A VULNERABILIDADE DA POPULAÇÃO NEGRA

Com uma vasta folha de serviços prestados à IPIB, o Rev. Leontino atualmente é o 2º vice-presidente da Assembleia Geral, além de capelão de professor da nossa Faculdade de Teologia. Nascido em Aracaju, SE, cursou o Seminário da IPIB na década de 60 e pastoreou várias igrejas (Natal, RN; Umuarama, PR; Casa Verde, Imirim, Alto de Vila Maria, em São Paulo, SP; Bela Vista, em Osasco, SP) e foi presidente da Assembleia Geral (1999-2002). É mestre em Ciências da Religião e psicanalista. Acima de tudo, é consagrado servo do Deus Altíssimo. Negro que tem sido vítima da discriminação racial, ninguém melhor do que ele para ser entrevistado no mês de novembro, quando temos o Dia Nacional da Consciência Negra (20/11)

  • O que o senhor pensa ser a origem do racismo e qual a perspectiva para superá-lo?

Conforme o senso comum, existem grupos étnicos com características físicas associadas à origem social, que seriam as “raças humanas”, determinadas pela cor da pele, entre outras. Contudo, estudos genéticos provam que não existem subgrupos de humanos para essa classificação.

É um equívoco classificar brancos, negros, asiáticos, indígenas e outros como diferentes raças, superiores ou inferiores. O que há é que as relações étnico-sociais são formadas, historicamente, a partir de representações sociais e construção de imagens, num processo no qual membros de uma cultura usam a linguagem para instituir significados. Assim, coisas, eventos, posição social, instituições, pessoas não têm, neles mesmos, qualquer sentido fixo, final ou verdadeiro. Somos nós, em sociedade, entre culturas, que atribuímos sentidos, significados, valores ao que está ao nosso redor, como é o caso da raça.

O sociólogo Stuart Hall, em relação à raça, diz que as diferenças a ela atribuídas são equivocadas e resultam de uma construção política e social, para atender às demandas de um sistema de poder socioeconômico, de exploração e exclusão, de caráter ideológico, dando origem ao “racismo”.

  • Como entender a situação de vulnerabilidade da população negra no Brasil?

A vulnerabilidade da população negra tem sua origem na própria condição dos negros ao chegarem aqui. A violência começou quando foram arrancados de seu habitat e misturados com outros do próprio continente africano, mas de origens culturais diferentes como linguagem, religião, costumes, tribos, grupos familiares, entre outros. Às vezes, imaginamos que todos os africanos tinham a mesma origem cultural. Misturados, nem sempre puderam honrar seus valores de formação. Todos foram descaracterizados.

Aqui, ficaram à mercê das circunstâncias, sem direito à educação, saúde, vida familiar, vida digna. Os direitos que lhes foram garantidos, como diz um estudioso, foram: Pão (comida de baixa qualidade); Pano (roupa feita de saco); Pau (pauladas).

A abolição da escravatura não mudou muito esse cenário. Em algumas situações, a mudança foi para uma vida pior, com direitos negados. A vida dos negros sofreu mudanças; mas essa situação não garantiu oportunidades de trabalho, de educação, de moradia digna, de posição social mais humana. 

Rev. Leontino Farias dos Santos
  • Que impacto a condição de negro teve na vida do senhor?

Embora a maior parte de minha vida tenha sido no ambiente da igreja na qual cresci, que enriqueceu minha formação e facilitou a abertura de oportunidades para meu desempenho com certa estabilidade dentro dela e na sociedade, a condição de ser negro nem sempre me favoreceu.

Tenho consciência de momentos nos quais fui considerado inferior e incapaz, por ser negro. Uma igreja, por exemplo, deixou de me convidar para ser seu pastor porque sou negro – informação de um dos presbíteros daquela igreja.

Ao ser convidado para pregar em uma igreja, no interior de São Paulo, uma senhora, após o culto, confessou-me que, ao perceber que o pregador daquele dia era um negro, sentiu vontade de ir embora. Contudo, disse-me: “Graças a Deus, depois de ouvi-lo, percebo que o senhor é um negro, mas de alma branca”.

Quando presidente da Assembleia Geral da IPIB, recebi uma carta de um presbítero de uma igreja do interior de Minas Gerais dizendo assim: “Tenho vergonha de pertencer a uma igreja que tem um negro como presidente”.

Fora do ambiente da igreja, são muitos os casos nos quais fui discriminado: na educação pública, por pais de alunos, alunos, funcionários de escolas. Em aeroportos, hotéis, reuniões diversas.

Apesar de tudo, graças à formação recebida na igreja com base nas Escrituras Sagradas, isso não foi impedimento para agir pela vida digna.

  • O último mapa da violência, num período de dez anos, relata um aumento de 54,2% na taxa de homicídios contra mulheres negras; entre as mulheres brancas, o índice caiu 9,8%. Como o senhor interpreta esses dados?

