A GRATIDÃO COMO CONTRAPONTO DA INSATISFAÇÃO

Um dos temas de extrema relevância para os cristãos e, por que não dizer, para a vida humana é o da ação de graças. Para vivermos bem, mesmo em meio à percepção e juízo pautado em carências, é imprescindível o sentimento, a consciência e o ethos (modo de viver) pautados na gratidão. A gratidão se contrapõe à insatisfação. No contexto em que vivemos, marcado pelo capitalismo acentuado, somos constantemente induzidos a lamentar pelo que não temos, pois parece que sempre falta algo para nos sentirmos de fato felizes; somos incentivados ao exacerbado consumismo a fim de termos ilusórios momentos de real prazer; somos conformados para o egocentrismo, onde o que importa é tão somente o que eu quero, o que eu penso, o que eu faço e o que eu busco. Nunca uma pessoa experimenta a singeleza da alegria, a beleza da simplicidade e a riqueza da paz na ingratidão, no consumismo e no egocentrismo. Pessoas, assim, perdem a vida, perdem a alma. “Louco, esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado para quem será?” (Lc 12.20). Estas são palavras de Jesus são para quem buscou a segurança do seu mundo e da sua vida nos bens, no acúmulo, na abundância material, em si mesmo.

Em Jesus, a gratidão sempre esteve presente em seu ensino, em sua vida e em seu ministério de forma marcante. Para Jesus, ninguém desenvolve sincera e profunda comunhão com Deus sem a gratidão. Em vários momentos e em circunstâncias distintas, encontramos Jesus sendo grato a Deus Pai. Ele dá graças pelo sustento dos pássaros e pelo lírio que cresce no campo, manifestações da providência e cuidado de Deus em meio às ansiedades da vida humana com o comer, beber e vestir (Mt 6.21); dá graças porque Deus ocultou a beleza do evangelho aos sábios e instruídos, e a revelou aos pequeninos (Mt 11.25); dá graças ao partilhar o alimento, pães e peixes, e saciar a fome de pessoas exaustas (Mt 15.36); dá graças num dos momentos mais difíceis da sua existência, pois tomou o cálice na última refeição com os discípulos e o distribuiu dizendo que era o seu sangue, “o sangue da nova aliança, derramado sobre muitos para a remissão de pecados” (Mt 26.28).

Com e em Jesus, recebemos inspiração e aprendemos a ser gratos pela criação e pela vida. Nas Escrituras, Deus revela-se como o criador de todas as coisas. Como criador, chama à existência aquilo que não existe e que não tem condições de existir por si só. A criação divina é esplêndida: é colorida, criativa, imensa, prazerosa; é cheia de luz, sublime, bela. Ao nos criar, cria-nos conforme a sua imagem e semelhança e, deste modo, tornamo-nos alvo do seu grandioso amor e do convite para um relacionamento construtivo e pleno de vida, paz e justiça.

Com e em Jesus, recebemos inspiração e aprendemos a ser gratos a Deus pela sua salvação graciosa. O que um pecador miserável e indigno pode esperar de Deus? A salvação, a cura, a nova vida, a paz, a vida eterna, a sua presença consoladora. É por isto que salvação significa vitória sobre o pecado, sobre o juízo e sobre a morte. Salvação é o estado de plenitude mesmo em meio aos percalços e dificuldades da vida. É o morrer para ter vida; é ter vida para além da morte.

Com e em Jesus, recebemos inspiração e aprendemos a ser gratos pelas coisas simples, mas importantes do nosso dia a dia: o alimento, a família, o neto, o filho, as amizades, a sensação da vida abundante, o pouco que temos, a alegria que sentimos, o esporte que praticamos, o lazer esporádico, o descanso diário, a noite bem dormida. É na simplicidade que Deus se encontra e que encontramos a Deus. O modo como Ele se fez plenamente presente e adentrou neste mundo foi por meio de uma criança, nascida de uma família simples, colocada numa manjedoura, que se tornou um homem de Nazaré, não tendo onde reclinar a cabeça, morrendo na cruz.

Com e em Jesus, recebemos inspiração e aprendemos a ser gratos até mesmo na falta de algo que, no momento, achamos que é essencial para o nosso viver e para a nossa felicidade.

Rev. Reginaldo von Zuben
Professor e diretor da Faculdade de Teologia de São Paulo da IPIB

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