DIACONIA É ACOLHER O REFUGIADO

“Deus ama os estrangeiros que vivem entre vocês e lhes dá alimento e roupas” (Dt 10.18).

“Fomos todos refugiados!”

Essa frase parece um daqueles chavões clichês que visam nos identificar com certos grupos, nos levando à sensibilidade e à generosidade para com eles. Clichê ou não, precisamos refletir sobre o tema e o papel da Diaconia no acolhimento a refugiados.

Ao longo da história sempre houve crises migratórias, e não é diferente hoje.

Aos olhos dos judeus, nós, os não israelitas, somos estrangeiros, separados da comunidade de Israel e estranhos às alianças da promessa (Ef 2.12), considerados até como inimigos (vv. 14,16).

Mas Deus, por intermédio de Jesus, derrubou as fronteiras nacionais, unificou as comunidades gentílicas e israelitas num só povo, criando uma grande irmandade, como bem explicou o apóstolo Paulo: por ele, ambos temos acesso ao Pai em um Espírito. Assim, já não somos estrangeiros e peregrinos, mas concidadãos dos santos, e somos da família de Deus (Ef 2.18,19).

Fazer de nós parte de uma grande família foi o desejo do coração de Deus e uma promessa.

Em Adão, toda sua descendência ficou debaixo de maldição (Rm 5.14; Gl 3.10).

Em Abraão, Deus promete abençoar todas as famílias da terra (Gn 12.3). Seu desejo e promessa se cumprem na obra salvadora de Jesus Cristo, nosso Senhor.

Uma grande família, formada por várias nações. Talvez por isso, Deus sempre tenha amado o estrangeiro (Dt 10.18).

Também não queria que o orgulho nacionalista de Israel desprezasse os estrangeiros. Então, criou leis que os amparava: “Quando o estrangeiro peregrinar convosco na vossa terra, não o oprimireis. Como um natural entre vós será o estrangeiro que peregrina convosco; amá-lo-ás como a ti mesmo, pois estrangeiros fostes na terra do Egito. Eu sou o Senhor vosso Deus” (Lv 19.33-34).

Deus lembra os israelitas que eles foram estrangeiros no Egito, apelando à sua empatia. Mas não só no Egito. Também foram peregrinos pelas nações, quando a Assíria espalhou o povo do reino do Norte (2Rs 18.11ss), e estrangeiros na Babilônia, quando esta levou cativo o reino do Sul (2Rs 25.1-22). 

O próprio Filho do Senhor foi ao estrangeiro se refugiar, quando da ameaça de morte por Herodes (Mt 2.14). E, no próprio Filho, o conceito de estrangeiro ganha novo significado, tornando-nos um povo, uma família, para que amemos os estrangeiros como Deus os ama e nos tratemos como irmãos.

Afinal, temos “um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, age por meio de todos e está em todos” (Ef 4.6). 

A igreja tem um dever bíblico de amar e socorrer o estrangeiro que se refugia. Isso é diaconia. Aliás, a Diaconia surge diante dessa demanda.

20 de junho, Dia Mundial do Refugiado, é dia de lembrar nas igrejas o que moveu a comunidade de Atos a criar o ministério de diaconia: “Algum tempo depois, o número de judeus que se tornaram seguidores de Jesus aumentou muito, e os que tinham sido criados fora da terra de Israel começaram a se queixar dos que tinham sido criados em Israel. A queixa deles era que as viúvas do seu grupo estavam sendo esquecidas na distribuição diária de dinheiro” (At 6.1).

Diante dessas queixas e por aumentar a demanda, os apóstolos tiveram a seguinte ideia: “Escolham entre vocês sete homens de confiança, cheios do Espírito Santo e de sabedoria, e nós entregaremos esse serviço a eles” (At 6.3).

Daí em diante, a igreja criou um programa de assistência aos estrangeiros. Quando eles passavam por dificuldade e fome, os cristãos faziam coleta de socorro e enviavam aos necessitados (At 11.28,29; 1Co 16.3; 2Co 8; 2Co 9.2). 

