FÉ E CIÊNCIA GLORIFICAM A DEUS

Sou Paulo Matos, tenho 38 anos, atleticano, nascido na periferia de Belo Horizonte e filho da Dona Miriã e do Tio Beto. Trabalho desde os 8 anos e, aos 15, tive a oportunidade de morar com meus tios (pais do coração) em Brasília, DF, que me apoiaram e colaboraram nos meus estudos.

Aos 17 anos, ingressei na Universidade de Brasília (UnB). Venho de uma família católica não praticante e fui encontrado por Cristo aos 14 anos, visitando uma Assembleia de Deus.

A minha juventude em Brasília foi na Igreja Batista, onde criei amor Pela palavra de Deus, e há 7 anos congrego na IPI Central de Brasília. Casado com a Cris desde os 23 anos, temos dois filhos maravilhosos: Pedro (9) e Luiza (6). Além disso, sou violonista e violeiro nas horas vagas.

Como escolheu a sua profissão?

Tornar-me químico não foi algo simples. Não havia pessoas com nível superior em toda minha família. Escolhi o curso de acordo com os meus boletins, a orientação dos meus tios e precisava cursar algo que me permitisse trabalhar.

Como trabalhava e estudava, não tive a oportunidade de fazer pesquisa durante a graduação. Quando estava para me formar, recebi dois convites para fazer mestrado, mas, nessa época, precisava ajudar financeiramente minha família em Belo Horizonte e a bolsa era monetariamente restrita.

Com isso, tornei-me bancário e professor (jornada dupla). Contudo, guardava em meu coração o desejo de trabalhar em um laboratório como químico. Prestei o concurso para a Agência Nacional do Petróleo (ANP) e ingressei como Especialista em Regulação, no ano de 2006.

A partir da minha experiência profissional, surgiu o desejo e a oportunidade de voltar para a academia. Meu mestrado e doutorado foram vinculados a temas que trabalhava na referida Agência: os lubrificantes.

Quais os seus projetos que julga serem mais interessantes e no que está trabalhando atualmente?

O trabalho mais importante que fiz não foi como pesquisador, mas como regulador, junto à equipe do laboratório da ANP, o Centro de Pesquisas e Análises Tecnológicas (CPT), na regulação do mercado de lubrificantes. O Brasil tinha um mercado com altíssimo percentual de não-conformidades (problemas na qualidade do óleo lubrificante) e hoje temos um mercado que se tornou referência mundial.

Atualmente a conformidade dos lubrificantes no Brasil é maior que 97%. Em relação às pesquisas acadêmicas, comecei tardiamente por causa do meu contexto de vida. No mestrado, pesquisei oleaginosas cultivadas no Brasil que possuíam um bom potencial para substituir o óleo mineral utilizado nos lubrificantes. A mamona e a macaúba se destacaram.

No doutorado, foquei no estudo da macaúba, planta típica do cerrado, e obtivemos quatro óleos com características físico-químicas superiores às de óleos minerais e equivalentes às dos básicos sintéticos. Ambos os trabalhos demostraram que o maior exportador de grãos do mundo tem um grande potencial para melhorar sua balança comercial em relação aos básicos lubrificantes.

Atualmente, estou trabalhando com algumas universidades e centro de pesquisas para desenvolver óleos básicos lubrificantes com de diversas oleaginosas, sobras de tecidos e óleo de soja usado.

Você acredita que uma pesquisa possa ter dificuldades devido a interesses econômicos?

Sim, eu acredito nisso! E, para que isso não ocorra, são necessárias políticas públicas a fim de regular a relação entre mercado e sociedade. Na Alemanha, por exemplo, o óleo mineral é mais barato que o óleo de colza, cultivado na Europa. O governo alemão sabia disso, mas também tinha conhecimento de que existem diversos ganhos ambientais e sociais com o uso de óleos vegetais como lubrificantes.

Assim, eles lançaram um programa de incentivo para o uso dos óleos vegetais e desoneraram os impostos de empresas que utilizavam óleos a partir da colza. No primeiro ano, eles conseguiram a utilização de mais de 10.000 litros de óleo vegetal em máquinas hidráulicas e, hoje, após outros incentivos, o volume de óleos vegetais utilizados como lubrificantes já passa de 10% do volume total.

Para dimensionar o sucesso da iniciativa, no Brasil, o volume é de 0,1 % e nos EUA 1,0%.

Os valores são intrínsecos aos seres humanos ou dependem da fé?

