ARTE E ESPIRITUALIDADE EM TEMPO DE PANDEMIA

Até quando, Senhor, te esquecerás de mim? Será para sempre? Até quando esconderás de mim o teu rosto?” (Sl 13.1).

De todos os livros da Bíblia, o livro de Salmos é o mais conhecido e o mais amado pelos cristãos. O livro de Salmos para o povo de Israel era, ao mesmo tempo, poesia, hinário e livro de oração. Essa coletânea de vários autores, dentre eles, Davi, Salomão, Asafe, os filhos de Coré, foi escrito em vários momentos da História de Israel com uma grande diversidade de temas, tais como contrição, louvor, lamento, confiança, sabedoria e até imprecações.

Nele podemos encontrar todos os espectros dos sentimentos, emoções, sensações e afetos da experiência humana. O que faz com que, ao longo do tempo, desde o erudito nas Escrituras até o homem mais simples, continuem amando, lendo e repetindo esses salmos. Esse conjunto de fatores tornam os salmos populares, mas especialmente porque a arte consegue não só expressar com mais leveza os sentimentos humanos, mas, também, com mais beleza. Além de ser mais fácil de ser lembrada.

Os salmos combinam com certeza, arte e espiritualidade. E exprimem com beleza os sentimentos e a fé de um povo. No Salmo 137, assim o poeta exprimiu a dor de um povo vivendo cativo, distante de sua terra: “Às margens dos rios da Babilônia, nós nos assentávamos e chorávamos, lembrando-nos de Sião. Nos salgueiros que lá havia, pendurávamos as nossas harpas, pois aqueles que nos levaram cativos nos pediam canções, e os nossos opressores queriam que fôssemos alegres, dizendo: ‘Cantem para nós um dos cânticos de Sião’. Mas como poderíamos entoar um cântico ao Senhor em terra estranha?” (Sl 137.1-4).

Somente a arte tem esse poder de manifestar beleza, mesmo em um momento de dor. Há um hino antigo, intitulado “A Bem-Aventurança do Crente” que diz: “Os mais belos hinos e poesias foram escritos em tribulação. E do céu, as lindas melodias se ouviram, na escuridão.”.

O tempo que estamos vivendo tem sido uma experiência única para quase todas as pessoas. Há muitos que, ao final de um ano, fazem projetos, votos de mudança. Há aqueles que tentam projetar cenários futuros. De maneira muito rápida, uma epidemia que parecia tão distante, chegou e apanhou a todos de surpresa.

De uma hora para outra, toda a nossa vida e nossa rotina foram totalmente modificadas. Academias, escolas, shoppings, igrejas foram fechadas. Ficamos recolhidos em nossas casas, tentando encontrar maneiras de seguir adiante. Obviamente, toda essa situação trouxe com ela não só o risco de contágio, mas também sentimentos de tristeza, melancolia, depressão.

E, assim como Israel expressou os seus sentimentos por meio da arte e também encontrou na arte uma maneira de enfrentar os tempos difíceis, aqueles a quem Deus concedeu dons e talentos artísticos devem usá-los como instrumentos de Deus para expressar os sentimentos de uma humanidade ao mesmo tempo perplexa e triste. E, assim, cada um, ao se deparar com essas obras, pode sentir que ali se exprime o que vai dentro da sua alma.

A arte, aliada à espiritualidade é bálsamo para corações tristes e feridos, nesses dias de medo, luto, separação e isolamento.

Ao ser convidado por um colega para um culto com temática nordestina, acabei fazendo um sermão em versos do qual transcrevo a parte final, em que tentei expressar o que via e sentia nesses tempos, tomando como base o texto que diz que “Jesus Chorou”:

Nesse tempo tenebroso/
Da Covid Dezenove/
Ao ver tanto sofrimento/
Sei que Jesus se comove./
Pela família enlutada/
Com a alma tão dorida/
Ver quem ama ir embora/
Sem sequer uma despedida./
Vendo crianças morrendo//
Idosos indo embora//
Os jovens desfalecendo//
Eu sei que meu Jesus chora./
Vendo o comércio fechando//
O dono desesperado//
Falta comida na mesa//
E o pobre desempregado.
Nos leitos das UTIs/
Vendo aquela agitação/
O povo em desespero/
Comove o seu coração./
E nesse confinamento/
Que acentua a solidão/
Seu coração se aflige/
Vendo o povo em depressão./
Cristo também nos chamou/
Pra levar consolação/
E chorar com os que choram/
Ser cheio de compaixão./
Num mundo cheio de angústia/
De medo, dor, aflição/
Que o mundo encontre em nós/
Conforto e consolação./
Melhor dar que receber/
Jesus disse certa vez/
Ajudar a quem carece/
Num tempo de escassez./
Seja parceiro do Espírito/
Que ora dando gemido/
Ore, tenha piedade/
E acuda o abatido./
Com todo mundo afastado/
Cada um no seu cantinho/
Diga: estou do seu lado/
Não vá se sentir sozinho./
Se Deus está no controle/
Não fique ansioso/
Descanse o seu coração/
Nesse tempo cabuloso./
Jesus é um sacerdote/
Que não fica indiferente/
Se identifica com o fraco/
E sente o que a gente sente./
Ele intercede por nós/
Pois conhece a nossa dor/
E diante do Deus pai/
É o nosso defensor./
E se nessa pandemia/
A morte fez aliada/
Jesus diz: Não tenha medo/
Ela já foi derrotada./
Que o coração não se afoite/
E nem vá esmorecer/
O choro dura uma noite/
Mas já vai amanhecer./
Eu já derrotei a morte/
Guarde isso em sua mente/
Pois quem vive e crê em mim/
Viverá eternamente.

Rev. Kleber Nobre de Queiroz
Pastor Auxiliar da 1ª IPI de Natal, RN
Líder e Compositor dos “Cabras de Cristo”

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

O ESTANDARTE