FORMAÇÃO-VIA-RESSURREIÇÃO

“Pai, perdoa as nossas ofensas, assim como nós perdoamos os nossos ofensores” (Mt 6.12).

Estamos em um processo de formação espiritual. Concordo com Eugene Peterson ao afirmar que a vida cristã surge a partir da rica tradição de formação-via-ressurreição. Segundo ele, “a ressurreição de Jesus cria e oferece a realidade na qual somos formados como novas criaturas por meio do Espírito Santo”. Entretanto, a experiência da ressurreição não se dá de forma particular e individual como afirmam muitos ensinos presentes em nossa cultura, focando nas conquistas pessoais acima de qualquer coisa. A ressurreição, ao contrário, se dá na companhia de outras pessoas. A formação-via-ressurreição é algo que exige a presença do “outro”, apontando para um aspecto pessoal e relacional.

O “outro” está mais próximo do conceito de “amigo”. Para que estabeleçamos uma amizade, muito mais do que a afeição, devemos compartilhar um objetivo comum. Nesse processo, somos desafiados e moldados ao crescimento, e, portanto, à formação espiritual.

“A ressurreição de Jesus se dá na companhia de amigos que se conhecem pelo nome, dos quais também sabemos o nome. A ressurreição não é uma exibição impessoal feita diante das multidões. A ressurreição é vivenciada numa rede de contatos pessoais” (Eugene Peterson).

Podemos crescer espiritualmente por meio da ressurreição porque compreendemos o significado da morte de Jesus em nosso favor. Dessa forma, desejo refletir sobre as dificuldades que enfrentamos referentes à indisposição para perdoar. Por que deixamos problemas, aparentemente sem importância, se transformarem em ressentimentos? Por que ainda guardamos mágoas em relação a situações que acreditamos já termos perdoado? Sabemos que lembrar de um fato não é sinal de falta de perdão, mas as experiências associadas à lembrança do fato determinarão se o perdão de fato ocorreu.

A morte e ressurreição de Jesus são boas novas de que nossos pecados foram perdoados e podemos, então, viver uma nova vida. O perdão que nos foi oferecido não nos custou absolutamente nada. Sendo assim, nossos atos de obediência são frutos do perdão recebido. Assim como fomos perdoados por Deus em Cristo Jesus, devemos perdoar aqueles que nos ofendem.

Ruth Hetzerdorfer, professora americana com mestrado em Educação e doutorado com ênfase em Aconselhamento, afirma que “muitos problemas que enfrentamos na vida exigem que perdoemos para nos livrarmos deles” (Guia de Aconselhamento Pastoral). A autora aponta para um comportamento que precisa ser tratado na vida humana: a indisposição para perdoar. A inflexibilidade nas relações pode se transformar em amargura e promover a contaminação de muitas outras pessoas.

A resistência criada produz ainda mais sofrimento emocional ao que não perdoa e não ao que ofendeu. Devido ao sofrimento que nos foi imposto, acreditamos ter a obrigação ou até mesmo a capacidade de julgar o outro pela sua ação. Contudo, essa sensação de dever é uma ilusão na busca de consolo mediante o momento de dor. Dessa forma, como todo o processo ilusório, ao invés de confortar o coração, somos conduzidos à divisão, ao ciúme, à inveja e a outros conflitos destrutivos.

Devemos entender o processo destrutivo para lidarmos com ele de forma mais consciente. Assim como o provérbio nos alerta para o fato de que a soberba precede a ruína, devemos nos lembrar de que a falta de perdão precede a amargura. Isso significa que a amargura é consequência da falta de perdão. A indisposição em perdoar gera uma profunda raiz de amargura que se manifesta por meio da ira, difamação, raiva e até mesmo ódio.

As mágoas estão associadas às relações emocionais com as pessoas à nossa volta e também aos ideais que passam a se tornar nosso projeto de vida. Quanto mais intimidade temos com uma pessoa, maior a nossa frustração em relação à ofensa. Podemos exemplificar esse caso com a comparação
do sentimento de um adolescente criticado pelos familiares por seu comportamento, sentindo-se ofendido pelo julgamento. O jovem, então, alimenta uma mágoa profunda de seus pais em meio às palavras de condenação porque esperava que ao menos eles ficassem “do seu lado”.

Além desse exemplo, quanto mais envolvidos estamos em uma causa ou ideologia, maior indisposição teremos com os que são indiferentes ou opostos aos nossos pensamentos. Nas comunidades cristãs, podemos vivenciar essa realidade ao vermos uma pessoa sendo despertada para
uma necessidade específica da igreja e comprometendo-se com determinado ministério, se incomodando e se sentindo ofendida com os irmãos que não se dedicam de maneira semelhante à mesma causa.

Independentemente do motivo do nascimento da amargura, ela será proveniente da falta de perdão. As consequências são desastrosas para o ser humano. A amargura desencadeia problemas espirituais, emocionais e físicos. Espiritualmente, perdemos a capacidade de obediência a Deus ao colocarmos nossa própria vontade acima do imperativo divino que ordena que perdoemos. Emocionalmente, acabamos por reproduzir o comportamento da pessoa da qual guardamos rancor, uma vez que sua imagem ocupa com frequência nosso pensamento. E, por fim, fisicamente,
a amargura provoca doenças em nosso corpo como pressão alta, úlceras e outras enfermidades.

Não podemos cometer o equívoco de pensar que sentir mágoa seja errado, mas precisamos ser conscientes de que a maneira como lidamos com esse sentimento nos afeta profundamente. Com o propósito de fazermos uma autoanálise, podemos observar o que Ruth Hentzendorfer aponta como características de um indivíduo amargo: “Importa-se pouco com os outros; é muito melindroso; é muito possessivo com os amigos; é ingrato; faz críticas ácidas; guarda rancor e acha difícil perdoar; demonstra teimosia ou atitude rabugenta; talvez não queira a ajuda de ninguém.”

Qual o caminho da cura? O mesmo que nos foi oferecido na cruz do Calvário: o perdão! Se ansiamos por nos libertar da mágoa, o caminho é o perdão. O perdão é uma ação que decidimos tomar. Não propomos um fingimento de esquecimento à dor causada, mas, sim, uma ação em que o
perdão ocupe espaço para o processo de cura. Dessa forma, substituiremos o tormento do ressentimento pelo perdão.

É importante frisarmos, ainda, que o perdão não significa que passamos a concordar com a atitude do ofensor, nem mesmo que devemos permanecer em uma relação doentia que nos provoque sofrimento constantemente, caso o outro não mude seu comportamento. Em outras palavras, não estamos renunciando ao nosso direito de justiça, mas, sim, ao de vingança.

Nesse sentido, clame para que o Senhor transforme sua forma de pensar caso haja algum equívoco referente ao perdão. Busque a longanimidade. Ore em favor das pessoas que lhe ofenderam. Avalie suas posturas e observe se você não está julgando o outro. Persevere na Palavra de Deus. Lembre-se de que a escolha será sempre sua se perdoará ou não os que lhe machucaram. Assim, sermos sinceros diante de Deus em relação aos nossos sentimentos é o caminho para superarmos a indisposição em perdoar e prosseguirmos nesta formação-via-ressurreição.

Rev. Alex Sandro dos Santos
1º Secretário da Assembleia Geral da IPI do Brasil
Pastor Titular da 1ª IPI de Machado, MG

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