A PAIXÃO MISSIONÁRIA DE SIMONTON

No alvorecer do século XXI, encontramo-nos todos velhos. Refiro-me não à condição biológica de quem trilhou longo percurso pelas sendas do tempo, mas à condição emocional de quem não dispõe de horizontes de expectativa. Em outras palavras, a morte dos sonhos. É contra isso que profetizam as Escrituras, afirmando que mesmo os velhos podem dar frutos e, o que é mais espantoso, que “os velhos sonharão”! É aí, no sonho, que a vida germina, pois é ele que nos impulsiona na direção daquilo que desejamos.

Mas os sonhos estão morrendo, e é com profunda tristeza que o atestamos. Semana passada, uma ex-aluna minha cometeu suicídio. Foi um tremendo golpe, mas ainda mais duro é saber que se trata de um fenômeno. Jovens não divisam mais a possibilidade de uma vida exuberante. Desencantados, sonhos murchos, presente tomado pelo tédio, entregam-se à melancolia. E não é somente às doenças emocionais que me refiro, mas à exaustão a que a humanidade chegou nesse início de século. Que mundo é esse que nega às crianças a paixão pela vida? Que futuro temos quando nem os jovens desejam sonhar? Há que se encontrar uma paixão a fim de que a vida frondeje. Simonton a encontrou.

Ashbel Green Simonton viveu a maior parte da sua infância em Princeton, New Jersey, EUA, no período do chamado Segundo Grande Avivamento (século XIX), cuja ênfase se dava na descida do Espírito Santo e nas grandes reuniões de conversão e santificação. Era o caçula de nove irmãos, sendo neto, pelo lado materno, de um pastor presbiteriano, e filho de um presbítero. Por aí se vê como as condições externas influenciam em nossas paixões interiores.

Sua vocação missionária não nasceu de um grande vazio, mas tomava assento, inicialmente, em uma família piedosa, bem como em uma sociedade com forte apelo ao comprometimento espiritual e à vocação missionária. E quando as condições externas não são assim motivadoras, e o que vemos é somente um horizonte turvo diante de nós, como manter a chama interior acesa e superar a apatia que nos faz desperdiçar a vida? É preciso, mesmo aí, aprender a seguir em frente e regar as paixões, pois a vida, “o que ela quer de nós é coragem”. Talvez, conhecer vidas que inspiram, nas Escrituras e na História, nos possa ajudar a perceber o quanto essa existência pode ser significativa e frutífera.

Em 14/10/1855, Simonton ouviu um sermão do seu professor, o Dr. Charles Hodge, que mudou sua vida. Alguns encontros nos transformam, não concordam? Lemos um livro, descobrimos uma música, apreciamos pela primeira vez um poema ou ouvimos um sermão, e pronto, somos afetados de tal maneira por esse encontro que ele inflexiona nossa trajetória de vida. Um dos biógrafos de Simonton, Elben César, destaca que, no dia em que ouviu aquele sermão, o jovem norte-americano deixou de ser um presbiteriano “certinho” para se tornar um cristão convertido.

Tinha então 22 anos. Até esse dia, queixava-se de uma vida sem consistência: “… para ser honesto, devo preocupar-me em chegar aos vinte e dois anos e estar vivendo com tão poucos propósitos”, escreveu no dia do 22º aniversário, em 22/1/1855. Isso mudou em outubro, quando da descoberta de sua grande paixão: a vocação missionária.

A partir daí, iniciou-se o processo que pavimentou sua nova jornada. Depois de cursar teologia no Seminário de Princeton, registrou em seu diário, em 1858: “Finalmente o passo decisivo foi dado. No dia 25 enviei minha proposta formal à Junta de Missões Estrangeiras. Mencionei o Brasil como o campo no qual estou mais interessado, mas deixei à junta a decisão final. Irei só. Assim, a incerteza que vem me oprimindo há um ano finalmente terminou”. Em 12/8/1859 desembarcou no Rio de Janeiro.

Alguém questionou sua escolha de ir para um país precário, onde estaria sujeito a diversas doenças, ao que ele respondeu: “A única segurança está na submissão à vontade e aos propósitos divinos. Sob a direção de Deus, o lugar de perigo é o lugar da segurança e, sem a sua presença, nenhum abrigo é seguro”. Tal convicção aqueceu o seu coração e o desinstalou da letargia de uma vida sem propósitos, colocando-o em movimento na direção de sua paixão. Se essa obstinação rendeu frutos?

É fato que morreu jovem, aos 34anos, mas as marcas do seu labor estão aqui, atravessando gerações. Sugiro uma rápida pesquisa sobre seu ministério no Brasil – curto, mas profícuo. Se puder, leia o seu diário. Mas, acima de tudo, faça como ele! Encontre sua própria vocação e a coloque a serviço do Reino!

Francisco Leandro Duarte Pinheiro
Professor de História no Instituto Federal do Rio Grande do Norte
Presbítero da 1ª IPI de Natal, RN

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