JOHN MACKAY: UMA TEOLOGIA PARA A VIDA

A expressão ” Missão Integral” ganhou espaço na reflexão teológica. Essa vertente teológica combina a ortodoxia cristã com o engajamento em questões sócio-econômicas, dispensando atenção aos segmentos explorados por um sistema que privilegia as elites dominantes. Também se engaja na luta pela preservação do meio ambiente como parte da criação de Deus.

A Teologia da Missão Integral nasceu na década de 60 do século XX. A busca por uma missão transformadora, não restrita à ideia individualista e futurista da salvação da alma após a morte, teve sua gênese na vida e obra de um presbiteriano escocês que deixou marcas no cristianismo mundial. Falamos de John A. Mackay

Uma vida apaixonada

John Alexander Mackay nasceu em 1889, em Inverness, na Escócia. Oriundo de uma família presbiteriana, passou por uma marcante experiência de conversão quando tinha 14 anos. A leitura da Carta aos Efésios aqueceu seu coração. Revelou o Deus que busca o ser humano perdido e transforma sua vida. A mesma paz que inundou o seu coração deu sentido à sua existência. Após participar de um culto ao ar-livre, decidiu-se pelos estudos teológicos. Seria um ministro do evangelho, cuja missão seria colaborar para que a ordem amorosa de Deus se sobressaísse sobre a desordem do ser humano. Somente uma visão integral da missão poderia concretizar essa meta divina.

Um ministro integral

John A. Mackay
Foto: Perfil Facebook

Mackay iniciou seus estudos em teologia e, em 1910, ouviu palestras proferidas por Robert E. Speer, secretário da Junta de Missões da Igreja Presbiteriana dos Estados Unidos. O impacto sobre Mackay foi avassalador. Speer despertou a paixão por missões entre os alunos. A América Latina era o desafio apresentado pelo preletor norte-americano e ganhou o coração de John Mackay.

Ele mudou-se para os EUA, onde ingressou no Seminário Presbiteriano de Princeton. Ótimo aluno, sempre demonstrou interesse pela cultura hispânica. Após o término do curso em Princeton, ganhou uma bolsa de estudos de pós-graduação em qualquer instituição acadêmica da Europa. Já que seu coração estava completamente direcionado às missões na América-Latina, escolheu estudar na pátria mãe de boa parte das nações sul-americanas: a Espanha.

Mackay residiu aproximadamente 8 meses na Espanha. Lá, estabeleceu amizade com intelectuais espanhóis que influenciaram Mackay em questões pedagógicas, influência que seria sentida em seu trabalho missionário na América Latina.

Outro personagem marcou decisivamente o jovem escocês: o filósofo Miguel de Unamuno.

A base do pensamento de Unamuno era a união de duas ideias: a vocação e a luta por viver eternamente. A vocação concederia sentido à existência. A vida eterna seria o destino de todo ser humano. Unamuno apregoou que a sociedade espanhola necessitava redescobrir o Cristo vivo, deixando de lado o Jesus eternamente agonizante representado nos populares crucifixos.

Essas ideias de Unamuno marcariam o labor missionário de Mackay, assim como o apreço do filósofo às clássicas obras da literatura espanhola transformaram seu discípulo britânico em um perito na cultura ibérica.

Logo após, Mackay foi nomeado missionário no Peru.

Sua principal meta era a fundação de uma escola protestante em Lima. Em 1916, junto com sua esposa, desembarcou na capital peruana. Até 1915, a constituição daquela nação estabelecia o catolicismo romano como religião do estado. Missionários protestantes foram presos por causa de sua fé, fato que causou profunda consternação entre as camadas progressistas da nação.

Como fruto dessa justa revolta, a liberdade de culto foi estabelecida em 1916, concedendo maior tolerância às missões protestantes. Mackay se aproveitou dessa tolerância.

Após remodelar uma antiga escola fundada por um missionário inglês, fundou o Colégio Anglo-Peruano. A escola tinha como metas oferecer educação a protestantes não aceitos por outros estabelecimentos, preparar futuros professores, pastores e missionários, e influenciar a sociedade por meio de seus alunos.

