DESPERTAMENTO DA IGREJA EM FAVOR DOS REFUGIADOS

Nos últimos anos, o Brasil tem sido o destino para milhares de migrantes internacionais vindos de diversos países, principalmente, do hemisfério sul, num fenômeno denominado como “Migração Sul-Sul”.

O mundo nunca teve tantas pessoas sendo forçadas a abandonar seu país de origem. A ONU (Organização das Nações Unidas) avalia, em seu relatório geral Tendências Globais, que 79,5 milhões pessoas estavam deslocadas até o final do ano 2019, por guerras, conflitos e perseguições.

Essa situação levanta debates acadêmicos, sociais, políticos e, inclusive, teológicos, sobre qual deveria ser a abordagem e o papel das instituições brasileiras em relação aos novos migrantes em temas como: acolhimento, integração, defesa dos direitos dos migrantes e, no caso das igrejas, sua inclusão efetiva na vida das comunidades cristãs. Vale lembrar que tais temas também foram pauta do reformador João Calvino, há séculos, na cidade de Genebra.

Calvino sempre esteve próximo das situações enfrentadas pelos refugiados e migrantes. Por um lado, ele mesmo foi um refugiado; por outro, estabeleceu uma práxis diaconal e pastoral em favor dos refugiados.

Em Edimburgo, providenciou a tradução de hinos e cânticos para o francês que seriam usados nos cultos dos refugiados franceses. Em Genebra, acolheu e atendeu os refugiados franceses e ingleses por meio da ação diaconal e pastoral. Chegou, inclusive, a atender os refugiados ingleses em Genebra, que lhe pediram para providenciar um espaço no qual cultuassem na sua língua e também uma pessoa que os pastoreasse. Calvino delegou esta tarefa para o escocês John Knox, que também se encontrava refugiado em Genebra, após sofrer perseguição religiosa na Escócia

Na Bíblia, os vestígios das migrações se encontram presentes de forma muito clara. No Antigo Testamento, desde Abraão, o povo se encontra em movimento, e este mesmo movimento migratório influenciou de forma significativa a vida e a cultura do povo de Deus. A história de Abraão na Bíblia se inicia com um chamado de Deus para “sair” da terra onde se encontrava e viajar para outra região (Gn 12.1). Quando observamos esse fato bíblico devemos refletir em dois aspectos:

1) Deus chama Abraão para ir para outra terra onde ele  abençoaria os outros e seria abençoado;

2) Abraão e sua família já eram migrantes na terra onde se encontravam (Gn 11.31-32) o que reflete de forma direta nas complexidades da migração para a vida das pessoas.

No livro de Atos 18, encontramos novamente a cultura migratória dos primeiros cristãos que, em alguns momentos, se tornaram migrantes de forma voluntária devido à sua vocação missionária, como no caso de Paulo.

Em outras vezes, no entanto, os cristãos tornaram-se refugiados por causa da perseguição religiosa ou política que sofreram. Tal é o caso do casal Áquila e Priscila (At 18), que se encontrou com Paulo na cidade de Corinto.

Essa parceria tornou-se fundamental para a edificação da igreja daquela cidade, pois, como comenta o teólogo peruano Samuel Escobar, “este casal não deixou Roma por sua própria vontade, mas como parte de um exílio forçado determinado pela política imperial da época. Em meio ao exílio, eles fizeram de seu lar uma base de trabalho missionário para a tarefa de Paulo”

Em 2016, iniciou-se aquilo que, de forma pessoal, foi um despertar da Igreja Presbiteriana Independente em favor da edificação do reino de Deus entre refugiados e migrantes internacionais, após uma consulta missionária organizada pela 2ª IPI de Maringá e a UniCesumar, na qual foram abordados temas como Legislação, Estresse do Migrante, Teologia e Migração, entre outros.

Hoje, encontramos movimentos em favor dos refugiados, inspirados na teologia bíblica, na teologia reformada e na práxis diaconal de Genebra nos tempos de Calvino dentro de nossa denominação

A 2ª IPI de Maringá, com duas congregações de haitianos e uma de venezuelanos, além de apoiar o trabalho social desenvolvido por meio do Instituto Sendas.

Ressalto também os imensos esforços missionários e de ação social da 1ª IPI de Goioerê, da 1ª IPI de Londrina e da 1ª IPI de São José do Rio Preto. Essas e outras igrejas nos inspiram e motivam a trabalhar para construir a primeira rede de igrejas de ação social e diaconia em favor dos refugiados e, quem sabe, uma secretaria para refugiados. Vamos juntos! Há muito ainda a ser feito, mas podemos partir da nossa rica Tradição Reformada.

Erick Alexander Pérez Ortuño
Seminarista e missionário da 2ª IPI de Maringá, PR

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