EDUCAÇÃO, EVANGELHO E CIDADANIA

O Brasil comemora neste mês 131 anos de República (15/11/1889), movimento político que determinou a transição do regime imperial para o republicano.  Fruto do resultado de um levante político-militar, destaca-se a figura do Marechal Deodoro da Fonseca como responsável pela efetiva proclamação e por ser o primeiro presidente da república brasileira em um governo provisório (1889-1891).

O Marechal Deodoro ganhou destaque e prestígio em virtude de sua liderança devido à vitória obtida na sangrenta Guerra do Paraguai (1864-1870). Mesmo tendo assumido o comando da nação, sempre teve posição contrária ao movimento republicano, afirmando que a monarquia, apesar de todos os seus problemas, continuava sendo o “único sustentáculo” do país e a república, sendo proclamada, constituiria uma “verdadeira desgraça”, por não estarem os brasileiros preparados para ela.

Cabe ressaltar que a crise do império se agravou diante de alguns fatores que pouco a pouco foram minando a autoridade e liderança do imperador:

  1. o descontentamento da Igreja Católica frente ao padroado exercido por D. Pedro II que interferia em demasia nas decisões eclesiásticas;
  2. o descontentamento dos oficiais de baixo escalão do Exército Brasileiro com a determinação do imperador que os impedia de manifestar publicamente nos periódicos suas críticas à monarquia;
  3. o descontentamento dos grandes proprietários, insatisfeitos com a decisão monárquica do fim da escravidão;
  4. a própria classe média urbana em ascensão que aspirava maior participação política e encontrava no sistema imperial um empecilho para alcançar maior liberdade econômica e de poder em suas decisões.

A república nasce pelas mãos dos militares que se veriam, a partir de então, como os defensores da Pátria. Foi proclamada por um monarquista, tendo o todo o apoio da maçonaria. Um novo regime se instalava, porém, os velhos hábitos e costumes, permaneciam.

Quanto à educação, a proclamação da república não ofereceu uma transformadora revolução nem criou um sistema de ensino modernizado que atendesse a toda a população. O que há de imediato é a abertura da política aos homens enriquecidos, principalmente pela agricultura.

A população das camadas sociais mais humildes observava atônita os dias posteriores ao golpe republicano. A república não favorecia em nada aos mais pobres, e também não contou com a participação desses na ação efetiva; pelo contrário, pois em virtude da abolição da escravatura, havia uma certa simpatia por parte da população mais humilde pelo regime imperial.

Os anos de 1889 a 1930 (“república velha” ou “república dos coronéis”) são marcados pelas primeiras tentativas de se pensar um novo modelo de educação, na perspectiva de se popularizar a escola, confrontando o modelo vigente. Essas transformações tiveram ecos na educação, e uma nova proposta do ensino como direito público começou a ser desenhado.

Porém, para compreendermos os fatores cruciais que determinaram a caminhada pedagógica brasileira, tanto no campo político quanto no religioso, necessitamos um olhar clínico para as nossas próprias origens religiosas, marcadas pelas missões católicas nos séculos anteriores.

É necessário destacar que a educação religiosa católica plantou suas raízes em solo brasileiro, quando do descobrimento da nossa pátria, com a chegada das primeiras missões da Companhia de Jesus ou Jesuítas, que aportaram aqui em 1549. Baseados nos princípios da união Igreja/Estado, a senha para adquirir um pedaço de terra estava na exigência de ser católico.

Usavam o método tradicional de educação marcado por um ensino verbalizado, retórico, livresco, memorístico e repetitivo, que estimulava a competição através de prêmios e castigos. Todo o trabalho era dedicado à formação das elites coloniais e a disciplina era um dos pontos altos do processo pedagógico.

A educação religiosa dos grupos protestantes no Brasil somente chegou e permaneceu depois de 400 anos, já no final do século XIX, exatamente em pleno movimento de mudança do regime político.

Quando aqui chegaram, os protestantes defrontaram-se com as posteriores mudanças políticas e sociais que começaram a se instalar no país, bem como com os modelos de educação (não apenas jesuítica), implantados ao longo dos séculos.

