500 ANOS DA DIETA DE WORMS

Após o monge agostiniano Martinho Lutero ter fixado suas 95 teses na Catedral de Wittemberg em 1517, e com o crescimento das polêmicas instauradas acerca do papado, irrompeu, em 1519, uma disputa em Leipzig, cujo resultado foi a excomunhão do monge, em 1520, a qual impunha a Lutero reconsiderar suas proposições em um prazo de 60 dias. Na hipótese de incumprimento desta determinação, Lutero seria sumariamente excomungado e deveria ser encaminhado para Roma.

Com a incumbência de divulgar o ocorrido, dois dos oponentes de Lutero fizeram com que obras de Lutero fossem queimadas por boa parte do território alemão.

Em resposta, Lutero queimou publicamente livros de Direito Canônico e, também, a citada bula que ameaçava sua excomunhão.

A polêmica ação de Lutero gerou repercussões em toda a Alemanha, notadamente pelo fato de que os príncipes e bispos estavam claudicantes, e boa parte do povo simpatizava com as ideias do monge, o que poderia facilmente desaguar em uma insurreição popular.

Os efeitos da polêmica ação de Lutero chegaram a Roma. Como consequência, as autoridades deveriam fazer com que fosse cumprida a sentença de excomunhão, ultimando que o polêmico monge fosse entregue a um carrasco.

É nesse contexto que, logo após sua eleição, o Imperador Carlos V convocou uma assembleia com os representantes da nobreza e do clero alemães, a fim de tratar de importantes assuntos referentes ao reino, esta que ficou conhecida como Dieta de Worms, com início em 27/1/1521.

Entre as matérias que deveriam ser tratadas naquela reunião, estava o caso de Martinho Lutero. Era preciso colocar um fim naquela celeuma.

Um dado interessante é que Frederico, príncipe eleitor da Saxônia e conhecido protetor de Lutero, enviou uma carta a Carlos V em novembro de 1520, intercedendo para que o imperador não tomasse qualquer providência contra Lutero enquanto este não tivesse a oportunidade de se defender pessoal e publicamente, o que caberia ser feito na assembleia de Worms.

O imperador concordou com Frederico, conquanto Lutero não escrevesse mais nada contra o papa. No entanto, nesse lapso temporal, o monge agostiniano promoveu a citada queima pública dos Direitos Canônicos e da bula que decretava sua excomunhão, o que fez com que o imperador mudasse de ideia quanto a receber Lutero para expor sua defesa.

Seus acusadores insistiam que Martinho Lutero deveria se retratar e renunciar aos seus escritos. Do contrário, não caberia ouvi-lo novamente. Sua sentença já era certa.

Diante do recuo do imperador e de sua nova determinação, Frederico se dirigiu até Worms, ratificando sua solicitação inicial e reivindicando o direito de Lutero se pronunciar na assembleia, o que custosamente lhe foi concedido apenas em 15/3/1521, quando Carlos V firmou os documentos que possibilitariam o deslocamento seguro de Lutero para ser ouvido perante a assembleia de Worms.

A viagem se iniciou em 2/4/1521, tendo Lutero chegado a Worms em 16/4/1521. No dia seguinte, Lutero foi levado perante a assembleia, quando esperavam que ele rejeitasse o que tinha escrito contra o papa e contra a Igreja Católica, especialmente em virtude de sua polêmica obra “Do Cativeiro Babilônico da Igreja”.

Todavia, o referido não ocorreu. De forma sintética, ao ser questionado a respeito da autoria da citada obra e de outros dos seus livros, bem como se o mesmo revogaria algo dos seus conteúdos, Lutero propôs uma reavaliação dos seus escritos caso houvesse nos mesmos, ante a sua humanidade e propensão a errar, qualquer coisa que pudesse contrariar a Palavra de Deus.

O posicionamento de Lutero, entretanto, não foi muito bem recebido pelos seus partidários, que não esperavam que o monge abandonasse seus postulados.

