A “QUESTÃO DOUTRINÁRIA” E SEUS DESDOBRAMENTOS

Em 31/7/2020 a IPIB comemora 117 anos do seu nascimento como denominação. E como não poderia ser diferente, nesse período de existência muitas bênçãos foram contadas, mas também muitas lutas foram travadas.

Naturalmente, toda essa história foi escrita por pessoas que sempre buscaram dar o seu melhor em prol da igreja. Queria resgatar nesse breve artigo um pouco dessa história, especialmente a chamada “Questão Doutrinária”, no livro “Protestantes em Confronto”, escrito pelo Rev. Éber Ferreira Silveira Lima, publicado pela Editora Pendão Real, cuja leitura recomendo.

A “Questão Doutrinária” foi uma das crises ocorridas no seio da IPIB no período de 1938 a 1942. De um lado, o Rev. Bento Ferraz, um dos fundadores da IPIB, e outros líderes formavam a “Coligação Conservadora”; de outro, estavam Othoniel Motta, Alfredo Borges Teixeira e Vicente Themudo Lessa, também fundadores da nossa igreja. O debate dessa “Questão Doutrinária” foi em torno da “doutrina das penas eternas”.

Na ortodoxia protestante, defende-se que aqueles que não são salvos irão sofrer eternamente no infer no. Porém uma questão foi levantada por um jovem recém saído do seminário, Ruy Gutierres, que disse que tinha dúvidas quanto a essa condenação eterna e que simpatizava por uma interpretação mais “humanitária”, em que os não salvos por Deus são aniquilados sumariamente, sem ter de pagar sua dívida espiritual para todo o sempre em meio a sofrimentos eternos.

Isso abriu um caminho para que essa “doutrina das penas eternas” fosse discutida de forma mais ampla e aberta, a ponto de levar os conservadores a acusarem os modernistas de infidelidade doutrinária, de heresia e de tentarem destruir as verdadeiras bases da igreja.

Estava posta uma crise dentro da IPIB. Com isso, alguns pastores da ala mais conservadora começaram a se despedir da igreja em meio à crise. A partir de 1940, inconformados com o fato de que os “modernistas” não tivessem sido expulsos da igreja, foram saindo os líderes conservadores, tendo à frente o Rev. Bento Ferraz, para formar a Igreja Presbiteriana Conservadora.

Porém, o conservadorismo ainda era a opção da maioria dos líderes da IPIB, e o fato de haver uma certa tolerância para com os liberais não evitou que uma nova crise fosse instaurada em 1942, levando dessa vez a uma debandada de alguns pastores modernistas, que, por sua vez, ao romperem com a IPIB, fundaram a Igreja Cristã de São Paulo. Essa nova igreja tinha uma proposta de ser uma comunidade aberta para uma teologia reflexiva e uma fé arejada. Seus líderes se identificavam com o liberalismo clássico, propondo a tolerância e o direito à discordância.

Foi nesse contexto de divisões que, na IPIB, se destacou a figura de Eduardo Pereira de Magalhães, o “Rev. Eduardinho”, neto de Eduardo Carlos Pereira, que organizou os primeiros movimentos estruturados da juventude evangélica, e que passou a tratar de temas polêmicos – como a sexualidade, por exemplo – que eram tidos como tabus dentro da igreja evangélica. Ele também foi o organizador do movimento oficial de juventude na IPIB.

Portanto, podemos concluir que a IPIB sempre buscou inovar seus pensamentos, de forma a lutar por um cristianismo contemporâneo que, sem ferir os ensinamentos bíblicos, atendesse a demanda dos dias atuais.

“Igreja reformada, sempre se reformando.”

Presb. Cleber Coelho
Membro da IPI de Vila Sônia, São Paulo, SP,
Gerente Administrativo da Editora Pendão Real

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