Immanuel Kant escreveu: “Duas coisas me enchem de admiração e estarrecimento crescentes e constantes, quanto mais tempo e mais sinceramente fico refletindo acerca delas: Os céus estrelados lá fora e a lei moral aqui dentro.” Ao ver um desconhecido se afogando é natural que um ser-humano pule na água e tente salvá-lo.

Todos temos um código moral e uma sede pelo Eterno, pois a graça comum desse Deus bondoso está sobre todos. Trabalhei com diversos ateus que possuíam uma ética ilibada e que foram exemplos para minha vida, por serem pessoas dedicadas ao trabalho, às suas famílias e nutrirem valores como honestidade, ética, respeito, dentre outros.

Mas, certamente, a minha visão de mundo e valores foram forjados em meu discipulado com Cristo.

O cristão deve estar na política para servir a sociedade?

Os cristãos devem trabalhar em todas as áreas do conhecimento, fazendo isso para glória do seu Senhor e lembrando-se do exemplo de Cristo que, sendo Deus, tornou-se servo. Não é maravilhoso ter irmãos e irmãs de fé testemunhando a obra do Espírito em sua vida por meio de um trabalho de excelência? Não foram poucas as vezes que trabalhei com cristãos que davam um mal testemunho por se acharem “cabeça e não cauda” e, com isso, jamais assumiam uma postura de servo.

Como o evangelho pode contribuir para a construção da sociedade que vivemos?

O evangelho me dá a razão para acordar às segundas-feiras tentando ser uma pessoa melhor e, com isso, fazer mais como servidor público e cidadão. Penso que, se o cristianismo fosse de fato aplicado à vida cotidiana, teríamos uma sociedade mais justa, com melhor distribuição de renda, mais cuidado com o pobre, um melhor sistema de saúde, etc.

Temos um país como o Brasil, no qual mais de 60% da população se declara cristã, porém a ética quase sempre vai na contramão. Creio também que o evangelho não nos desafia apenas na pregação e evangelização, mas também para trazer a maior densidade possível do reino de Deus na terra.

Olhando para a história de Daniel, o que você diria sobre ter um “espírito excelente” e como o cristão consegue conquistá-lo e aplicá-lo no campo profissional?

Gosto da citação de Karl Barth: “O cristão deve ter a Bíblia em uma mão e um jornal na outra”. Daniel levava sua espiritualidade a sério, mas não se tornou uma pessoa desconectada do seu tempo. Ele trabalhava e era brilhante no que fazia porque se esmerava nisso.

É necessário termos uma vida piedosa, com disciplinas espirituais, o que nos tornará mais preparados para os desafios da vida. No ambiente de trabalho, podemos ser sal e luz, e com isso glorificar a Deus. Trata-se de usar o talento recebido na forma de um trabalho de excelência.

Para essa pergunta vale a citação de Lutero: “Ore como se tudo dependesse de Deus. Trabalhe como se tudo dependesse de você”.

Muitas pessoas percebem fé e ciência como campos opostos. Como fazer um diálogo entre essas áreas?

Acredito que fé e ciência são complementares e possuem objetivos diferentes.

Os cientistas se preocupam com o mundo físico, da matéria, da energia, que pode ser contado, pesado, medido e, se possível, expressado por equações matemáticas; já a fé encontra-se no mundo espiritual, um campo que não é possível esquadrinhar com metodologias, técnicas e instrumentos.

Na Idade Média, observamos vários equívocos da igreja ao assumir a Bíblia com um livro científico o que, em diversas situações, fez com que ciência e fé estabelecessem uma relação antagônica.

Agostinho já alertava, no século IV, que o texto de Gênesis deveria ser interpretado como um livro que retratava a história de amor de Deus e não como um manual. Isso teria poupado diversos cientistas, como Galileu, da inquisição da Igreja Romana.

Vale destacar que as ideias de Giordano Bruno e Copérnico também foram refutadas pelos reformadores, Lutero e Calvino, que, com respaldo na Bíblia, acreditavam no geocentrismo.

Em relação à igreja, lembramos que Deus é glorificado quando uma vacina ou um medicamento são descobertos e milhões de vidas são poupadas.

Foi com o desenvolvimento das ciências que tivemos nossa expectativa de vida aumentada em décadas. Como cristãos, devemos nos lembrar dos versículos de Provérbios e buscar o conhecimento nas diversas áreas.

Para Calvino, “se o conhecimento for verdadeiro, ele jamais pode negar o Deus de toda verdade. Não devemos ter medo do saber, pois o saber verdadeiro sempre apontará para o Deus de toda verdade”.