Seus métodos revolucionaram a educação peruana. Mensalidades baixíssimas atraíram alunos que não conseguiam arcar com os elevados custos das escolas católicas. O uso do idioma espanhol e o apreço pela cultura ibérica e latino-americana marcaram uma nítida diferença diante de outros colégios evangélicos.

Mesmo sendo confessional, o Anglo-Peruano se notabilizou por contratar os melhores docentes do país, independentemente da fé professada. A feição espiritual não foi esquecida. Cultos eram realizados todos os domingos no pátio do educandário.

A celebração da Santa Ceia se tornou um evento marcante em cada semestre do ano letivo. Reuniões de oração aconteciam todas as terças-feiras. Por meio do estabelecimento educacional, Mackay desenvolveu um conceito integral de missão. O anúncio da Palavra de Deus não era dissociado da cultura.

A interação de John Mackay com a sociedade peruana não se restringiu ao seu papel de missionario educador. Cursou o doutorado em literatura na Universidade Nacional de São Marcos, uma das mais antigas da América Latina. Estabeleceu contato com importantes personalidades políticas peruanas.

Após quase dez anos no Peru, Mackay se mudou, em 1925, para Montevidéu, no Uruguai. Depois, em 1930, estabeleceu-se na Cidade do México. Seu trabalho junto à Associação Cristã de Moços (ACM) e a participação em congressos internacionais o introduziram no movimento ecumênico.

O ano de 1932 marcou o fim da fase latina de Mackay. Transferiu-se da Igreja Livre da Escócia e filiou-se à Igreja Presbiteriana dos EUA. De 1932 a 1936, foi secretário da Junta de Missões Estrangeiras para a América Latina e África.

Em 1936, assumiu a presidência do Seminário de Princeton. Coube a Mackay reestruturar e arejar aquela importante casa de profetas. A liberdade de pensamento se tornou a marca da instituição.

Politicamente, o “escocês com alma latina” continuou engajado. Defendeu a reforma agrária, posicionou-se contra o fascismo espanhol, denunciou o imperialismo econômico dos EUA e combateu a perseguição ideológica capitaneada pelo senador McCarthy.  Seu envolvimento com o movimento ecumênico se aprofundou. Exerceu a presidência do Concílio Missionário Internacional e Aliança Presbiteriana Mundial. Chegou a ocupar o comitê executivo do Conselho Mundial de Igrejas. Faleceu em 1983.

Uma teologia integral

Importantes reflexões teológicas surgiram de sua pena. Em 1932, foi publicado “O Outro Cristo Espanhol”. A obra denunciou uma cristologia que só direcionava seu foco ao Jesus agonizante na cruz, deixando de lado a vitória da ressurreição. Esse Jesus não apontava para a esperança e foi usado pelos colonizadores espanhóis para alienar os latino-americanos, apresentando um cristianismo passivo e resignado diante da opressão.

Outra obra de Mackay recebeu o título de “Cristianismo na Fronteira” (1950). Sua premissa básica é que a igreja deve estar presente nas fronteiras da existência. Essas fronteiras são a política e a cultura. Em ambas as esferas, os cristãos devem exercer sua vocação de denunciadores de toda forma de injustiça. Em suas páginas, há o chamado para que o crente faça uso da cultura e da política para o bem comum, principalmente do mais pobre.

Outros importantes livros apontam para a perspicácia teológica da John Mackay; “Prefácio de Teologia Cristã”, “A Desordem do homem e o Desígnio de Deus” e “O Caminho Presbiteriano da Vida”.

Conclusão

Mackay é considerado como o pai Teologia da Missão Integral. Por meio de sua atuação ele deu início a uma teologia que passou a abarcar o ser humano como um todo, bem como toda a criação. Essa deve ser a maneira de pensar e fazer missão em nosso contexto.

Rev. André Tadeu de Oliveira
Pastor da IPI de Alexânia, GO
Membro do Conselho Editorial de O Estandarte e da revista Vida & Caminho

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