidade para a saúde. Logo, não se deve considerar uma dicotomia entre ciência e fé. 

É relevante ressaltar que a espiritualidade cristã disponibiliza a via apresentada pelo próprio Senhor, uma vereda simples para a saúde integral.

Referências

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CATÃO, MO. Genealogia do direito à saúde: uma reconstrução de saberes e práticas na modernidade[online]. Campina Grande: EDUEPB, 2011. A Medicina Contemporânea. pp. 51-100. ISBN 978-85-7879-191-9. Disponível em: SciELO Books <http://books.scielo.org>. Acesso em 17. Mar. 2021.

CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA. Espiritualidade na vida e no consultório faz bem à saúde. Disponível em:<https://portal.cfm.org.br/noticias/espiritualidade-na-vida-e-no-consultorio-faz-bem-a-saude/.

GUIMARAES, Hélio Penna; AVEZUM, Álvaro. O impacto da espiritualidade na saúde física. Rev. psiquiatr. clín.,  São Paulo ,  v. 34, supl. 1, p. 88-94,    2007 .   Disponível em <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-60832007000700012&lng=en&nrm=iso>. Acesso em  17  Mar.  2021.  https://doi.org/10.1590/S0101-60832007000700012.

KOENIG, H. G., (editor). Espiritualidade no cuidado com o paciente. Por quê, como, quando e o quê. São Paulo: Editora FE; 2005.

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VOLCAN, S. M. A., SOUSA, P. L. R., MARI, J. J. , HORTA, B. L. (2003). Relação entre bem-estar espiritual e transtornos psiquiátricos menores: estudo transversal. Revista de Saúde Pública, 37(4), 440-445.

Rita Riga
Docente de medicina, membro da IPI Central de Presidente Prudente, SP

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