OS SEIS “AIS” (IS 5.1-24)

Uma coisa maravilhosa que transparece todas as vezes que lemos a Bíblia é que nós descobrimos que ela é um livro atualizado. É um livro que fala a todas as épocas e gerações porque a humanidade permanece a mesma em suas qualidades essenciais e Deus continua o mesmo. A mensagem de Deus para o mundo é ainda essa velha mensagem e eu quero mostrar quão relevante ela é para o nosso mundo.

Qual o problema do mundo? Por que as coisas estão como estão? A humanidade está louca. O que vivemos é insanidade. Mas, lendo a palavra de Deus, nós descobrimos que há 2.800 anos o profeta Isaías denunciou seis coisas que estavam erradas na vida do povo de Israel e que tudo tem a ver com os principais problemas enfrentados pela nossa geração. Isaías as apresenta na forma de “AIS”:

O primeiro “Ai”

Ai daqueles que adicionam casa a casa, somam campo a campo até que não haja mais lugar e eles sejam os únicos no meio da terra.”

Que Ai é este? É o Ai do materialismo.

Naquela civilização antiga, o materialismo era uma questão de casa, campos, etc. Evidentemente, o nosso estilo de vida mudou. Hoje, nós pensamos mais em termos de dinheiro. Mas a questão do materialismo nós a enfrentamos exatamente como antes. E nele está a essência do problema moderno.

O cristianismo se transformou num artigo barato de liquidação no qual a humanidade não está interessada. Estatísticas mais recentes mostram que apenas 10% da população mundial tem algum interesse no cristianismo. Da mesma forma como em nome do materialismo o povo de Israel deu as costas a Deus, nós fazemos o mesmo. Nosso maior interesse são as posses materiais.

Tudo em nosso mundo promove o materialismo. Até a religião hoje só é boa se encoraja o materialismo. Num mundo materialista nossa religião também é materialista. Na religião o ter também sobrepuja o ser. O ter é marca da bênção. O que determina o reconhecimento e a bênção de uma pessoa: o carro do ano, a casa, a quantidade de dinheiro no banco.

Tomem cuidado, disse Jesus, pois, a vida de uma pessoa não consiste na abundância das coisas que possui. O primeiro “Ai” é a denúncia de que esse materialismo é abominação aos olhos de Deus. Uma civilização assim não será abençoada! Não adianta quão inteligentes, prósperos, poderosos sejamos, não teremos paz. Se as coisas continuarem assim, o fim de tudo será desolação e Deus fará isso. Na expressão de Isaías: “O zelo do Senhor dos Exércitos fará isso”.

O segundo “Ai’

Por que a ira de Deus permanece sobre o mundo de hoje? O segundo “Ai” responde: por causa do hedonismo, da mania do prazer. Somos uma civilização na busca desenfreada do prazer. No texto ela vem expressa em imagens fortes: “Liras e harpas, tamborins e flautas – e vinho – não faltam nos seus banquetes” (Is 5.11).

Busca-se o prazer pelo prazer. Não há nada errado com o prazer. O cristianismo não condena o prazer. O tristonho, o desanimado e o mau humorado estão longe de serem os melhores representantes do cristianismo. Puritano exacerbado é caricatura do cristianismo. Não há nada de errado com o prazer.

Mas isso é muito diferente da adoração do prazer. No nosso tempo, o prazer se transformou em negócio. Vende-se prazer. Compra-se prazer. E isso leva à degradação

O terceiro “Ai”

Por que a ira de Deus permanece sobre o mundo de hoje? Por que o nosso mundo está do jeito que está? O terceiro “Ai” responde: por causa da iniquidade. “Ai dos que puxam para si a iniquidade, arrastando-as com cordas de mentira e o pecado com tirantes de carroças” (Is 5.18).

Quem sempre viveu na cidade provavelmente não sabe o que é um tirante de carroça. Tirantes de carroça são cordas compridas e fortes com as quais atrelamos os animais à carroça. O texto refere-se à forma forte com que nos atrelamos à iniquidade. Mas nos atrelamos sempre com as cordas da mentira. Que linguagem forte! Vivemos atrelados à iniquidade com as cordas da mentira! Esse é o nosso mundo. E o fim natural desse descaminho é a blasfêmia.

