JOÃO CALVINO: MARCAS QUE PERDURAM

A propósito do aniversário da morte do reformador de Genebra, no dia 27/5/1564, mais de 450 anos passados não têm sido suficientes para que a igreja deixasse de ter na memória os últimos momentos e a morte do reformador João Calvino. É o que temos na magnífica pintura histórica que retrata os anciãos genebrinos, consternados, despedindo-se daquele que, por 24 anos, havia sido seu dedicado pastor.

Um retrato fiel daquele que, em sua vida, soube ser servo dedicado do Senhor Jesus e testemunha do poder transformador do evangelho na vida das pessoas e de uma cidade que se tornou modelo no século XVI.

A vida de Calvino revela traços notáveis que merecem ser lembrados sem a pretensão de fugir ao reconhecimento de suas limitações pessoais. Dado fundamental em sua existência foi a disposição e paixão para atender a um chamado divino que, aos poucos, ele foi distinguindo e ao qual ele não quis se contrapor. Capacidade e talento pessoal evidentes nos primeiros anos de sua formação em Paris prenunciavam o caminho relativamente fácil para firmar uma carreira de pensador e escritor influente.

Segurança e firmeza que combinavam com uma personalidade determinada não impediram, todavia, que seus olhos se abrissem para perceber e interagir com a fermentação existente no campo das ideias religiosas e intelectuais contestadoras do establishment na capital francesa. Entre elas, a influência secreta de Martinho Lutero, que constava na lista dos subversivos da Escola Universitária da Sorbonne; ou Zwínglio, na Suíça, com a recuperação das Escrituras perdidas na Idade Média e agora recuperadas no púlpito de Zurique; ou do humanista Erasmo de Roterdã e seu chamado à liberdade; ou do velho professor Lefèbvre, expulso da Sorbonne com a tradução do Novo Testamento, que seria queimada.

Aos poucos, crescia um envolvimento discreto de contestação. Em Paris, Calvino encontrava-se com seu primo, Robert Olivétan, que, à luz de velas, se empenhava, dia e noite, na tradução da Bíblia para o francês e, entusiasmado, discutia as ideias do ex-frade agostiniano alemão. Eram vozes que, à maneira de alertas inflamados, lhe tomavam o coração e marcavam sua vida presente e futura. Vinte anos mais tarde, como professor das Escrituras e pastor reconhecido por sua obra na cidade de Genebra, em dedicatória aos “leitores piedosos e sinceros”, no seu Comentário ao Livro dos Salmos, Calvino extrapola a si mesmo para expor sentimentos. Diz: “Inicialmente, visto eu me achar tão obstinadamente devotado às superstições do papado, Deus, por um ato súbito de conversão, subjugou e trouxe minha mente a uma disposição suscetível… Fiquei totalmente aturdido…” (S. Paulo: Paracletos, 199, p. 38).

Outra evidência perceptível e acentuada na vida do reformador, com reflexos para o povo de Genebra, foi a preocupação em superar práticas de vida espiritual que se sujeitassem à tentação de acomodar a vida espiritual aos simples costumes e interesses imediatos das pessoas. Sentiu que seu chamado o convidava a uma devoção voltada para outra diretriz: o amor ao próximo expresso na preocupação com as necessidades das pessoas de seu tempo. Esta poderia ser também a vocação da cidade de Genebra.

Ações planejadas a partir do ensino de Jesus sobre o Reino de Deus teriam mais e mais espaço entre os seus ouvintes. E para tal proposta não devia haver constrangimentos. Imagine-se tratar sem reservas questões monetárias em uma cidade com vocação para a atuação comercial e bancária! O dinheiro, sim, o dinheiro e seu fascínio para as pessoas devem ser vistos como sinal da graça de Deus para o sustento de todos! O bom uso do dinheiro tem a ver com a soberania de Deus na vida do cristão assim como a derrubada dos arranjos e pretensões do deus Mamom! Um outro exemplo da atuação de Calvino entre os muitos que já conhecemos e sobre os quais temos ouvido pode ser lembrado em tempos difíceis de Covid-19.

Ante o número de marginalizados e imigrantes, teríamos condições de nos reunir para ajudá-los em suas necessidades? Ou na pressão para que os governantes desempenhem o papel para o qual Deus os convoca?
Aos poucos, os conterrâneos de Calvino, perseguidos na França por suas ideias pelo rei Francisco I, buscavam refúgio em Genebra. Os problemas de acomodação exigiam rápida solução, requeriam trabalho, empréstimos, etc. É quando, entre outras providências, Calvino resolve fortalecer e ampliar o papel dos diáconos na igreja a partir do ensino bíblico, como forma de piedade cristã. O Hospital Geral da cidade devia ser reaparelhado para atender aos necessitados em situação tão difícil. E assim se fez! E muito, muito mais!

Rev. Eduardo Galasso Faria
Professor da Faculdade de Teologia de São Paulo da IPIB (FATIPI)
Ministro Jubildo da IPIB

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