FALAR E OUVIR – A ARTE DO EQUILÍBRIO

Existe um provérbio que afirma que todos são apaixonados pela própria voz. Há alguns anos, Rubem Alves escreveu uma crônica chamada Escutatória, na qual argumenta que já ter visto muitos cursos de Oratória, mas que nunca tinha visto alguém ministrar algum curso a respeito da “Escutatória”, pois todos querem aprender a falar, mas ninguém quer aprender a ouvir.

De fato, todos temos nossas opiniões e gostamos de expô-las a todos, queiram ou não ouvir o que temos a dizer. Por outro lado, são poucos os que se dispõem a ouvir pacientemente o que o outro tem a dizer. Gostamos mais de falar do que de ouvir. Somos apaixonados por nossas vozes.

Isso se mostra nas liturgias praticadas por igrejas atualmente. Uma sucessão de músicas, orações e testemunhos ocupam todo o serviço religioso. Mas quanto tempo se gasta com o silêncio? Quantas orações silenciosas são feitas? Quantos minutos duram? Em minha prática pastoral, percebo claramente que, após não mais que um minuto, as pessoas já começam a se impacientar, olhando para os lados com expressões que indagam: “Quanto tempo isso vai durar”? “O pastor está demorando…”.

A busca por uma “liturgia contemporânea” faz com que os participantes se movimentem o tempo todo, mas deixa de lado o aquietar-se na presença de Deus, o tempo para que se possa também ouvir e sentir a presença do Espírito Santo no silêncio da alma.

O subtítulo deste artigo fala sobre a arte do equilíbrio, ou seja, é necessário que a balança esteja equilibrada entre o falar e o ouvir, entre o agir e o aquietar-se, para que sejam estabelecidas relações de interpessoalidade saudáveis.

Podemos, de maneira muito genérica, dizer que a boa intercomunicação depende de um equilíbrio entre a emissão e a recepção do conteúdo. Se só emitirmos conteúdo, não teremos acesso à interpretação de nosso ouvinte nem ao seu modo de pensar sobre o assunto tratado. Porém, se só formos receptores passivos, não poderemos tampouco compreender o que nos é dito.

Por isso, falar e ouvir é uma arte, a arte de equilibrar nossas ações para que seja estabelecida uma comunicação eficaz com as pessoas.

É certo que todos queremos ser ouvidos, seja em casa, no trabalho ou na igreja. A sociedade atual clama por ser cada vez mais ouvida, ter suas demandas atendidas e mostrar suas insatisfações.

Isso já foi percebido pelas empresas, que investem cada vez mais em canais de comunicação com os clientes e consumidores. Há uns vinte ou trinta anos, era praticamente impossível reclamar de algo com o fabricante ou prestador de serviços, pois não existiam canais de atendimento. Muitas vezes, o prejuízo ficava com quem tinha comprado porque não havia com quem reclamar, não era possível externar a insatisfação e, muitas vezes, a indignação com o que havia ocorrido.

Isso mudou radicalmente, pois as empresas identificaram que dar atenção à demanda de seus clientes é uma maneira de gerar satisfação com a marca e, assim, fidelizar o cliente. Surgiram, então, os Serviços de Atendimento ao Cliente (SAC) e as ouvidorias. As mídias sociais também desenvolvem papel essencial na ação de dar voz às pessoas, na medida em que canalizam todos estes anseios. A chamada “Primavera Árabe” aconteceu devido à mobilização de pessoas pelas redes sociais, insatisfeitas com a situação de seus países.

A igreja está inserida em todo este contexto, pois seus membros experimentam, no dia a dia, estas mudanças de comportamento e é natural que queiram também essa experiência com a instituição igreja.

Infelizmente, vivemos uma realidade no meio evangélico em que, devido às ações de alguns, existe a desconfiança a respeito das intenções das instituições cristãs em suas atividades. O enriquecimento de líderes, a abordagem agressiva com relação aos dízimos e ofertas, e a falta de transparência nas ações praticadas pelas instituições levam a questionamentos que, muitas vezes, não podem, ou não querem, ser respondidos.

A Igreja de Cristo deve ser transparente em suas ações, dando ciência de todos os seus atos a seus membros. Também deve estar pronta a ouvir o que as pessoas têm a lhe dizer, procurando dar sempre as respostas adequadas aos questionamentos que porventura surjam.

Foi nesse contexto que a IPIB criou a sua Ouvidoria. É o canal no qual os membros da igreja podem falar com a instituição, bem como questionar, sugerir e reclamar. É claro que não estamos numa relação de consumo, mas somos uma federação de igrejas, o que nos faz um grande e único membro da Igreja de Cristo e, assim, todos precisam ouvir e serem ouvidos.

Encontrar este equilíbrio é o nosso grande desafio. Quando falar e quando ouvir, quando questionar e quando aceitar são questões que precisamos trabalhar como indivíduos e como igreja. Não é fácil. Às vezes, é dolorido. Mas, com certeza, é necessário. Numa sociedade em que todos querem falar, encontrar o momento de ouvir é essencial. Deus nos abençoe e nos guie para que alcancemos um coração sábio!

Rev. Paulo Cesar de Souza
Pastor da IPI de Vila São José, Osasco, SP
Secretário de Transparência e Ouvidoria da IPIB

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