NO APAGAR DA VELA

A expressão tem me feito pensar em escrever sobre o momento do luto. Aquele momento em que fazermos a ruptura com aquela pessoa com quem tivemos um laço de vida.

Acreditando ser ela uma pessoa amada, querida, ou não, de certa forma este ato se torna necessário, pois aquela pessoa é parte de nós e nós no tornamos parte dela. 

Este momento é algo único e de extrema importância. O tempo se torna algo desnecessário. O sentimento de perda e dor são inquestionáveis.

Nesse instante em que, involuntariamente, fazemos a nossa releitura da história de vida, mas não como película que tem início, meio e fim, mas imagens em preto e branco, desconexas, sem som e fragmentadas. 

O sentimento de solidão e abandono, raiva, indignação e remorso muitas vezes nos dominam. Afinal, temos uma constante luta com a morte. Ela parece ser nossa inimiga, injusta, cruel, perversa e satânica.

Mas será que, realmente, a morte é nossa inimiga?

A morte sempre esteve presente entre nós. Passamos por três estágios da morte durante a nossa vida terrena.

O primeiro estágio, em nosso nascimento, quando rompemos com nossa simbiose uterina em que nosso mundo é cercado por líquido amniótico, no somos ligados por um cordão umbilical pelo qual recebemos nossos nutrientes.

Essa vida tem o seu tempo assim que somos expelidos e expulsos. Morremos para a vida uterina. Morremos para um mundo sob medida.

Nascemos para mundo no qual precisamos lutar para sobreviver, berrar e chorar porque passamos a sentir dor, fome, medo e solidão. 

A segunda morte não é muito diferente da primeira e também impiedosa. Começa quando passamos pelo nosso processo de crescimento. Descobrimos os sons, as imagens e os sabores. Descobrimos que não estamos sós e existe a concorrência. Esse processo de aprendizagem vai nos perseguir pela vida toda, mas, ainda assim, podemos contar com o cuidado de nossos pais, família e cuidadores. Isso se dá durante a infância, a adolescência e a juventude.

Mas também essa vida também tem seus dias contados. Somos nós que queremos a morte dessa vida. Queremos nos libertar, sermos independentes e, aí, desejamos a morte para promover nossa alforria. Buscamos a independência dos pais, da família e dos cuidadores.

Então, morremos para renascer como seres livres, para assumirmos nossos riscos, para viver, sonhar, construir e amar. 

Mas o nosso corpo tem seu prazo de validade e nós percebemos que a vida é como o ciclo das estações e que, ao final, renascemos, a cada primavera, mais experientes, percebendo que deixamos aqui nossas marcas e fragmentos de nossa história.

Logo chega o terceiro estágio. A morte chega lenta companheira, amiga e conselheira. Deixamos de lado a materialidade. Olhamos com certa liberdade para a vida. Fazemos um balanço da nossa existência e preparamos as novas gerações para viverem com nossa ausência.

Então, você diz: “Sou um sobrevivente. Soube enfrentar a vida andando com a morte. Nas dificuldades, encontrei a solução, o perdão, o amor. Na família deixei minhas marcas. Agora não sou movido por paixões, raiva, tristeza, medo ou dor. Sinto que estou pronto para libertar minha alma, o sopro da vida dado pelo Criador. Agora, as amarras foram cortadas por completo”.

Por isso a morte não pode ser algo que devamos odiar, mas algo com que temos de conviver em nossa existência, pois, por ela, podemos perceber que a vida deve ser sempre bem vivida.

Nos minutos em que a vela está acesa e lentamente o pavio consome a parafina, a vida passa ao final. No apagar da vela, resta apenas o fio da fumaça que diz que ali houve, em um dado momento, brilho e luz!

Rev. Edilson Oliveira Rodrigues
Pastor da IPI do Brasil
Capelão da Associação dos Cemitérios Protestantes de São Paulo, SP

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