O MAL TOMA CONTA DO ESPETÁCULO

A partir da edição de fevereiro, passamos a publicar, por decisão do Conselho Editorial de O Estandarte, os textos do e-book que se encontra no site da IPI do Brasil, intitulado “A Coragem de Confessar”.


“Por causa do que você fez, a terra é maldita” (Gn 3.17).

Na edição de outubro, vimos como o mal entrou em cena. Nesta, vamos estudar como o mal tomou conta do mundo todo e de toda a nossa realidade.

Destacamos o seguinte texto da Confissão de Fé de Westminster (CFW): “Nossos primeiros pais pecaram; eles decaíram da sua retidão original e da comunhão com Deus, e assim se tornaram mortos em pecado e inteiramente corrompidos em todas as suas faculdades e partes do corpo e da alma” (CFW 6.1 e 2).

O mal quebrou a comunhão do ser humano com Deus

Esta é a primeira coisa que a CFW destaca a respeito do mal. O ser humano foi criado à imagem e semelhança de Deus. Por isso, o ser humano podia manter-se em comunhão com Deus.

O ser humano era diferente e superior a todas as outras criaturas. Nenhuma outra tinha o privilégio de se comunicar com o Criador.

É isso o que descobrimos, quando lemos os primeiros capítulos de Gênesis. Deus conversa com o casal humano e lhe diz: “Tenham muitos e muitos filhos; espalhem-se por toda a terra e a dominem” (Gn 1.28).

Deus também diz ao ser humano: “Você pode comer as frutas de qualquer árvore do jardim, menos da árvore que dá o conhecimento do bem e do mal” (Gn 2.16-17).

Entretanto, no dia em que pecaram, “o homem e a mulher ouviram a voz do Senhor Deus, que estava passeando pelo jardim. Então se esconderam dele, no meio das árvores. Mas o Senhor Deus chamou o homem e perguntou: Onde é que você está?” (Gn 3.8-9).

Percebemos que, no começo, o ser humano vivia em relacionamento com Deus.

Bastou, no entanto, o ser humano cair em tentação para perder essa comunhão com o Criador. O ser humano passou a sentir medo de Deus e se escondeu (Gn 3.10).

É nesta situação que se encontra hoje a humanidade. Antes do pecado, o ser humano estava em comunhão com Deus. Após o pecado, o ser humano sente medo de Deus e foge da sua presença.

O mal corrompeu totalmente o ser humano

A Confissão de Fé é muito clara ao dizer que o pecado corrompeu todas as “faculdades” humanas. O pecado corrompeu todas as “partes do corpo e da alma”.

Foi nesse sentido que Paulo escreveu aos cristãos de Roma, dizendo: “Eu sou humano e fraco e fui vendido ao pecado para ser seu escravo. Não faço o que gostaria de fazer. Faço justamente aquilo que odeio. Aquilo que é bom não vive na minha natureza humana. Mesmo tendo vontade de fazer o bem, não consigo fazê-lo. Não faço o bem que quero, mas o mal que não quero fazer é o que eu faço” (Rm 7.14,15,18,19).

Vemos aí que o pecado dominou o ser humano integralmente. Paulo dizia que o pecado chegava a fazê-lo a agir contra a sua própria vontade. O pecado não tinha tomado conta somente do seu corpo, mas também de sua alma. Ao afirmar que era escravo do pecado, o apóstolo reconhecia que o mal dominava até mesmo a sua vontade.

Diante disso, não podemos subestimar o mal! Não podemos imaginar que ele toma conta somente de uma pequena parte do nosso ser. Temos de reconhecer que o mal corrompeu o ser humano todo, isto é, todas as “faculdades humanas” e todas as “partes do corpo e da alma”.

O mal corrompeu o relacionamento do ser humano com seus semelhantes

Quando Deus criou a mulher, o homem exclamou com muita satisfação: “Agora sim! Esta é carne da minha carne e osso dos meus ossos” (Gn 2.23).