Em nosso tempo, assistimos mais uma crise migratória, aumentando o número de refugiados. Seja fugindo de guerras, que acontecem em várias regiões do globo terrestre, seja por crises econômicas, o refugiado é alguém que está em busca de uma vida melhor, de oportunidades, longe das tensões bélicas e da falta de recursos básicos de sobrevivência. A igreja não pode ficar indiferente à crise de refugiados. “O Senhor guarda o estrangeiro, ampara o órfão e a viúva” (Sl 146.9) e faz isso através dos seus servos, de sua igreja.

São muitos os trabalhos que podem ser desenvolvidos para amparar os refugiados em nossas cidades.

Que cada igreja opere dentro de sua realidade, conforme suas condições.

Há ONGs específicas que dão assistência a refugiados à quais a igreja pode se somar nessa importante obra.

Cito aqui algumas delas:

  • Missão Mais (www.maisnomundo.org);
  • Associação Compassiva, na capital de São Paulo (www.facebook.com/compassiva);
  • Associação Nacional de Juristas Evangélicos (ANAJURE), que auxilia juridicamente;
  • Abraço Cultural, empregando refugiados e migrantes para dar aula de idiomas e compartilhar sua cultura, nas capitais do Rio de Janeiro e São Paulo (www.abracocultural.com.br);
  • Missão Paz, oferece apoio aos imigrantes e refugiados, desde serviços de documentação, informação jurídica, mediação de trabalho, serviços de saúde física e mental, assistência social e acolhimento (www.missaonspaz.org).

As igrejas cujas cidades têm recebido grande número de refugiados podem se inspirar na política para refugiados de João Calvino, sendo ele mesmo um refugiado em Genebra e, depois, em Estrasburgo.

A cidade de Genebra, entre os anos 1541 a 1560, recebeu um considerável número de refugiados franceses que sofriam perseguição religiosa. Muitas dessas pessoas eram pobres. Foi quando criaram o Fundo Francês, administrado por diáconos para dar assistência como: contratação de amas de leite ou mães adotivas para os bebês cujas mães refugiadas haviam morrido; oferecimento de serviços médicos e farmacêuticos; compra de tecidos e contratação de alfaiates e costureiras para fazerem roupas para os mais pobres; aplicação de recursos do Fundo em uma grande variedade de projetos caritativos, como ajudar os refugiados a obterem moradia ou hospedarias; fornecimento de camas ou colchões; pequenas doações em dinheiro ou cereais; doação de ferramentas ou matrículas em cursos para os aprendizes de ofícios.

Nossas comunidades também podem se inspirar em igrejas da IPI do Brasil que trabalham com refugiados, como a 2ª IPI de Maringá, PR, que plantou congregações para refugiados, acolhendo, assistindo e dando orientações espirituais, emocionais a esse grupo e suprindo suas necessidades básicas.

O acolhimento envolve: amar os refugiados; alimentar; não oprimir; doar recursos; hospedar; empregar; ensinar o idioma e a cultura brasileira; e ajudá-los a se integrar à sociedade. 

As nossas igrejas precisam tratar os refugiados com hospitalidade e assegurar, na medida do possível, seus direitos de cidadania. 

Se quiser saber mais, assista à live promovida pela Secretaria de Diaconia, em nosso canal no YouTube (Diaconia IPIB), realizada dia 21 de setembro de 2020, onde entrevistamos dois missionários experientes no acolhimento a refugiados.

Acolhendo o refugiado, expressamos o amor que nos caracteriza como seguidores de Jesus e poderemos ouvir de Jesus, naquele feliz dia, essa misteriosa frase: “Fui estrangeiro, e vocês me acolheram” (Mt 25.35), pois, “sempre que o fizeram a um destes meus pequeninos irmãos, foi a mim que o fizeram” (Mt 25.40). Acolher o refugiado também é Diaconia!

José Andreze Nunes da Silva
Pastor da IPI de Araraquara, SP

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