A INFLUÊNCIA DA CULTURA NORDESTINA NA IPIB

O debate sociológico em torno das questões religiosas enfrenta, nos dias atuais, tanto no Brasil quanto em nível mundial, diversas questões importantes, dentre as quais poderíamos destacar: o caráter laico do estado e sua relação com os valores cristãos; a configuração e o futuro das diversas religiões numa sociedade pluricultural e da informação; a relação entre fé, ciência, técnica e ética; a relação entre cultura e religiosidade; etc.

Discussões, por vezes ásperas, em torno dos referidos temas têm enchido as páginas de publicações especializadas ou de larga difusão. Desta forma, nosso intuito não será tentar esgotar o assunto ora apresentado e nem mesmo gerar qualquer polêmica em torno deste, mas tão somente trazer à reflexão esse tema que julgamos de extrema importância para uma igreja que, desde o seu nascimento, busca construir uma identidade que a aproxime de sua gente, seus valores e cultura.

A cultura contemporânea possui uma aguda consciência do valor da liberdade, segundo a qual agir segundo convicções e em virtude de decisões pessoais, antes que deixar-se conduzir por instâncias diversas, é algo considerado uma exigência da dignidade do ser humano mediante a qual ele se exprime e graças à qual ele pode crescer e organizar a sociedade em que vive. Embora essa seja uma busca constante, é importante, também, lembrar que muitos pensadores têm afirmado a impossibilidade de realizá-la. No livro “A Sociedade do Espetáculo”, Guy Debord (1931-1994), ao criticar a sociedade de consumo e o mercado, afirma que a liberdade de escolha é uma liberdade ilusória, pois escolher é sempre escolher entre duas ou mais coisas prontas, isto é, predeterminadas por outros. Uma sociedade como a capitalista, onde a única liberdade que existe socialmente é a liberdade de escolher qual mercadoria consumir, impede que os indivíduos sejam livres na sua vida cotidiana. Desta forma, no que diz respeito à cultura, me parece não ser muito diferente. Nós somos influenciados pelo meio em que vivemos, assim como o influenciamos através de nossas vivências e crenças. Sendo assim, só nos resta afirmar que, no mundo religioso, também não é diferente. A nossa prática religiosa está perpassada pelos valores e costumes culturais, tanto em seus aspectos positivos quanto nos negativos.

Se pararmos para observar as nossas praticas religiosas dentro da IPIB, além das influências recebidas do mundo externo tanto religioso quanto não religioso provenientes de outras regiões, verificaremos que estas se avolumam de forma vultosa uma vez que, por estarmos inseridos numa sociedade conectada por redes que a transformou numa sociedade de livre produção e circulação de saberes, ideias, trabalhos, cultura, informações; etc., não temos mais qualquer controle a respeito do que as pessoas podem acessar e consumir dentro desse ambiente. Sendo assim, os praticantes das mais diversas religiões, assim como qualquer outra pessoa, estarão sempre em contato com novas informações e culturas que acabam sendo incluídas em suas práticas religiosas. Isto posto, se olharmos para dentro de nossas igrejas nordestinas, veremos que a IPI sofre das mais diversas influências culturais e, assim, poderemos encontrar nas nossas igrejas nordestinas as mais deferentes práticas, que por sua vez revelam essa multiplicidade de influências em nossas práticas rituais. Especificamente no que diz respeito à influência da cultura nordestina em nossas igrejas creio ser possível destacar aquela exercida pelos ritmos nordestinos nas nossas canções. São muitas as canções que foram inspiradas em ritmos tipicamente nordestinos, tais como: xote, xaxado, forró pé de serra, baião e, no caso especifico do Maranhão, o reggae e o bumba boi. Além dos arranjadores musicais de nossas igrejas que, no geral, utilizam nossos ritmos para arranjar até mesmo as músicas e hinos mais tradicionais.

Digno de nota, também, é a forma mais descontraída e informal do nordestino que tem, aos poucos, sido incorporada nas reuniões e cultos de nossas igrejas. Já não se observa mais o rigor na forma, na vestimenta e na apresentação, tantos dos fiéis quanto daqueles que tomarão parte na liturgia. Nossos cultos hoje são bem mais soltos, leves e descontraídos. Uma espécie de reunião fraternal de velhos amigos, com um jeito bem nordestino, bem familiar que, embora não engessado e pesado, não deixa de ser litúrgico e reverente.

Se pensarmos nas reuniões familiares de membros de nossas igrejas, podemos lembrar, principalmente no período junino, os encontros familiares e eclesiásticos de convivência fraterna sempre regados a muita comida típica: bolos de tapioca e milho, mingau de milho, tapiocas, doces típicos diversos, etc. Essa é uma igreja que, aos poucos, tem buscado adquirir a identidade e a forma de um povo e de uma cultura!

Rev. Valdir Mariano de Souza
Pastor jubilado da IPIB

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