PRECISAMOS CONTAR A HISTÓRIA E RESGATAR A MEMÓRIA DA IPI DO BRASIL

“Para que contes aos teus filhos, e aos filhos de teus filhos, as coisas que fiz no Egito, e os meus sinais que operei entre eles; para que vós saibais que eu sou o Senhor” (Êx 10.2).

Será que temos conhecido e contado aos nossos filhos e netos os feitos de Deus ao longo da caminhada mais que centenária de nossa igreja?

Não basta contar às novas gerações os feitos de Deus lá nos tempos de Moisés. O texto bíblico de Êxodo 10.2 está longe de limitar a narrativa da história do povo de Deus àquilo que aconteceu no Egito; ali foi apenas o começo da grande história da salvação. Somos povo de Deus e a igreja que nos abriga é um ramo histórico da Igreja de Cristo. A história, portanto, muito pode nos ensinar, advertir e abençoar, demonstrando a presença do Senhor entre nós.

As preocupações com a memória e a história da IPI do Brasil iniciaram-se em nosso meio com trabalhos dos Revs. Eduardo Carlos Pereira e Vicente Themudo Lessa, dois dos sete pastores-fundadores da IPI do Brasil. O Rev. Eduardo, com o seu pequeno livro As origens da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil,e com seus balanços históricos, estes últimos publicados de tempos em tempos em O Estandarte como relatórios pastorais à jovem igreja. Por sua vez, o Rev. Themudo Lessa, primeiro historiador presbiteriano brasileiro, com seus diversos trabalhos – livros e artigos – que vão além dos conteúdos a respeito da igreja que ele ajudou a edificar, constituindo-se em um conjunto de textos fundadores da historiografia protestante brasileira. Destaca-se no conjunto o alentado (720 páginas) Annaes da 1ª Egreja Presbyteriana de São Paulo (1863-1903) – Subsídios para a história do Presbyterianismo Brasileiro, publicado em 1938 e que se configurou como inédito esforço de síntese historiográfica do protestantismo nacional. Em paralelo às suas publicações, o Rev. Themudo Lessa, reuniu ao longo de sua vida, um importante arquivo documental protestante, hoje sob a guarda do Centro de Documentação e História da 1ª IPI de São Paulo que, não por acaso, leva o seu nome.

Embora tais líderes da IPI do Brasil tenham se destacado com suas obras e ações em prol da memória eclesiástica, não foi praxe da igreja, ao longo dos anos, a atenção histórica denominacional. Por muitas e seguidas décadas, os cuidados para com a documentação histórica da IPI do Brasil e para com a composição de uma narrativa da caminhada da igreja viram-se relegados a plano secundário, com ações pontuais e intermitentes. Nessa situação rarefeita, sejam destacados nomes como os dos Revs. Azor Etz Rodrigues, Roldão Trindade de Ávila e Adolpho Machado Correia, bem como dos Presbs. Mário Amaral Novaes, Carlos Renê Egg e José Rodrigues da Costa Júnior. Foram eles os empreendedores da guarda de nossa memória em tempos de escassos recursos, empreendendo esforços particulares de coleção do material de interesse histórico em suas próprias casas, bem como promovendo atividades de coleção e guarda através de departamentos da IPI do Brasil: Seminário Teológico de São Paulo, jornal O Estandarte, e Comissão de Educação Religiosa e de Atividades Leigas (CERAL), para citar exemplos. Há também outros nomes, atuantes em diferentes tempos e regiões eclesiásticas, que lutaram solitariamente pela mesma causa. Nosso reconhecimento a esses apaixonados pela memória da igreja.

As comemorações do cinquentenário da IPI do Brasil (1953), do centenário de nascimento do Rev. Eduardo Carlos Pereira (1955), do primeiro centenário do presbiterianismo no Brasil em parceria com a Igreja Presbiteriana (1959) e do centenário de organização da 1ª IPI de São Paulo (1965) mantiveram acesa a chama, nos limites dessas celebrações, do cuidado histórico na IPI do Brasil, ensejando a publicação de números especiais de O Estandarte, e a organização de exposições de peças de época e de documentos antigos utilizados pela igreja. Ponha-se em relevo a “Exposição Histórica do Jubileu”, inaugurada no dia 31/7/1953 e sediada no prédio da Faculdade de Teologia, na Rua Visconde de Ouro Preto, em São Paulo, SP. Sob a responsabilidade da Comissão do Cinquentenário e curadoria do Presb. Benjamin Themudo Lessa (filho do Rev. Vicente Themudo), a exposição apresentou, dentre outros materiais, documentos pessoais e cartas redigidas pelos fundadores da IPI do Brasil, livros de atas históricos e fotos raras dos primeiros líderes de nossa igreja em momentos significativos da vida eclesiástica. Na oportunidade, o Rev. Azor Etz Rodrigues, presidente da Comissão do Cinquentenário, enfatizou que “era o passado dos nossos homens e instituições que ali estava como um estímulo para todos nós” (O Estandarte, “Suplemento do Jubileu”, 31/7/1953, p. 14). Muito colaborou nesse período de celebrações o já citado Presb. Benjamin que, no mesmo lapso de tempo, era o diretor de O Estandarte e procurou utilizar o jornal como veículo de suporte histórico da denominação.

O conjunto de atos celebrativos dos anos 50 e a comemoração do centenário da 1ª IPI de São Paulo no ano de 1965 estimularam o Supremo Concílio da IPI do Brasil a nomear, em meados da década de 60, uma “Comissão Permanente de História, Arquivo e Museu”, que passou a ser indicada pelo Supremo Concílio a cada nova legislatura. Tais trabalhos, infelizmente, limitaram-se às publicações de matérias e fotos n’O Estandarte, não havendo iniciativas da Igreja Nacional que explorassem outras atividades.

Torna-se apropriada a leitura de artigo redigido pelo Presb. Walter José Faustini, publicado em O Estandarte de 15/1/1976 e intitulado “A memória da Igreja”, para que se perceba como a nossa igreja sentia a necessidade de consolidar o seu passado enquanto registro escrito e material. O articulista lembra que o Supremo Concílio do ano de 1975 dera à Comissão de História a missão de desenvolver quatro pontos: 1) manter atualizada a história da IPI do Brasil; 2) organizar um banco de dados da denominação; 3) arquivar livros de atas e documentos históricos de concílios; 4) organizar o museu da igreja. Reconheceu o articulista: “Nada existe, entretanto, para ser atualizado ou posto em dia, pois não foi ainda escrita a história da IPI do Brasil. (…) Cabe lembrar que somente uma curadoria eficiente conseguirá consolidar o Arquivo e o Museu, dando-lhe prestígio e autoridade para que possa receber doações e empréstimos. É um círculo vicioso que deverá ser rompido” (pp. 3-4).

Passados 118 anos de formação da IPI do Brasil, o mesmo desafio mencionado pelo Presb. Faustini também no já longínquo ano de 1976 se coloca diante de nós. A história de nossa igreja precisa se tornar uma inspiração constante e presente na caminhada das igrejas e concílios da IPI do Brasil. Em definitivo, é o momento de concretizar sonhos. Haveremos de romper o círculo vicioso que despreza e desvaloriza a história, tornando-a memória abençoada para nós e nossos filhos, conforme as Escrituras nos ensinam e incentivam.

Rev. Éber Ferreira Silveira Lima
Comissão de História e Museu da IPI do Brasil

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