SERMÃO DO MONTE NA UNIVERSIDADE

O formato cristão para saber viver, que engloba ação e arte, percorre uma sinopse maravilhosa no Sermão da Montanha, proferido nas proximidades do Mar da Galileia.

Agora, temos a agradável surpresa de descobrir, numa das principais universidades do mundo – a de Yale – que ali existe um novo curso, destinado à busca da sensação de bem-estar, fornecendo estímulos para a prática de tarefas com gestos de bondade e gratidão.  

A coordenada do curso, Profa. Laurie Santos, formada em biologia e psicologia por Harvard, diz que a ideia de implantar o curso nasceu com a constatação de muitos casos de depressão, ansiedade e estresse entre os estudantes.

Foi assim que ela decidiu proporcionar aos discentes a oportunidade de ensiná-los a fazer escolhas “mais sábias” e a “ter uma vida mais satisfatória”. O nome do curso é “A Ciência do Bem-Estar”.

A princípio, fiquei admirado com a extraordinária inovação acadêmica. Depois, manuseando as Escrituras, percebi que já havia visto exatamente essa diretriz pedagógica em algum lugar. Mas é claro! No Sermão da Montanha.

Jesus, nosso grande Mestre, não foi professor em Yale, nem em Harvard, mas como Salvador do Mundo é professor para todo o planeta.

O que agora se ensina em Yale já foi esculpido em formato diferente, estimulando-nos a abrir janelas para oportunidades de vida. Nosso Senhor e Mestre nos fala e precisamos continuar a ouvi-lo. Temos de repetir as suas palavras como um eco, em tempos tão vulgares e limitados como os nossos, grosseiros nos prazeres e baixo nas aspirações. Sejamos montanheses.

Jesus, o mestre filósofo

Aprendemos que Jesus tem quatro receitas de felicidade.

O conhecimento acadêmico de hoje, adotado em Yale, percorre escolas filosóficas, incluindo a crítica da religião (Karl Marx), a teoria do niilismo (Friedrich Nietzsche), o escalonamento do poder (Michel Foucault), a análise das diferenças (Gilles Deleuze).

Tudo somado nos leva a concluir que existem formas alternativas de vida e é preciso agir e se posicionar para usufrui-las, e assim viver bem consigo mesmo e com a sociedade.

A rigor, o raciocínio de todos esses filósofos contribui bastante para que se pense e se viva bem melhor.

O incrível disso é que, anteriormente a todas essas formas de bem pensar, Jesus se manifestou com extrema clareza para, de maneira simples e direta. Ministrou essas receitas em nível ainda superior, porque acrescentou a ela a dimensão espiritual e seu caráter transcendente. Quer dizer: o bem supremo é obtido como um deleite para a alma. Num grau de perfeição, a felicidade somente será adquirida na vida eterna, no almejado encontro, face a face, com o Senhor.

Uma das bem-aventuranças deixa muito bem claro que estender a mão com misericórdia para o semelhante quer dizer que podemos contar com a imprescindível misericórdia da qual também um dia iremos precisar.

Assim como aconteceu em Yale, a tentativa e a busca de ajudar pessoas a se encontrar e a saber escolher são importantes para perceber que a expressão bem-aventurança não faz parte do nosso vocabulário usual. É mais direto a gente falar felicidade, condicionando a sua obtenção ao nosso modo de viver.

O fato é que exatamente isso precisamos explicar: nossas atitudes são determinantes para a escolha de nossos lugares no Reino de Deus. 

A prédica do Senhor ensina que pobreza de espírito tem tudo a ver com ações e também pensamentos e motivações. Essa pobreza de espírito é contraste com a dureza nos corações, muito referida nas Escrituras. Essa pobreza, portanto, vai contra a frieza da lei, por não priorizar os sedutores bens materiais.

Há um padrão divino de comportamento, impossível para um pecador alcançar, a não ser pelo intermédio da graça e pela misericórdia. Mas, por estranho que possa eventualmente parecer, é desses pobres o reino divino.

Os mansos citados no sermão acatam, dividem ao aprender e a não guardar exclusivamente para si o que sabem. Aqui, temos quer ser bons pedagogos. Porque ser manso não significa ser submisso, subserviente, mas, sim, aquele que coloca a humildade no lugar da petulância e da prepotência.

