DEUS INVENTOU AS LÍNGUAS PARA APROXIMAR-NOS DELE

Diz um ditado que “Deus escreve certo por linhas tortas”. E quantas linhas tortas temos rabiscado para Deus nelas escrever o certo!

No episódio de Babel (Gn 11), por exemplo, a confusão das línguas foi desencadeada pela humanidade, quando as pessoas, concentradas num só lugar, quiseram ficar famosas ao construir uma torre que alcançasse o céu. Primeira linha torta: a aglomeração impedia a humanidade de “povoar a terra” (Gn 1.27; 9.1, 7). Segunda linha torta: não seria a construção de uma torre tão alta uma tentativa de precaver-se de um novo dilúvio, escapando da ira de Deus? Terceira linha torta: erguer uma obra que glorificasse o próprio nome e não a Deus reflete o quanto aquelas pessoas estavam afastadas do Senhor.

O que você faria para consertar tudo isso de uma vez? Em sua soberania, onisciência e misericórdia, Deus usa estas linhas tortas, fruto da ambição e do medo dos seres humanos, para escrever o certo. E o certo de Deus, neste caso, tem os seus efeitos até hoje. Ao confundir as línguas, Deus provocou a dispersão das pessoas para colocar os pingos nos is: Ele é Deus; a Ele pertence a glória e sua vontade deve ser cumprida.

A partir de Babel, os grupos humanos – de acordo com as suas línguas – puseram-se, finalmente, a povoar a terra. Ao impedir que tivéssemos uma só língua, Deus nos afastou uns dos outros, mas nunca deixou de pensar na humanidade como um todo, tanto que, ao chamar Abrão, incluiu nas promessas feitas a ele estas palavras: “Em ti serão benditas todas as famílias da terra” (Gn 12.3). Para nos aproximar dele – e este é o lado abençoador de Babel – Deus nunca impediu que sua vontade e sua história sagrada fossem compartilhadas em toda e qualquer língua.

Em algumas crenças, os adeptos precisam aprender a língua da divindade para serem ouvidas; no Cristianismo, desde os tempos primordiais, é bem diferente: o Inventor das línguas deixa claríssimo seu desejo de ser conhecido entre os falantes de cada língua que Ele inventou.

Na volta do cativeiro babilônico, por exemplo, as gerações que lá nasceram perderam o hebraico – língua em que está registrado o Antigo Testamento – e assimilaram o aramaico. Mas isso não impediu que a Palavra de Deus chegasse aos seus ouvidos, pois, enquanto Esdras lia a Palavra de Deus em hebraico, os levitas “explicavam” ou “traduziam” (Ne 8.8) a mensagem ao povo em aramaico, a língua que eles podiam compreender. E o impacto da Palavra sobre aquele povo foi tão profundo que Esdras precisou acalmá-los, mostrando que o reencontro com Deus, em arrependimento e fé, é motivo de festa e não de pranto.

Temos em Esdras 8 uma pequena reversão de Babel, mas a maior de todas está registrada em Atos 2, momento em que, naquela primeira festa de Pentecostes após a ressurreição e a ascensão de Cristo, a mensagem proclamada pelos apóstolos foi ouvida, graças à ação de Deus Espírito Santo, pelas pessoas oriundas de muitos lugares, nas próprias línguas delas.

O fato de haver pessoas de muitas províncias e línguas já é uma prova de que Babel não impediu a disseminação da Palavra de Deus entre pessoas de muitas (mas ainda não todas!) as famílias da terra. O Pentecostes é prova cabal de que, para Deus, parece não haver linhas tão tortas sobre as quais Ele não possa escrever certo.

Para endireitar a nossa história, aliás, Deus se traduziu em Cristo Jesus, seu Filho unigênito, a Palavra humana que caminhou entre nós, sendo ele mesmo o caminho que leva ao Pai (Jo 14.6). Os ensinamentos e a obra de Cristo, registrados na Bíblia Sagrada, continuam a ecoar pela terra nas mais diversas línguas, sejam escritas ou não, inclusive nas línguas de sinais. Ao abrir a sua Bíblia e conseguir lê-la, agradeça a Deus por isso, pois Deus fala a sua língua. Ao abrir a sua Bíblia e conhecer, por meio dela, o quanto Deus o ama, lembre-se daquelas pessoas que ainda não têm a Palavra de Deus na língua delas e que ainda vivem em confusão e ignorância espiritual como nos dias de Babel. Considere abençoar “todas as famílias da terra” apoiando agências que, como a Sociedade Bíblica do Brasil (SBB), investem dons e talentos na tradução da Bíblia. Engaje-se nesta obra de reversão do Babel, em prol de um novo Pentecostes, para que, unidos em Cristo Jesus, sejamos todos, afinal, família de Deus (Jo 17.21-23).


Rev. Paulo Teixeira
Secretário de Tradução e Publicações da Sociedade Bíblica do Brasil

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One thought on “DEUS INVENTOU AS LÍNGUAS PARA APROXIMAR-NOS DELE

  • 9 de novembro, 2020 em 0:06
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    Vindo novamente para ver o conteúdo do blog, sempre
    encontro dicas maravilhosas aqui…muito bom!

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