SE EU COMEÇASSE MEU MINISTÉRIO AGORA

O compositor brasileiro Ivan Lins tem uma conhecida música popular chamada “Começar de Novo”. É uma bela canção que vale a pena ser ouvida. Ela nos faz pensar na história bíblica na qual o Deus da Aliança caminha e não desiste do seu povo, o qual, com suas desobediências e arrependimentos, parece sempre estar recomeçando. Recentemente o Ministério SARA, cujo objetivo é o pastoreio de pastores, reeditou o livro do Rev. John M. Drescher, chamado “Se eu Começasse o Ministério Novamente”. É também esse o assunto que vamos abordar, inspirados por esse livro.

Hoje, vivendo meu 34º ano de ministério pastoral, reconheço que, enquanto algumas coisas eu faria como fiz, muitas outras eu faria diferente. O que você faria de diferente, se começasse seu ministério agora? Quero destacar algumas ênfases que daria se começasse meu ministério agora.

Se eu começasse meu ministério agora, eu:

1) Seria mais disciplinado no cultivo de minha devoção pessoal

Estamos rodeados de pastores com mentes brilhantes e corações enfermos. O desafio de unir erudição com piedade sempre está diante do ministério ordenado. Para não cair na tentação de instrumentalização da religião e profissionalização do ministério pastoral, a leitura e meditação nas Escrituras Sagradas e o tempo de oração a sós com Deus devem ocupar alta prioridade na agenda pastoral. É assim que a prática das disciplinas espirituais clássicas, como solitude e silêncio, contemplação e simplicidade, oração do coração e oração de escuta, estudo bíblico e lectio divina, jejum, entre outras, é questão de vida ou morte espiritual. Nosso ministério de ‘fazer’ para Deus só pode fluir de nossa devoção de ‘estar’ com Deus. Paulo orienta o jovem pastor Timóteo a se fortificar na graça de Cristo (devoção) e a ensinar outros (ministério) (2Tm 2.1-2). O próprio Senhor Jesus tinha a prática da devoção: “Como de costume, Jesus foi para o Jardim das Oliveiras…” (Lc 22.39). A vida devocional faz parte prioritária do ‘trabalho pastoral’ e não apenas quando sobra tempo.
O fato é que uma grande teologia requer uma grande espiritualidade! Você tem seu “jardim de oração”?

2) Seria mais disciplinado no uso do tempo para estudo e proclamação das Escrituras Sagradas

É grande o número de ministros que não possuem disciplina na leitura! Há uma avaliação que revela que 80% das atividades pastorais podem ser feitas por qualquer pessoa da igreja; cerca de 15% do que um pastor faz na igreja pode ser feito por um grupo treinado por ele e há 5% de atividades que somente o pastor pode fazer. Pregar e ensinar estão nos 5%! O drama é que nos envolvemos muito com os 80%, pouco nos 15% e não temos tempo para os 5%. Ocorre aqui a metáfora do “Ministério Pato”: corre mais ou menos, canta mais ou menos, nada mais ou menos e voa mais ou menos! Corremos de um lado para o outro, escravizados ao celular e vivendo a “síndrome do sábado”, quando a semana acabou e não temos o que pregar no domingo. Nesse ponto, encontra-se a relevância do estudo e da pregação, através de um planejamento e agenda, para não viver um modelo ministerial falido no qual você é “invisível na semana e incompreensível no domingo”. Confesso que me esmeraria muito mais no estudo e proclamação da Bíblia, se eu começasse meu ministério agora. Não caiamos na sedução de cursar mais uma pós-graduação em áreas que, de fato, nada acrescentarão no exercício ministerial da Palavra e dos Sacramentos! Aqui destaco a importância de pregarmos Cristo e não apenas a respeito de Cristo. Em Lucas 24, no caminho de Emaús, Jesus expôs a respeito de si em toda a Escritura. Jesus é o fundamento (1Co 3.11 e Gl 6.14). Lembremo-nos: o púlpito nos denuncia!