Vale destacar que ele não renunciou àquilo que escreveu e que vinha ensinando, mas apenas solicitou uma oportunidade para revisar o que produziu e cotejar com a Palavra de Deus, avaliando possíveis distanciamentos desta última.

Lutero, no entanto, estava convicto de que não alteraria nem ao menos uma letra de seus escritos.

No dia 18/4/1521, Lutero foi levado ao palácio episcopal para novamente ser ouvido pela assembleia.

Ao ser novamente questionado acerca da revogação do conteúdo de seus escritos, Lutero passou a fundamentar que estes se dividiam em três partes:

  • 1) Temas de fé e costumes, os quais não comportavam qualquer impugnação e, portanto, não poderiam ser revogados;
  • 2) Textos que contrariavam a tirania papal, que representava, entre outras coisas, espoliação e opressão do povo, o que igualmente não poderia ser revogado;
  • 3) Textos por meio dos quais ele confrontava aqueles que apoiavam a tirania papal, os quais, mesmo reconhecendo sua evidente agressividade, também não poderiam ser revogados.

Ocorre que as falas de Lutero não foram bem compreendidas pelos presentes, de modo que a seção foi interrompida para deliberações.

Todavia, os príncipes não puderam concluir se Lutero tinha ou não revogado seus escritos.

Quando a seção foi reaberta, Lutero foi questionado de forma simples e direta pelo oficial do arcebispo de Tréveres: “Revoga ou não os livros e seus erros?”.

O monge então disse expressamente:

“Como Vossa Majestade e Vossas Altezas exigem de mim uma resposta simples, quero dar uma tal sem chifres e dentes. A não ser que eu esteja convencido pelo testemunho das Escrituras ou pela razão clara (pois não confio nem no papa ou em concílios por si sós, pois é bem sabido que eles frequentemente erraram e se contradisseram) sou obrigado pelas Escrituras que cite e minha consciência é prisioneira da palavra de Deus. Não posso e não irei renegar nada, pois não é nem seguro e nem correto agir contra a consciência. Que Deus me ajude. Amém.”

Assim terminou o discurso proferido por Martinho Lutero perante o imperador Carlos V, há pouco mais de 500 anos, em 18/4/1521.

No dia seguinte, o imperador apresentou um documento de próprio punho no qual se evidencia o comprometimento em manter as tradições do papado e da Igreja Católica, e no qual também são rechaçados todos os argumentos de Lutero, sendo ele considerado como herege.

Lutero inicia sua viagem de volta para Wittemberg em 26/4/1521, mas é detido no caminho por uma falsa emboscada tramada por amigos, quando é levado para Wartburgo para ser mantido em segurança.

Após aprovação, a versão alemã do Edito de Worms é assinada por Carlos V, em 26/5/1521, sendo publicada por todo o império. A versão latina foi enviada para Roma.

O documento assevera que Lutero e seus adeptos devem ser presos, já que seus postulados contrariam a doutrina dos sacramentos e do servo arbítrio, além de evidenciarem a rebelião contra a autoridade do Estado e da Igreja, e contra seus concílios.

Lutero se furtou de cumprir a pena determinada pelo Edito de Worms, conseguindo, pela graça de Deus, e por meio de seus amigos, especialmente na pessoa de Frederico, o príncipe-eleitor, ultimar sua missão iniciada antes da afixação das suas teses na Catedral de Wittemberg.

Não podemos nos esquecer que os envolvidos nesse importante capítulo histórico, muito além das questões de fé, doutrinárias e/ou de piedade, lastreavam-se nas balizas políticas, quer seja pela parte de Lutero e seus adeptos, quer seja pela parte do imperador, do papado e da Igreja Católica.

Após 500 anos, vemos alguma semelhança ao olhar para o horizonte?

Rev. Alan Daniel Litwin
Pastor do Presbitério do Ipiranga da IPIB, atualmente fazendo curso de doutorado em Portugal

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