A IGREJA QUE VEMOS E A IGREJA QUE NÃO VEMOS

A importância da história

De uma forma geral, existe um grande desconhecimento dos acontecimentos da história da igreja em nosso meio.

É curioso observar o interesse pelo futuro que existe entre as pessoas de nossas igrejas. Basta aparecer alguém que se diga entendido em escatologia para que, imediatamente, inúmeras pessoas queiram ouvi-lo. Quando se anuncia uma série de estudos sobre o final dos tempos, um grande número de crentes se esforça em comparecer.

No entanto, ocorre exatamente o oposto quando o assunto é a história.

É muito estranho isso! Muito estranho porque nós cremos em um Deus que atua na história!

Ao estudarmos a história, descobrimos o que foi que Deus fez e o que Deus está fazendo.

Portanto, o nosso amor a Deus deveria se manifestar no interesse pelo estudo da história.

Era isso o que acontecia com o povo de Israel nos tempos do Antigo Testamento. Continuamente, aquele povo recordava o passado em que Deus tinha atuado: a libertação da escravidão no Egito, a peregrinação pelo deserto, a conquista da terra prometida, etc.

No Novo Testamento, aconteceu a mesma coisa. O próprio Senhor Jesus nos ensinou a valorizar o passado, quando estabeleceu a celebração da Santa Ceia. Ele recomendou: “Fazei isto em memória de mim”.

Aqui trataremos da igreja invisível. Esse assunto só pode ser bem entendido no contexto da Reforma Protestante do Século XVI.

É impossível entender bem o que a Confissão de Fé de Westminster (CFW) diz sobre a igreja se ignorarmos o seu contexto histórico.

Por isso, começamos destacando a importância da história. Precisamos conhecer a história da Reforma do Século XVI para compreender a CFW.

Um problema que os reformadores enfrentaram

No século XVI, tivemos grandes reformadores:  Martinho Lutero, João Calvino, João Knox, etc. Eles atuaram promovendo a reforma na igreja a partir dos ensinos bíblicos.

Essa tarefa foi gigantesca. A igreja daquela época estava solidamente organizada e possuía muito poder. Foi por isso que os reformadores enfrentaram grandes problemas.

Que problemas foram esses? Qual foi o seu conteúdo?

Durante muitos séculos, a Europa conhecera somente a igreja que estava organizada como Igreja Católica Apostólica Romana.

Esta era o que se entendia como a igreja cristã, com seus bispos, cujo cabeça era o bispo de Roma ou papa.

A Igreja Católica Romana tinha vários argumentos para defender a ideia de que ela era a autêntica Igreja de Cristo.

Apontava para o fato de que tinha sido fundada por Jesus.

Dizia que, desde a sua origem, sem qualquer interrupção, tinha permanecido atuando como igreja cristã. Proclamava que o Espírito Santo a tinha protegido o tempo todo para que não perdesse a sua identidade e caísse no erro.

Esses argumentos eram difíceis de ser rebatidos pelos reformadores. Muitas vezes, os reformadores eram acusados de estarem somente dividindo a Igreja de Jesus Cristo.

Muitas pessoas afirmavam que as igrejas protestantes e reformadas estavam sendo fundadas pelos reformadores, não tendo, portanto, origem em Jesus Cristo.

Toda essa discussão era de vital importância. Estava em jogo todo o trabalho dos reformadores. Estava em questão a validade ou não de se reformar a igreja. O problema levantado dizia respeito à autenticidade das igrejas protestantes e reformadas.

A resposta dos reformadores

Foi exatamente por causa dessa discussão que surgiu a distinção entre a igreja que vemos e a igreja que não vemos.

Ou, para usar a linguagem da nossa Confissão, a igreja visível e a igreja invisível.

Que igrejas são essas?

Para responder, vejamos o próprio texto da CFW.

No seu capítulo 25, parágrafo 1, ela fornece a seguinte explicação sobre a igreja invisível: “A igreja católica ou universal, que é invisível, consta do número total dos eleitos que já foram, dos que agora são e dos que ainda serão reunidos em um só corpo sob Cristo, seu cabeça; ela é a esposa, o corpo, a plenitude daquele que cumpre tudo em todas as coisas” (Ef 1.10, 22, 23).