A blasfêmia consiste não apenas em tomar o nome de Deus em vão, mas em desafiar o poder de Deus. Os que vivem na iniquidade se referem a Deus com deboche e desprezo. Quando alertados de que um dia terão que dar contas ao santo de Israel, reagem cinicamente: “É ele que vai julgar o mundo? É ele que vai punir? Por que Ele não vem? Por que não se manifesta? Onde está Ele?” Que coisa terrível! Nada mais terrível que um mundo sem Deus!

Existe apenas uma esperança: o poder de Deus maior que nossas iniquidades. A iniquidade nos atrai com cordas de carroça, mas Deus nos atrai com laços de amor!

O quarto “Ai”

Por que a ira de Deus permanece sobre o mundo de hoje e por que o mundo está do jeito que está? O quarto “Ai” responde: Por causa da perversão moral! “Ai daqueles que ao mal chamam bem e ao bem mal, dos que transformam as trevas em luz e a luz em trevas, que mudam o amargo em doce e o doce em amargo” (Is 5.20).

Ser pervertido é pior que ser imoral. Os pervertidos vão além da imoralidade e revertem a moralidade: colocam mal por bem, bem por mal, trevas por luz, e luz por trevas, amargo por doce, e doce por amargo. É uma inversão deliberada de valores. Esta é uma das características mais óbvias dos tempos que estamos vivendo. Nós quase chegamos ao estágio em que não ser pervertido é anormal e o pervertido é glorificado.

Não há nada de novo nessa inversão de valores. A Bíblia afirma que isso aconteceria: “Como foi nos dias de Noé, assim também será… Como foi nos dias de Ló, assim também será… Como foi nos dias de Sodoma e Gomorra, assim também será.”

Qual o fim para o qual tudo isso nos levará? À luz da Bíblia, tudo isso nos leva ao dilúvio, à destruição de Sodoma e Gomorra, à destruição de Jerusalém, ao exílio de Israel, à escravidão. Tinha razão o grande historiador inglês Arnold Toynbee quando afirmou: “Existiram sete grandes civilizações. Nenhuma delas morreu. Todas se suicidaram”. Nós estamos nos suicidando.

O quinto “Ai”

Por que a ira de Deus permanece sobre o mundo de hoje e por que o mundo está do jeito que está? O quinto “Ai” responde: por causa do nosso orgulho: “Ai dos que são sábios a seus próprios olhos e inteligentes na sua própria opinião” (Is 5.21). Esse quinto “ai” está relacionado com algo para o que temos uma nova palavra hoje: humanismo. Humanismo é a crença na humanidade.

É o interesse apenas no ser humano sem levar Deus em consideração. Ele exclui Deus. Os seres humanos se bastam a si mesmos. Os seres humanos de nosso século têm orgulho de si próprios e de sua sabedoria. Sentem-se superiores a tudo.

Como é possível que se sintam assim com o mundo do jeito que está? A Bíblia explica dizendo que as pessoas se gloriam em sua sabedoria porque são tolas. De acordo com a Bíblia, quanto mais sábia a pessoa for mais humilde será. Numa expressão belíssima e consagrada de Sócrates: “O verdadeiro sábio é aquele que sabe que não sabe”.

Mesmo assim, há pessoas que são sábias a seus próprios olhos. São vaidosas e são medíocres. Tudo não passa de ostensão ridícula. Orgulhosos de sua sabedoria não sabem nada sobre a vida.

O sexto “Ai”

Chegamos ao sexto e último dos “Ais”: “Ai dos que são poderosos para beber vinho e valentes para misturar bebida forte: os quais por suborno justificam o perverso e ao justo negam a justiça” (Is 5.22). Por que a ira de Deus permanece sobre o mundo? Por que o mundo está do jeito que está? O último Ai responde: por causa da injustiça. Refere-se àqueles que têm a responsabilidade de ministrar a justiça, mas se deixam corromper e se acovardam.

Conclusão

Existe alguma esperança? É claro que sim! Foi por isso que Deus enviou o profeta a nós e ao nosso mundo. O mesmo Deus que falou pela boca do profeta fala-nos através do Filho. Os judeus, há 2.800 anos, tiveram Isaías. Nós temos Jesus. Devemos responder dizendo: Ó Deus, tu fizeste tudo em Cristo. Por isso, a ti me entrego de coração”.


Rev. Abival Pires da Silveira
Pastor emérito da 1ª IPI de São Paulo, SP, falecido no dia 1º/9/2019

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

O ESTANDARTE