O protestantismo introduzido no Brasil desenvolveu sua tese pedagógica baseando-se em duas grandes colunas: na chamada educação secular e na educação religiosa cristã. Por um lado, temos a organização e o desenvolvimento das escolas nas diversas regiões do país, apresentando uma proposta concorrente à católica; por outro, o trabalho missionário evangelístico, tendo como objetivo pedagógico a salvação de almas.

Neste período, todo o processo de ensino adotado foi fundamentado através de uma temática anticatólica, altamente apologética. Do indivíduo, ao ser educado nos princípios protestantes, era exigida uma postura contra o catolicismo, ou seja, ser protestante era ser anticatólico; agindo assim, estaria demonstrando “total” firmeza em sua fé.

Cabe lembrar que o movimento pedagógico do protestantismo brasileiro adquiriu uma indiferença em relação aos problemas sociais. Sua característica esteve, por longo tempo, voltada mais a uma aparência de seita, longe das necessidades básicas da sociedade, estimulando seus membros a viverem acima e à margem do mundo.

Todos esses aspectos são fortalecidos devido à visão ingênua do mundo, baseada em uma leitura literal e fundamentalista do texto bíblico, totalmente despreocupada de uma cuidadosa interpretação exegética e hermenêutica, acentuando com isso um discurso moralista.

Analisando, mesmo que resumidamente, tão importantes informações fornecidas pela história, sinalizamos para a nossa reflexão algumas considerações importantes no que se refere aos movimentos relacionais que envolvem a Igreja, a República e a Educação.

Em primeiro lugar, cabe destacar que o movimento republicano surge em um momento de descontentamentos gerais que envolviam o império, classes sociais e políticas, como também a própria igreja. Havia interesses generalizados, porém, não uma preocupação coletiva que estendesse suas mãos às necessidades dos menos favorecidos.

Em segundo lugar, especificamente em relação à educação, não havia um planejamento integral ou holístico, que atingisse a população como um todo; pelo contrário, havia interesse em que somente o mínimo fosse ensinado, para que os interesses econômicos fossem alcançados, mesmo que, para isso, contasse com o álibi religioso.

Em um terceiro aspecto, notamos que o movimento missionário, independentemente dos métodos utilizados, contribuiu efetivamente para o progresso da educação brasileira, através do surgimento de escolas e, posteriormente, universidades que se espalharam pelo país, através das mais diversas denominações evangélicas.

Finalmente, necessitamos reconhecer que grandes avanços foram conquistados ao longo dos anos. Contudo, exatamente aí, surgem questionamentos que ainda estão sem as devidas respostas.

Em pleno terceiro milênio, qual o tamanho da participação da igreja na elaboração de projetos de ensino que atendam as necessidades de nossa nação republicana? Será que, infelizmente, em certos momentos não abraçamos certos movimentos ou teses que destoam da pedagogia de Jesus e do seu caminhar ao lado dos marginalizados, optando por uma educação elitizada e classista? Será que, em certos momentos, não estamos baseados em currículos que tão somente teimam em combater o “inimigo” em detrimento do atendimento das necessidades humanas? 

Na proposta do Mestre, encontramos imensas ofertas de um conteúdo de ensino que promove a libertação da consciência e da linguagem, além da democratização dos saberes, onde todos têm acesso à educação.

Uma igreja que cumpre a ordem de Jesus em seu “ide e ensinai” participa ativamente da restauração da dignidade humana, demonstrando total compreensão do real significado da palavra república que, ao estudar sobre as coisas públicas, é desafiada a colocar o ser humano no primeiro lugar das suas preocupações.

O movimento protestante de tradição reformada traz em seu currículo a preocupação constante com a qualidade de ensino que ofereça a todas as faixas etárias uma educação libertadora dos domínios e interesses políticos partidários, tão condenados pelo Mestre Jesus. Seus ensinos confrontavam os métodos do seu tempo, determinando como conteúdo os princípios e os valores inegociáveis do Reino de Deus.

Rev. Silas de Oliveira
Pastor da IPI de Vila Sabrina, em São Paulo, SP
Ministro da Educação da IPIB

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