PAULO: INTÉRPRETE DOS MISTÉRIOS DIVINOS

Rm 9.26-39 – 17º DOMINGO DO TEMPO COMUM – 26/7/2020
TEXTOS COMPLEMENTARES: Gn 29.15-28; Sl 105.1-11, 45b; Sl 128; Mt 13.31-33, 44-52

O sustento e a satisfação dos desejos são conquistados por meio de esforço e trabalho. Jacó enfrentou dura tarefa para conseguir o casamento com a sua escolhida.

Os dois Salmos dizem que as pessoas comerão do trabalho de suas mãos ou da conquista daquilo que foi produzido por outros. Nas pequenas parábolas de Jesus, as pessoas têm de semear, preparar, procurar, negociar, escolher, para conseguirem aquilo que desejam para si.

No texto que será aqui estudado, Paulo ensina o que as pessoas têm de fazer para se sentirem justificadas perante Deus. Estas aproximações de temas autorizam o emprego dos textos complementares como fundamentos bíblicos na análise a seguir.

Desde os tempos do Novo Testamento, já se dizia que os escritos de Paulo são de difícil compreensão. A verdade, porém, é que o apóstolo procura enfrentar os pontos difíceis da doutrina cristã.

No presente fragmento de Romanos, por exemplo, Paulo aborda três pontos que são fortemente discutidos pelos estudiosos da Bíblia: a comunicação de Deus com as pessoas; a predestinação; o maior de todos os mistérios, que é o insondável amor de Deus.

A análise aqui desenvolvida é uma tentativa de explicar como o apóstolo expõe cada um destes três temas.

Os gemidos do Espírito e os mistérios da comunicação divina (Rm 9.26-28)

Os estudiosos querem formular teorias sobre a mente do Espírito de Deus e as formas pelas quais ele se comunica com as pessoas. Mas estes mistérios estão acima de qualquer possibilidade da compreensão humana.

Ciente desta verdade, o apóstolo trata o assunto de outra maneira. Ele vê as pessoas em um insolúvel dilema na presença de Deus.

Por um lado, elas se reconhecem muito fracas e incapazes de desvendar os mistérios divinos. Por outro lado, necessitam urgentemente do socorro de Deus para se livrarem da morte e para se considerarem prontas para cumprir a santa vontade de Deus.

É possível até que esbocem algum pedido de socorro aos céus. Mas, pela sua ignorância, nem sabem o que convém pedir. É o minúsculo grão de mostarda sentindo dentro de si o imperativo de se tornar um frondoso e produtivo arbusto, mas não encontrando em si mesmo os poderes para a realização de tão urgente tarefa. E esta situação provoca a angústia existencial que atormenta o ser humano.

Mas é, segundo o apóstolo, neste ponto que entra o auxílio indispensável do Espírito. Não é preciso entender a sua voz, mas sentir a força da sua presença e nela depositar toda a confiança, na certeza de que ele está intercedendo junto a Deus a favor de seus santos. Somente ele conhece a perfeita vontade divina.

Somente ele sabe pedir a Deus todas as coisas que cooperam para o bem daqueles que amam a Deus. Por isso é de valia seguir o conselho do salmista e buscar permanentemente a presença divina.

Predestinação e os mistérios das ações divinas (Rm 9.29-30)

Predestinação é outro tema controverso na discussão religiosa. Alguns misturam a sua abordagem com os debates clássicos sobre o destino da humanidade.

O texto mais antigo da epístola, que inclui os capítulos nove, dez e onze, trata do assunto, lembrando a eleição de Jacó e a rejeição de Esaú, concluindo que às pessoas é vedado discutir a justiça desta ação, deixando-a por conta da soberania absoluta de Deus.

Paulo expõe o tema na sequência: Deus faz a escolha seguindo seus propósitos estabelecidos; a predestinação insere-se dentro de outras ações de Deus; a predestinação está ligada à ação redentora de Cristo. No conjunto, o apóstolo quer dizer que a predestinação não é um ato arbitrário da parte de Deus, mas está inserida em seu eterno agir a favor de suas criaturas.

O Salmo, que se refere duas vezes aos descendentes de Jacó como os escolhidos de Deus, descreve toda a trajetória histórica deste povo na direção do cumprimento dos propósitos divinos. Para o apóstolo, a predestinação não é um ato isolado. Ela está dentro de uma ação divina abrangente na qual Deus segue seus propósitos estabelecidos. Ele conhece as pessoas e as encontra isoladas no mundo ou perdidas no burburinho da multidão, como um tesouro escondido ou uma pérola de valor.

Ele as chama, limpa-as de suas impurezas e restitui a elas o brilho da glória que tinham como filhos do Deus vivo. O grande segredo da predestinação, porém, só pode alcançar aquele que se entrega inteiramente ao serviço de Deus como o apóstolo dos gentios. Ao pesquisar sobre os objetivos da predestinação, ele descobriu que Deus quis aproximar as pessoas à imagem de seu Filho.

E a imagem de seu Filho é a do predestinado cordeiro que foi morto e ressuscitou, cumprindo a justiça divina e trazendo vida eterna para todos os que dele se aproximam. Na linguagem do apóstolo, Cristo é o irmão mais velho. Na sua morte, todos são condenados e, na sua ressurreição, todos os que creem são salvos, justificados pela ação graciosa de Deus em Cristo Jesus.

O amor de Deus: maior mistério da comunicação divina (Rm 9.31-39)

O texto mais antigo da epístola apenas repete as informações bíblicas, segundo as quais o amor de Deus é semelhante ao amor dos patriarcas. Assim como Isaque amou a Esaú e Rebeca amou a Jacó, assim também Deus amou a Jacó e rejeitou a Esaú.

E a epístola, como já foi dito, atribui esta ação à total soberania divina. Uma das grandes vantagens do apóstolo dos gentios foi não apenas descobrir, mas entregar-se ao amor divino, cuja extensão jamais poderá ser compreendida e descrita pela mente humana.

Por isso, ele pode exclamar no texto em estudo: “Somos mais do que vencedores, por meio daquele que nos amou”. Para provar o grande amor de Deus ele repete o que já disse antes.

Em seu amor aos pecadores, Deus não poupou o próprio Filho, o qual morreu, ressuscitou e está à direita do Pai, intercedendo pelos que o servem, na terra. Em seu entusiasmo, o apóstolo redige seu texto em forma de desafio, repetindo a expressão: “Quem?”.

Quem acusará, quem condenará aqueles que Deus justificou. O ardor do apóstolo, porém, atinge o extremo quando encara aqueles que o querem separar do amor de Deus. E, aí, ele relaciona duas listas de desafiantes, uma terrena e outra das forças espirituais, para concluir que ninguém o irá separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus.

E este é mais um texto onde a Trindade aparece agindo em nome do amor. O Pai predestinando, o Filho justificando e o Espírito intercedendo por aqueles que foram justificados por tão grande amor.

Rev. Lysias Oliveira dos Santos
Pastor Jubilado da IPI do Brasil

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