RICHARD SHAULL, CULTURA E TEOLOGIA DE ENFRENTAMENTO

Houve um movimento teológico na América Latina, nos anos cinquenta, que pode ser denominado como cultural e com discurso plural, ou seja, possuía ideias bastante novas. O início deste movimento tinha propostas divulgadas na revista Igreja e Sociedade na América Latina e, nesta época, aporta na cidade de São Paulo como um movimento teológico.

Entre os muitos estudiosos e teólogos que formataram o movimento, destaca-se M. Richard Shaull, nascido em 1919 e falecido em 2002.

Em 1966, Shaull, partindo da observação do mundo, entendeu que o contexto era propício para a teologia do enfrentamento. Ele percebeu que os principais movimentos políticos não ofereciam bases para a esperança.

Então, postulou uma perspectiva teológica sobre o enfrentamento. Deus é criador e soberano. Por isso, todas as coisas em sua pluralidade, a sociedade e suas culturas estão sob o seu controle.

Assim, o evangelho apresenta a ação de Deus no dinamismo da história e, com isso, o enfrentamento se relaciona com a ação de Deus na história, com um povo (Israel, no Antigo Testamento, e a igreja, no Novo Testamento) que conhece a Deus em meio à sua história e se desenvolve em meio a crises políticas e problemas sociais e culturais.

A encarnação de Jesus, longe de deixar de lado essa ação, a aprofunda mais ainda. Enfrentamento é enxergar a ação de Deus nas pluralidades humanas. Na sua reflexão, está, também, a responsabilidade cristã como mudança radical e a missão da igreja como desafio do enfrentamento.

Segundo ele, há cinco movimentos que a igreja deveria protagonizar, a saber:

  • 1) O cristianismo institucional terá sérios impedimentos para sobreviver;
  • 2) As igrejas não poderão depender de fundos estrangeiros;
  • 3) Só poderão permanecer firmes os cristãos que tenham uma clara compreensão de sua fé e uma definida orientação teológica;
  • 4) Necessitar-se-á de uma igreja que gire em torno de pessoas laicas e não dos pastores;
  • 5) A comunidade dos adoradores de cristãos será a única que poderá sobreviver em algumas partes do mundo.

Sua ideia central é a colocação da responsabilidade política do cristão, que deveria ter um alcance plural e cultural.

Daí destaca a doutrina positiva do Novo Testamento sobre o Estado ao citar Romanos 13 e Apocalipse 13, sugerindo que existe uma luta constante e valorosa contra as forças reacionárias

Propõe, então, um princípio teológico de enfrentamento plural e cultural chave: “O reino de Deus transcende todos os partidos políticos e os julga a todos; a igreja visível não pode identificar-se com nenhum partido, sem anular grande parte de seu testemunho”.

Para Shaull, dessa declaração se irradiam quatro aspectos relevantes que enfrentam a proposta colocada: Deus entrou na história em Jesus Cristo e estabeleceu seu reino entre todos, isto é, sua realeza é para todos.

Assim, Deus está ativo no mundo todo, na pluralidade de povos, tribos e nações.

Para os olhos da fidelidade, certos momentos na história e na cultura são manifestações de pluralidade do juízo e da misericórdia de Deus.

Deus opera no mundo cultural e plural através da igreja. Essa é a comunidade de diálogo na pluralidade que Ele estabeleceu para servi-lo dentro da história multicultural. Com isso, a missão da igreja tem como desafio o enfrentamento.A missão da igreja é consistente e concreta no enfrentamento.

Ele expõe que as igrejas dos Estados Unidos tiveram um papel profético. Sustenta, fundamentalmente, que foi a ação profética da igreja e o soberano governo de Deus os fatores controladores na história.

Na história do protestantismo, ele ancora um exemplo concreto da participação dos cristãos nos processos de enfrentamento. Ele cita os calvinistas ingleses e sua participação na Revolução de 1648.

Não há dúvida que, a princípio, é difícil harmonizar as duas ideias: um Deus soberano e, ao mesmo tempo, a responsabilidade humana para movimentar uma situação estabelecida.

Os calvinistas percebiam um Deus que realizava grandes obras no mundo todo; convocava todas as pessoas a participar nesta transformação do mundo.