Quais os desafios do cristão no ambiente acadêmico?

Creio que o desafio para qualquer profissional ou estudante é ter uma fé coerente com suas ações. Os questionamentos enfrentados são diferentes entre cursos de exatas e humanas.

As discussões sobre a relevância do cristianismo na sociedade atual não são alvo de discussões em cursos de exatas. Será que temos preparado nossos jovens para o convívio e as discussões na academia ou simplesmente evitamos discussões polêmicas em nossas escolas dominicais?

As dúvidas são bem-vindas em nossos templos? Qual Deus é mais surpreendente: o que faz as coisas ou o que faz com que as coisas se façam? Convivi mais de uma década com pessoas do instituto de Química da UnB e sempre fui respeitado em minha fé.

O que poderia comentar sobre o autor Richard Dawkins e outros escritores ateus que atacam o cristianismo?

Não apenas Richard Dawkins.

Temos diversos escritores que defendem o ateísmo atacando o cristianismo e outras religiões. Vivemos em uma geração que viu uma revolução tecnológica, a partir da qual a quantidade de informações gerada é imensa. Mas creio que a quantidade de informações não nos traz, necessariamente, sabedoria.

Tim Keller relata sobre a empáfia de uma geração que se acha superior a todas as demais, jogando fora a tradição que foi construída ao longo de séculos. Diversos desses livros questionam a religião por causa das atrocidades praticadas cristãos como nas Cruzadas, por exemplo. Porém, temos exemplos de governos que visavam estabelecer sociedades explicitamente baseadas no ateísmo e comprovaram-se capazes de cometer pelo menos a mesma quantidade de massacres.

Outro questionamento é que as religiões se baseiam em evidências não concretas. Mas eu pergunto: Qual a probabilidade da expansão do big bang ter ocorrido de maneira tão perfeita para que a matéria pudesse se expandir e formar os sistemas solares? Como explicar a força nuclear tão exata entre hidrogênio e hélio para que houvessem as fusões nucleares nos sois?

Não é improvável que uma molécula como o DNA, com sua estrutura de açúcar-fosfato e bases orgânicas dispostas de forma tão complexa, consegue aleatoriamente copiar a si mesmo? Cristãos e ateus precisam de fé para continuar se apoiando em suas perspectivas.

Outros pontos a destacar:

1) a graça comum atua em todo ser humano; 2) mesmo com a sociedade secularizada de hoje, temos um aumento da expectativa de vida e maior valorização da vida em relação a séculos anteriores; 3) Que tipo de cristianismo esses autores têm atacado? Um cristianismo que busca seu reino aqui na terra, na construção de verdadeiros impérios? 4) Que eles não se esqueçam do papel dos cristãos na valorização da vida humana, na abertura das principais universidades do mundo e que diversos grandes cientistas confessavam sua fé, como Newton, Copérnico, Kepler, Ampere, Edison, Schroedinger e que os próprios Darwin e Einstein acreditavam em um criador do universo.

Temos diversos cientistas vencedores do prêmio Nobel que se declaram cristãos. Destaco o cientista Francis Collins, químico, biólogo e médico, que foi coordenador do projeto do genoma humano e nos brindou com o livro “A Linguagem de Deus”.

O que podemos aprender neste momento de pandemia?

Mostra que vivemos tempos de obscuridade, em que vale mais a informação recebida no celular do que um artigo acadêmico. Atualmente, ao ouvirmos um epidemiologista, com anos dedicados àquele conhecimento, perguntamos sua ideologia política ao invés de parar e refletir.

Espero que a igreja atente para a necessidade de uma aproximação entre fé e ciência, no sentido de que o surgimento de uma vacina ou medicamento também glorifica a Deus.

Torço para que surja uma geração de jovens cristãos que, ao verem o que vivenciamos durante a pandemia, fique empolgada por carreiras nas áreas das ciências e da saúde, pois, infelizmente, muitos pais cristãos orientam a profissão dos seus filhos visando apenas o retorno financeiro.

Outra questão importante é esta: como os cristãos se tornaram historicamente relevantes? Eles eram conhecidos por cuidar dos necessitados. Conta-se que, no surgimento de uma peste no Império Romano, enquanto a elite ia para o alto das montanhas, os cristãos permaneciam e cuidavam dos necessitados, e isso chamou a atenção do imperador.

Apesar dos erros históricos, foram cristãos que estiveram à frente na construção de hospitais, na abertura de universidades e na valorização da vida humana. Não nos esqueçamos da nossa história e do nosso chamado para a servir!

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