JESUS POR DETRÁS DAS GRADES

Eis que o Mestre se dirigiu à sinagoga, em Nazaré, abriu o livro do profeta Isaías e leu: “Ele enviou-me para proclamar libertação aos cativos…” (Lc 4.18). Depois, fechou o livro e devolveu-o, com todos tendo os olhos fitos nele.

Os cativos serão alvos de profundas observações e vamos tentar fazer algumas delas. O cativo está preso, enclausurado, enjaulado, trancado, segregado, isolado. Nos tempos antigos, havia o costume de libertar um dos prisioneiros no período da Páscoa. Pilatos ofereceu a opção entre Barrabás e Jesus, preferindo lavar as mãos para que a turba enfurecida fizesse a escolha. Nem sempre, aqui fica a lição, a multidão está com a razão.

O apóstolo Paulo se identifica como “prisioneiro de Cristo” (Ef 3.1 e 4.1; Fm 1.1 e 23). Estar impossibilitado de se locomover é uma circunstância a ser apreciada em várias circunstâncias. Dostoiesvski, escritor russo, relata os tormentos da vida na gélida Sibéria (Recordações da Casa dos Mortos), mesmo lugar onde eram confinados e torturados os presos políticos de Josef Stalin. A violenta repressão secreta foi também retratada por Alexander Soljenitsin (vencedor do Prêmio Nobel de Literatura em 1970), ele mesmo prisioneiro no campo de concentração e trabalhos forçados, a vergonha por muitos anos oculta do sistema comunista, exibida em Arquipélago Gulag.

No Brasil, a prisão compõe um universo de mais de 800.000 prisioneiros, a terceira maior população carcerária do planeta. Amontoados como se estivessem num depósito de gente, entram no sistema de regras próprias, nada convencionais, ligando-se, muitas vezes, por sobrevivência, a facções criminosas, detentoras do poder interno e mantendo contatos com o mundo exterior, as marcas registradas do crime organizado. Que gente é essa? Praticam, na maioria absoluta, crimes contra o patrimônio (roubos e furtos), tráfico de drogas e assassinatos. O restante do cardápio penal é distribuído entre outros crimes. Lá dentro, a vida é cruel. Quando as facções brigam entre si, cabeças são cortadas, órgãos do corpo são arrancados (e até comidos por ferozes inimigos canibais). Vive-se com medo e, quando se consegue uma arma (branca), ela se transforma em passaporte de uso interno para a vida ou a morte. Os presos misturam-se entre si: o recém-chegado, o empedernido, o traficante, o assassino, o bandido nato, a massa disforme que se molda com características particulares para o recrutamento feito sistematicamente pelas facções, que chamam os presídios de “Faculdade”, porque elas são, de fatos, escolas do crime.

Isso tudo quer dizer que o poder, de fato, pertence ao crime organizado e o poder paralelo fica com o Estado. Parece absurdo, mas é isso mesmo que você acaba de ler.

Este, em síntese, é o cenário sórdido do cotidiano infecto das nossas prisões. É neste mundo que nosso Jesus pode entrar por meio de mensageiros, pregadores solitários, voluntários, humanistas. Pode ser barrado também, como visita indesejável. É aí, como dizem na cadeia, que o bicho pega. Sim ou não? Claro que nosso Senhor não pode ser confinado em lugar algum e, ao mesmo tempo, faz uma exigência “sine qua non”: só entra em lugares onde queiram recebê-lo, isto é, aceitá-lo prazeirosamente, de todo coração. Ele bate à porta. Se abrirem, Ele entra. A porta da cela, também. Nenhuma grade pode impedi-lo. Jesus não é carcereiro de ninguém. É libertador. Costuma dizer, indiretamente: “Ou você muda seu jeito de ser ou será a escuridão”. Mas também nos fala de maneira bem direta: “Você pode sair das trevas. Eu sou a luz do mundo”.

Mestre no cárcere

É certo que, narram as Escrituras, no dia do grande julgamento, Jesus haverá de afirmar: “Estava preso e fostes ver-me” (Mt 25.36). Perguntarão (ou perguntaremos): quando foi isso? Ouvirão (ou ouviremos): “Sempre que o fizestes a um destes meus pequeninos, a mim o fizestes (Mt 25.40).Na epístola, também se recomenda: “Lembrai-vos dos encarcerados, como se presos com eles” (Hb 13.3).
Aqui está o “punctum saliens”, ou seja, o nó. É uma recomendação para colocar a visita aos presos na agenda? Ou poderia ser de vez em quando?

