A AÇÃO DIACONAL DA IGREJA EM TEMPO DE CRISE

Somos instruídos pela palavra de Deus e aprendemos com Jesus, nosso senhor e salvador, que “o próprio Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir” (Mc 10.45). Ele assume que servir (diakoneim) faz parte e é uma marca dos seus ensinos, bem como de sua missão neste mundo e, por consequência, da missão de sua igreja.

Vez por outra, assistimos, estarrecidos, anúncios nos quais diversas ONGs mostram o sofrimento de muitos pela falta de tudo o que representa um mínimo de recursos para sua subsistência. Isso nos choca demasiadamente e, muitas vezes, tentamos nos engajar nos projetos de tais organizações, enviando recursos financeiros e orando.

Podemos também verificar que, ao longo da história, a própria estrutura da sociedade como um todo promove divisões que levam à fome, à miséria, às doenças, à concentração das riquezas nas mãos de poucas pessoas e à discriminação de todo tipo. O resultado de tudo isso é a geração de problemas sociais, políticos, econômicos, culturais e religiosos, que afetam a todos nós.

Diante dos desafios que temos, somos chamados a proclamar o evangelho a toda criatura, mas também a servir como igreja do Senhor Jesus. Como se já não bastassem as dificuldades impostas pelo sistema do mundo, estamos agora vivenciando um momento único na história, com uma crise provocada pelo contágio do covid-19.

Mas o que podemos fazer frente a tais tragédias que enfrentamos? Que tipo de ação podemos desenvolver neste tempo em que nós nos encontramos envolvidos numa gigantesca crise com incontáveis consequências?

Não pretendemos apresentar nenhuma solução mágica para todos os problemas, mas, como resposta, precisamos nos fundamentar em Jesus Cristo que, conforme nos mostram as Escrituras, é um exemplo de serviço ao próximo e um diácono por excelência.

O termo diaconia não é encontrado no Antigo Testamento, embora encontremos nele o conceito de serviço e de amor ao próximo (Lv 19.8). Ainda que o povo de Israel, no Antigo Testamento, fosse orientado a praticar a justiça e a solidariedade com os mais fracos e com os mais pobres, não havia um ensino claro e evidente a respeito da diaconia. No entanto, é no Novo Testamento, na pessoa e no ministério de Jesus, que o serviço em favor dos mais necessitados adquire sentido completo.

No contexto social do Novo Testamento, verificamos que quem servia eram os escravos, as mulheres e os servos. Porém, eles não serviam espontaneamente. Ao contrário, não dispunham de liberdade e eram obrigados a prestar serviço.

Contrariando tais costumes vigentes, Jesus se expressa de forma prática, voluntariamente, tornando-se exemplo de um novo modelo. Em nenhum momento, ele se distancia, mas se aproxima dos pobres, das mulheres, dos doentes e de toda e qualquer pessoa excluída a fim de servi-los e de socorrê-los em suas necessidades. Dessa maneira, Jesus se apresenta como o diácono por excelência.

Poderíamos continuar a discorrer a respeito da diaconia de Jesus porque sua atuação marcou todo o seu ministério. Mas vamos pensar em diaconia no contexto da profunda crise que enfrentamos nos dias de hoje.  

A assistência social passou a ser uma política pública e um direito social a partir da Constituição de 1988. Muitas pessoas têm sido amparadas pelas ações governamentais, desde então. Em função disso, o que permeia a nossa mente é que cabe ao estado a tarefa de cuidar das políticas sociais em parceria com a sociedade civil. Infelizmente, porém, sabemos que muitos ficam completamente desamparados nestes dias de pandemia.

Conhecemos a história de João Calvino no tocante à ação diaconal. Em meio às guerras, à fome e às epidemias, além dos problemas estruturais de sua época, o reformador de Genebra influenciou sua geração significativamente na ação diaconal, ensinando de púlpito e em seus escritos, bem como em sua atuação a importância do serviço e da assistência aos menos favorecidos.

Na perspectiva do nosso chamado, a diaconia, substantiva e prática, precisa ser teológica e eclesiológica. A diaconia tem de ser valorizada na proclamação da palavra e na obra da igreja, cumprindo o propósito e o mandato que Jesus nos ensinou.

Primeiramente, aprendemos, nas Escrituras Sagradas, que a diaconia nos leva a sermos amorosos no relacionamento com o próximo, na ajuda a ser ofertada (At 11.27-30, 2Co 8.1-5) e no acolhimento a todos os membros da comunidade.

A Bíblia nos ensina que, quando nos achegamos a Deus através de Jesus, Ele nos concede dons para que exerçamos a sua obra em favor do Reino a ser estabelecido aqui na terra. A igreja, organismo vivo, através de sua liderança, deve observar e administrar esses dons dentro do corpo e aproveitá-los, potencializando suas qualidades e qualificações de forma que o corpo cresça e se fortaleça (Rm 12.5-7), torando-se, então, um corpo com um “DNA” formatado para o serviço, em todos os momentos da vida da igreja.

De acordo com esse entendimento, ao colocarmos estas ações em prática, Deus estabelece vínculos unindo-nos a Ele e, também, aos nossos semelhantes. Em outras palavras, atuando de maneira diaconal, nós cumprimos a essência de todos os mandamentos divinos, ou seja, amamos a Deus, em primeiro lugar, e amamos ao próximo (Mt 22.34-40).

Estamos vivendo momentos difíceis, mas, sem dúvida, este é um tempo no qual podemos nos esmerar na criatividade, nas estratégias em inovar no sentido de ampliar a nossa forma de dar assistência ao próximo. Certamente esse cuidado trará seus frutos. Muitos, olhando para nossos atos, concluirão que somos discípulos de Jesus.

Muitas vezes, a nossa ênfase está em romper com a inércia em que nos encontramos como igreja. Temos muita dificuldade na valorização da diaconia. Chegamos até a reunir condições para servir aos mais necessitados, mas não conseguimos repartir o que possuímos com aqueles que nada possuem.  

Deus nos ajude a entender esse momento como igreja. Que o nosso lema, “Igreja Reformada, sempre se reformando”, nos leve a olhar para o nosso passado, quando, em situações completamente adversas e até mais difíceis do que as que ora passamos, a igreja foi capaz de  produzir uma transformação na história do serviço e, consequentemente, na vida da sociedade.

Muitas igrejas têm efetuado e inovado no serviço aos menos favorecidos. Nessa ação, podemos observar a concretização do que Jesus ensinava e realizava em termos de diaconia: a) prática: servir; b) comunitária: partilhar; c) profética: denunciar a miséria e a exclusão.

Com certeza, podemos sair deste momento da história fortalecidos ao aplicarmos os ensinos de Jesus. O Senhor nos guie e nos ajude a vivenciarmos essa expertise, que nos foi legada através dos apóstolos e reformadores. Sejamos uma igreja que marque o nosso tempo com as práticas que Jesus nos ensinou. Pela Coroa Real do Salvador!


Presb. Moacir Enos Rosa
2º secretário da Diretoria da Assembleia Geral da IPIB

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