3) Procuraria ter um mentor para me apoiar e orientar

Cuidadores precisam de cuidado também! A Síndrome de Burnout, um esgotamento muito mais forte e abrangente do que um estresse, tem alcançado muitos ministros. O burnout é uma doença laboral, ou seja, está relacionada diretamente ao ambiente de trabalho. Ela envolve, especialmente, profissões que lidam com gente; por isso, alcança o ministério pastoral e missionário. Então, se começasse meu ministério agora, eu não caminharia sozinho jamais. Buscaria o apoio de alguém que inspirasse confiança e revelasse ter uma vida saudável de modo sistemático e intencional, pedindo que fosse um mentor para mim. Com o apoio de um mentor, eu minimizo meus erros e sou mais assertivo e prático no ministério. Um mentor não apenas está ao seu lado nas horas difíceis, mas desafia-o a aperfeiçoar seus dons e talentos, e a pensar de modo mais abrangente. O Ministério SARA (“Servindo de Apoio, Refrigério e Amizade) é parceiro da IPI do Brasil e tem como objetivo prioritário sensibilizar pastores a não caminharem sós, mas a buscarem mentores. Lembremo-nos: a pior solidão é a solidão dos nossos segredos! Busquemos apoio! Não caminhemos sozinhos! Um mentor pode ser a grande diferença no exercício de um pastorado saudável.

Ministério SARA – Servindo de Apoio, Refrigério e Amizade

4) Procuraria investir mais tempo pastoreando e treinando minha liderança

Numa pesquisa com pastores e líderes de igrejas sobre burnout citado por Bill Kemp em seu livro Holy Places, Small Spaces, as principais reclamações da liderança foram:

a) muito trabalho para fazer na igreja;
b) muito tempo numa função ministerial;
c) pouco apoio do pastor (não tem treinamento para o ministério);
d) pouca ajuda dos demais membros da igreja;
e) escutam muitas reclamações (administração de conflitos);
f) há muitas reuniões;
g) não recebem dos cultos nenhuma renovação espiritual;
h) recebem pouco reconhecimento e elogio.

Observe a letra ‘c’. Uma das reclamações é a falta de capacitação. Assim como Jesus em Lucas 6, a dedicação pastoral deveria ser: tempo com Deus (v. 12); tempo com um pequeno grupo (v. 13-16); e tempo com a multidão (v. 17-19). Exatamente nesta ordem.
É fácil se envolver demais com a multidão e esquecer-se de cuidar, treinar, discipular e pastorear a liderança que, sem dúvida, é um dos dons mais preciosos na igreja. Eu não hesitaria, se eu começasse meu ministério agora, em definir uma estratégia intencional para caminhar de perto com todos os líderes da igreja. O conselho de Jetro, sogro de Moisés, em Êxodo 18, deveria nos sensibilizar a ter em alta prioridade o discipulado de liderança. O movimento de Jesus caminhando de perto com os 12 apóstolos e o exemplo de Paulo que caminhava e trabalhava em equipe deveriam nos estimular a seguir seus passos.
É didático o exemplo comparativo entre os pregadores George Whitefield (1714 -1770) e John Wesley (1703-1791) que foram contemporâneos na Inglaterra no século XVIII. Os historiadores apontam que o impacto ministerial do eloquente pregador Whitefield encerrou-se quando este morreu, enquanto Wesley, com sua ênfase nos pequenos grupos, deu origem ao Metodismo, que se espalhou pelo mundo até hoje. Um foi um monumento e o outro provocou um movimento. Cuidemos e treinemos nossos líderes! Deixemos um legado de influência! Reproduzamos e ampliemos nosso ministério através de uma liderança treinada com alto compromisso.

Ah! Seu eu começasse meu ministério agora, com certeza eu falaria menos, concordando com a sabedoria de Brigid Hermann que escreveu: “Quanto mais nós conversamos com outros sobre tudo que estamos aprendendo e experimentando, menos nós precisamos falar com Deus; eu renunciaria à tendência de consertar tudo ao imaginar que no ministério tudo é um problema, que toda pessoa precisa ser consertada e que todo trabalho do Reino de Deus deve ser feito antes de eu morrer; gastaria mais tempo com o fraco, que é aquele não notado, como o idoso, o jovem demais e o socialmente excluído”.
Então, a canção nos animará, pois “Começar de Novo” vai valer a pena… E, assim, estancaremos os vazamentos de nossa atividade ministerial por onde escoam nossa paixão e entusiasmo espiritual!

Rev. Mário Sérgio Góis
Secretário Pastoral da IPI do Brasil
sec.pastoral@ipib.org

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