Na nossa realidade prisional, assim que são encarcerados, os personagens do mundo do crime são abandonados. Os “amigos” desaparecem, os componentes de quadrilhas somem, “os irmãos de fé” volatizam. Restam as mulheres: mães, na maioria, e as companheiras, em segundo lugar. É comovente: as mães não largam os fi lhos; as companheiras, cautelosas, cumprem o ritual humilhante das visitas, sabendo que precisam ser fiéis: monitoradas, podem receber a pena de morte, executada implacavelmente, quando ao transgredir as regras criminais de convivência.

Com tudo isso, são encontradas situações singulares.

Um grupo religioso instituiu, em São Paulo, o sistema de “adoção” para o preso – o escolhido passa a ser tutelado por “padrinhos”, que procuram proporcionar a ele todo tipo de assistência possível. Foi nessas circunstâncias que conheci uma mulher inacreditável: aderindo ao programa, ela “adotou” o assassino de seu filho. Fiquei a pensar: essa mulher tem dentro de si uma força espiritual incrível. Confesso: não seria capaz de fazer uma coisa dessas. O perdão, aqui, está muito acima dos meus limites pecadores. Perdão, Senhor, mas, para mim, não daria.

Conheci outra figura desse tipo: um assaltante, preso num presídio de grande porte, foi abandonado pelos parceiros e familiares. Solitário no cárcere, recebia uma única visita: a do homem que tinha assaltado. Fiquei intrigado: ninguém gosta de assassinos e ladrões.

Há de tudo na prisão. Conheci uma mulher que surpreendeu o juiz-corregedor dos presídios, à saída do Fórum. Estávamos juntos. Ela prostrou-se aos pés do juiz e, entre lágrimas, suplicou: “Doutor, solte o meu filho e prenda a mim no lugar dele”. O filho, ladrão, era um rapaz bastante jovem. O juiz voltou a seu gabinete e me perguntou o que fazer. Respondi: “Não sei. O juiz é o senhor”. Dias depois, o rapaz recebeu o direito a prisão condicional. Eu disse a ele: “Se você tivesse dinheiro para pagar o melhor advogado do Brasil, não conseguiria isso. Você deve a liberdade a essa mulher: sua mãe”. Os dois se abraçaram e choraram.
Disfarçadamente, chorei também.

Última reminiscência: conheci um preso que subitamente passou a dizer que estava convertido. O recém-convertido andava para baixo e para cima com uma Bíblia gigante nas mãos, até o dia em que um dos guardas penitenciários achou aquilo esquisito, apanhou a Bíblia e percebeu que o peso dela estava acima do que se poderia considerar normal. Desconfiado, abriu o que seriam as Escrituras. Era completamente oca, ocultando grande quantidade de maconha.

Assim é cárcere! É a mãe-prisão, que gera muitos filhos, como é atestado pelos altíssimos índices de reincidência. Ou seja: presos que entram, saem e voltam. Um desprezado laboratório de comportamento humano.

Platão, o filósofo grego, definiu o corpo como “prisão da alma”. Paulo se identifica como “prisioneiro de Cristo”. Mas como pode ser isso, se Cristo não aprisiona a ninguém? O apóstolo, porém, sabia muito bem o que estava dizendo: como ele se sentia preso, a igreja deve sentir-se presa a Jesus. O apóstolo se declara prisioneiro de Cristo e não de Roma; o domínio de César era circunstancial; quem domina é o Senhor.

E atenção, muita atenção: podemos ser prisioneiros de nós mesmos. Quando prisioneiros de um círculo materialista e consumista, sem espiritualidade e humanismo, participamos da destruição do espírito, nutrindo descaso com as pessoas; provocamos tragédias ambientais; cultivamos a ganância, proveta de fome, pobreza e doenças. Podemos estar na nossa prisão particular, onde quem está fora não entra e quem está dentro não sai. Agora, sim, entenderemos melhor: o Senhor veio libertar os cativos (e nós podemos estar entre eles), romper os grilhões e estender a benesse da salvação.

Percival de Souza
Jornalista e Escritor
Membro da 1ª IPI de São Paulo, SP

One thought on “JESUS POR DETRÁS DAS GRADES

  • 11 de junho, 2020 em 23:57
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