Com tais palavras, o homem estava afirmando que via na mulher a sua companheira ideal, a pessoa que faria com que não se sentisse solitário.

No entanto, logo após a entrada do mal, o homem mudou a sua forma de ver a mulher. Quando Deus lhe perguntou porque desobedecera a sua ordem, o homem respondeu com uma acusação contra Deus e contra a mulher: “A mulher que me deste para ser a minha companheira me deu a fruta, e eu comi” (Gn 3.12).

Antes da queda, a mulher era a companheira ideal, motivo de alegria e satisfação; depois da queda, passou a ser vista como a culpada da desobediência.

E não deixa de ser interessante acrescentar que, a seguir, o texto bíblico apresenta a narrativa do primeiro assassinato. Caim matou Abel! Um irmão não conseguiu mais viver com outro e, por isso, acabou com sua vida.

Temos aqui uma das fragilidades da Confissão de Fé. Ela não faz nenhuma referência explícita às consequências do pecado sobre a vida em comunidade. Ela não aborda as implicações sociais do pecado.

Isso ocorre porque a Confissão de Fé só se preocupa com os efeitos do pecado sobre o indivíduo. Ela menciona a corrupção total de cada ser humano por causa do pecado. Mas não destacou a corrupção das relações entre os seres humanos.

Infelizmente, ainda hoje conservamos essa mesma atitude. Preocupamo-nos muito com nossos pecados individuais. Precisamos ter uma Confissão de Fé que, segundo a Bíblia, denuncie também dos pecados sociais da nossa época.

O mal corrompeu o relacionamento do ser humano com a natureza

Não temos, na Confissão de Fé, nenhuma palavra a respeito desse assunto. No entanto, a Bíblia tem muito a nos ensinar sobre isso.

Quando Deus criou o homem e a mulher, disse-lhes: “Para vocês se alimentarem, eu lhes dou todas as plantas que produzem sementes e todas as árvores que dão frutas” (Gn 1.29).

Imediatamente, após a queda do ser humano, Deus falou: “Por causa do que você fez, a terra será maldita. Ela lhe dará mato e espinhos. Você terá de trabalhar no pesado e suar para fazer com que a terra produza algum alimento” (Gn 3.17-19).

A Confissão de Fé nada diz a respeito desse aspecto do mal. Nós também nos esquecemos, frequentemente, do que a Bíblia nos ensina sobre as consequências do pecado sobre a natureza. A verdade é que o mal atingiu todas as coisas criadas por Deus.

Por causa do pecado do ser humano, a natureza passou a se voltar contra o próprio ser humano. Todas as coisas que foram criadas para o bem e felicidade do ser humano tornaram-se perigosas e ameaçadoras para a humanidade.

Conclusão

À medida que caminhamos no estudo da Confissão de Fé, percebemos algumas de suas limitações. Ela nos ajuda no estudo da Bíblia, mas o estudo da Bíblia nos faz perceber as suas omissões.

Não devemos, contudo, ficar impressionados com isso. É natural que, tendo sido escrita no século XVII, ela reflita as preocupações das pessoas que viviam no século XVII.

Naquela época, a grande preocupação era de natureza individual. Por isso, a Confissão de Fé diz que o pecado quebrou a comunhão do homem com Deus e corrompeu o seu corpo e alma. Ela não vai além disso porque era somente por tais aspectos que as pessoas se interessavam naquele tempo.

Atualmente, vivemos em uma outra situação. Hoje, temos consciência dos graves problemas sociais e ecológicos que nos afligem.

A Confissão de Fé nada diz tais assuntos.

A Bíblia, no entanto, não os omite nem deles se esquece.

Isso indica que necessitamos produzir uma nova Confissão de Fé a partir da Bíblia, tendo em vista a nossa realidade.

Rev. Gerson Correia de Lacerda
Secretário Geral da IPI do Brasil
Pastor-auxiliar da 1ª IPI de Osasco
Editor de O Estandarte

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