Os que derramam lágrimas serão consolados. Na hora da aflição, o Senhor continua conosco.

Ter fome e sede de justiça é cultivar o bem para todos, sem nenhum tipo de exceção. É proteger o fraco contra o mais forte.  

Coração limpo e não sujo, manchado, é passaporte para o máximo: entrar no Reino de Deus e vê-lo.

Os que são pacíficos e pregam a paz serão chamados filhos de Deus.

E quem for perseguido por amar a justiça, será feliz.

Creio ser esta a sinopse da felicidade, a bem-aventurança.

A pedagogia reformada vai ensinar a desfrutá-la, vivendo bem consigo mesmo e o próximo (insista-se!). Isto é: felicidade por aqui, felicidade no Reino implantado. Precisamos usar sábias palavras (é o que se pretende em Yale), ajustáveis, tocantes, adequadas e convincentes para explicar isso que, em tempos modernos, não é fácil de transmitir.

Jesus, nesse sermão montanhês, interliga-se à lei mosaica, mas nos apresenta a sua lei, direcionando para a prática de justiça plena, que se torna viável pela presença do Espírito nos filhos de Deus.

A nossa pedagogia, hoje, dispondo desse poderoso instrumental, é didatizar os ensinamentos da maneira mais clara possível, para que aqueles que vão ouvir possam compreender.

Não podemos falar em linguagem cifrada, codificada, hermética, árida, exatamente porque nosso Mestre empregava com sucesso o método da clareza.

Não vivemos apenas em fechadas bolhas paroquiais. Temos dons e talentos múltiplos e cada um deles é necessário para uma pregação ou testemunho, numa sociedade profundamente diversificada.

Sempre há algo a se descobrir, a acrescentar, a adequar, a adaptar às circunstâncias. Quero dividir, aqui, o que aprendi lendo Frederico Lourenço, doutor em línguas e literaturas clássicas e professor na Faculdade de Letras de Coimbra.

Ele verteu para o nosso português, pela primeira vez, os originais bíblicos escritos em texto grego. Trata-se da obra “Bíblia – Novo Testamento – os Quatro Evangelhos” (Companhia das Letras), chegada recentemente ao Brasil.

Nesse trabalho, encontramos variantes interessantes. O autor, vencedor do prêmio Pessoa, já fizera isso com a “Ilíada”, a “Odisséia” e as tragédias de Eurípedes.

No grego, por exemplo, lemos como sendo felizes os “mendigos pelo espírito” e não a conhecida tradução “pobres de espírito”. A palavra grega é “ptôkhós”, que quer dizer – sem dúvida alguma – “mendigo”, o que leva o tradutor a preferir a palavra hebraica “ebyon”, equivalente a mendigo ou “pedinte”, próximo da palavra “oniu”, pobre, dependente.  

Tais sutilezas semânticas são importantes para que possamos nos aprofundar ainda mais no conteúdo do texto, portanto com exatidão nas palavras proferidas por Jesus. O interessante na obra de Lourenço, repleta de novidades no original, é que ele não tende para um tipo de linha de interpretação bíblica, mas, sim, para o respeito absoluto à precisão do conteúdo grego, o que se torna sumamente benéficos para todos.

Recebi a bênção de visitar o monte das bem-aventuranças. Não se pode precisar qual tenha sido o exato local da magnífica prédica. Trata-se de uma região, com pontos mais elevados e, num deles, Jesus se assentou para falar à multidão com voz possante.

Digo isso porque não dispunha de microfone ou caixa de som. Mas se fez ouvir muito bem.

Senti o impulso de me ajoelhar no lugar, mas ninguém pode dizer onde é, ali no lugar conhecido como Monte de Naum (por causa de Cafarnaum) e Monte das Beatitudes.

É emocionante, de qualquer forma, ao recordarmos das palavras proferidas e projetá-las para a nossa vida.

O lugar é visitado por gente de todo o mundo. É o que Jesus queria: que todos aprendessem. Chegou a nossa hora de ensinar, ao menos um pouco, tanta sabedoria: além da montanha, existem planícies encantadoras e uma glória imortal.

Percival de Souza
Jornalista e Escritor
Membro da 1ª IPI de São Paulo, SP

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