O calvinismo tendia a destruir a noção totalizante da realidade cósmica e social concebida na época medieval, na qual o cosmos era interpretado como parte integrante do Ser e que atribuía certa inevitabilidade da situação estabelecida à realidade fundamental e era a ação dinâmica de um Deus que refazia um mundo novo.

Então, Shaull, enfaticamente, interpreta a noção calvinista da igreja no sentido de que, como corpo de Cristo, era também político, apesar de que os próprios puritanos não usassem essa ideia, senão privilegiaram a metáfora da barca do Estado, devido a sua vocação marítima, dirigida pelas metas fixadas por Deus.

A teologia e o desafio do enfrentamento

Aqui temos conceitos, pensamentos e imagens que vinculam, inventivamente, as ideias de prática,saída, cativeiro e libertação.

Shaull critica a tendência do mundo do saber de separar teoria e prática, que se torna desastrosa na hora de intentar abordar a questão do enfrentamento.

Essa disfunção, ele a atribui à forte influência dos sistemas conservadores da teologia e da filosofia ocidental.

Nesses conceitos expostos, ele se antecipa aos entes temáticos que estruturariam, posteriormente, a chamada teologia da libertação com suas ênfases na prática, saída, cativeiro e libertação.

Para ele, a teologia da mudança radical implica uma série de movimentos profundos da parte dos teólogos para repensar a teologia neste novo contexto. Critica, uma vez mais, os velhos sistemas, sustentando que é necessário reconhecer os vestígios de uma ressurreição teológica, que implica em novas palavras e novos símbolos para descrever a situação atual (importantes ainda hoje).

Conclusões

A teologia de Richard Shaull é uma chamada a levar a sério o postulado teológico de que Deus é no humano, e está ativo no mundo todo, em todas as culturas, em todas as pessoas, isto é, Deus se relaciona na pluralidade que Ele mesmo criou.

Trata-se de nomear as coisas, com o risco de equívocos, a movimentos no mundo que não são produtos de causa e efeito ou de casualidade e necessidade ou do movimento próprio da história e cultura, senão da ação de Deus através de agentes históricos.

Trata-se de superar a imagem deísta de Deus, segundo a qual Deus é criador, mas desinteressou-se do mundo, deixando-o como uma maquinaria que atua na forma de um relógio universal.

A teologia da mudança radical colocada por ele é um convite a discernir os sinais dos tempos.

Apaixonado por ver as ações de Deus na história cultural do mundo, ele nos convida a prestar atenção aos sinais dos tempos nos quais Deus atua na realidade para cumprir seus propósitos na igreja e com o mundo todo.

Dentre outras coisas, ele vincula, criativamente, as ideias de prática, saída, cativeiro e libertação. A teologia da mudança radical parece, à luz da história posterior do mundo, demasiado otimista.

Em síntese, Deus não cessa sua criação e criatividade.

Precisamos ampliar nossas perspectivas e vê-lo em missão no mandato cultural, social e espiritual. Necessitamos encontrar uma teologia contextual, cultural e plural, ou seja, uma teologia que leve a sério a humanidade de Jesus de Nazaré, através de paradigmas que respondam a situação e é, decididamente, inter e transdisciplinar.

Rev. Marcos Camilo
Pastor titular da 1ª IPI de Carapicuíba, SP

One thought on “RICHARD SHAULL, CULTURA E TEOLOGIA DE ENFRENTAMENTO

  • 4 de setembro, 2021 em 8:50
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    Bom dia
    Concordo totalmente, Rev Marcos.
    Faço alguns adendos, ao meu ver, necessários ao texto de Richard Shaull, que tratou a pluralidade como uma consequência dos partidos políticos. Não, a pluralidade é consequência também, e muito mais, do “caminho”, do modo e como uma sociedade resolve suas questões.
    Cito, por exemplo, a corrupção, o crimes em geral e a impunidade. Esses “partidos” têm seguidores e apoiadores, até de dentro de nossas igrejas, algumas vezes dos próprios púlpitos.
    A pluralidade deve respeitar o fato de que a corrupção institucionalizada e a impunidade geram reação, indignação da sociedade, pois elas representam a injustiça, a mentira, o genocídio e a escravização de um povo.
    Poderia me alongar, mas vejo nossos líderes se esquivando dessa responsabilidade profética, muitas vezes mais preocupados com a forma do que do conteúdo.
    Grande abraço
    Dioraci Vieira Machado
    Presb 1a.IPI São Paulo

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