Sobre a igreja visível, a CFW diz o seguinte, no capítulo 25, parágrafo 2: “A igreja visível consta de todos aqueles que pelo mundo inteiro professam a verdadeira religião, juntamente com seus filhos; é o Reino do Senhor Jesus, a casa e família de Deus, fora da qual não há possibilidade ordinária de salvação (1Co 1.2 e 12.12-13; Gn 17.7; Rm 9.16; Mt 13.3l; Cl 1.13; Fp 1.19 e 3.15; Mt 10.32-33; At 2.47)”.

Nessas duas definições, destacamos os seguintes pontos:

  • 1) A igreja visível é formada pelos cristãos que estão vivos conosco; a igreja invisível é formada pelos cristãos de todos os tempos;
  • 2) Não existem de fato duas igrejas: não se pode dizer que uma igreja se opõe à outra ou que uma igreja é falsa e outra igreja é verdadeira; na realidade, a igreja visível integra a igreja invisível;
  • 3) A igreja visível não se identifica com uma instituição como, por exemplo, a Igreja Católica Apostólica Romana; ao contrário, ela subsiste em todas as denominações em que a “verdadeira religião” é professada.

Dessa maneira, os reformadores justificaram o aparecimento de várias Igrejas cristãs. Elas não são, na verdade, igrejas diferentes, mas partes diferentes da mesma igreja, a igreja invisível, integrada por todos os cristãos.

A igreja precisa de reformas

Depois de fazer essa distinção entre igreja visível e igreja invisível, a CFW acrescenta o seguinte no capítulo 25, parágrafos 4 e 5: “As igrejas particulares, que são membros da igreja visível, são mais ou menos puras conforme nelas é, com mais ou menos pureza, ensinado e abraçado o evangelho, administradas as ordenanças e celebrado o culto público (Rm 11.2-4; At 2.41-42; 1Co 5.6-7)”.

“As igrejas mais puras debaixo do céu estão sujeitas à mistura e ao erro; algumas têm degenerado ao ponto de não serem mais igrejas de Cristo, mas sinagogas de Satanás. Não obstante, haverá sempre sobre a terra uma igreja para adorar a Deus segundo a vontade dele mesmo (1Co 1.2 e 13.12; Mt 13.24-30; Rm 11.20-22; Ap 2.9; Mt 16.18)”. Esses dois parágrafos são muito importantes e atuais. Neles fica bem claro que as igrejas que temos são sempre imperfeitas e sempre sujeitas ao erro.

É exatamente por causa disso que precisam sempre de reformas e correções, segundo a Palavra de Deus.

Foi isso que os reformadores fizeram. A partir da Bíblia, eles promoveram uma reforma da igreja no tempo em que viveram. Sua intenção era fazer com que a igreja voltasse à sua fidelidade a Deus.

É isso também que precisamos fazer continuamente. Não podemos nos limitar a conservar a igreja como ela é ou como se apresenta. A igreja sempre tem falhas a serem corrigidas segundo o ensino das Escrituras Sagradas.

É por isso que o lema da Reforma Protestante do Século XVI foi: “Igreja Reformada e Sempre se Reformando”.

Portanto, temos de prosseguir reformando a igreja, corrigindo seus desvios e erros, sob a orientação da Bíblia, procurando sempre ser mais fiéis a Deus.

Conclusão

Não foi fácil fazer a Reforma do Século XVI.

Todavia, com a graça de Deus, os reformadores tiveram a coragem de realizá-la. Foi um processo lento e doloroso. Foi um movimento de exigiu muita consagração e sacrifícios. No entanto, nem sempre nós aprendemos as lições da história na qual Deus está atuando. Muitas vezes, caímos no erro que os reformadores combateram. Colocamo-nos contra as reformas. Até em nome da fidelidade a Deus, insistimos em conservar as coisas exatamente como estão.

Por isso, a distinção da CFW continua a ser útil para nós. Nós somos a igreja visível. Estamos sempre sujeitos aos erros. Precisamos, pois, ficar promovendo reformas contínuas na igreja, sob a inspiração do ensino das Escrituras.

Rev. Gerson Correia de Lacerda
Secretário Geral da IPI do Brasil
Pastor-auxiliar da 1ª IPI de Osasco
Editor de O Estandarte

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