As mulheres negras, sendo socialmente mais expostas à violência direta, tornam-se vítimas fatais nas relações afetivas, além de estarem mais desprotegidas em relação às brancas. Muitos crimes são praticados em regiões periféricas da sociedade. Nessas regiões, com maior concentração de pessoas negras em situação de miséria em seu sentido amplo (miséria material, moral, espiritual), é onde também ocorrem mais crimes contra essas mulheres, que se tornam vítimas de todo tipo de abuso e desrespeito, onde direitos humanos e liberdades fundamentais contra afrodescendentes nem sempre são reconhecidos.

Há falta de políticas públicas que privilegiem a situação da mulher negra, como a questão da saúde, da sexualidade, da segurança, da educação, da proteção do corpo em si, evitando que se exponham à prostituição como meio de sobrevivência e riscos de violência.

  •  De que maneira o racismo atinge as mulheres negras? Por que é necessário o recorte de gênero?

As mulheres negras, mais do que os homens, sofreram de várias formas durante a escravidão. Além do trabalho escravo nas fazendas e casas dos senhores escravistas, foram usadas para produzir filhos de escravos para o sistema e usadas como objeto sexual para satisfazer desejos dos senhores.

Além disso, as esposas dos senhores de escravos, ao desconfiarem do interesse de seus maridos por uma escrava, torturavam, como podiam, as negras, chegando a cortar-lhes o bico dos seios, por exemplo.

  • Como o senhor vê o uso da internet e, mais recentemente, das redes sociais na militância negra?

A Internet e as redes sociais produzem benefícios e males para todos. Tudo depende da maneira de quem, de como e para quê deles se utilizam.

Para a militância negra, esses meios podem ser acessados, por exemplo, como veículo de construção e implementação da Consciência Negra, criativamente, na conscientização da sociedade em relação aos direitos iguais para todos e à necessidade de formação que contribua para a vida social sem desigualdades. Essas redes podem trazer benefícios, mas também podem ser instrumentos de ideologias opressoras e exploradoras do ser humano. 

  • O que representa para o senhor as datas e os motivos do “13 de Maio” e do “20 de Novembro”?

O “13 de Maio” de 1888, Dia da Abolição da escravatura no Brasil, pouco significou para a libertação dos escravos. Na verdade, foi uma enganação, mascaramento da realidade, para que o governo brasileiro cumprisse um acordo com o Reino Unido, por razões econômicas, de libertar os escravos. Nesse acordo, poderiam ser aprisionados, pelos britânicos, navios negreiros, mesmo em águas territoriais brasileiras, que estivessem transportando negros.

A Lei Áurea não garantiu aos escravos liberdade para viver dignamente.

Por outro lado, o dia 20 de novembro de 1695, data da morte de Zumbi dos Palmares, reconhecido no Brasil como Dia da Consciência Negra, tornou-se símbolo de lutas contra a escravidão.

É desafio à reflexão sobre o que é ser negro num país de desigualdades sociais, como a marginalidade de pessoas, consideradas subgrupo racial, tipo de raça inferior.

Essa luta equivale à conscientização do cidadão negro e de toda a sociedade pelos direitos fundamentais que ainda não são plenos desde a escravidão. Direito à educação, saúde pública, moradia, mais oportunidades de trabalho, respeito, vida digna.

Sem consciência, os negros são coisificados. Como escreveu Ardunini: “Sem a consciência, os seres humanos se nivelam às coisas. São trocáveis como objeto”.

  • Durante o período escravagista, a igreja se manteve dividida entre protestantes escravocratas e protestantes abolicionistas. Qual o legado dessa divisão?

Protestantes vindos dos Estados Unidos e Europa, favoráveis à escravidão dos negros, estavam fundamentados no “equívoco teológico”, defendido por teólogos cristãos fundamentalistas, para justificar a “raça negra” como maldição e destinada à servidão.

Esses teólogos consideravam que a raça negra teve origem no episódio entre Noé e seu filho Cam. De acordo com a Bíblia, Noé ficou alegre, após o dilúvio, e embriagou-se com vinho; desorientado, ficou nu diante dos filhos. Cam, riu da nudez do pai; foi amaldiçoado por ele, com o enegrecimento de sua pele, surgindo daí a raça negra, fruto de uma maldição.

Muitos protestantes creem nessa interpretação e assim justificam o que chamam de raça inferior – os negros.

Outros protestantes, porém, viram nessa interpretação um equívoco, um projeto ideológico, voltado para a exploração de um povo, visando benefícios socioeconômicos.   

  • O senhor vê dificuldades ou discriminação da população negra nas igrejas?

Embora a discriminação racial também esteja no âmbito da Igreja, não vejo dificuldades que impeçam pessoas negras do cultivo de sua espiritualidade, no desempenho de atividades e ministérios.

Isso não significa que o problema não exista; mas sem  a intensidade e visibilidade que comprometa a vida da igreja. Pode ser que, em algumas regiões, influenciadas por comunidades de imigrantes com cultura que discrimine a raça negra, isso ocorra, como no sul do Brasil, por exemplo.    

  • Qual seria uma postura recomendada para a igreja sobre a justiça racial?

A igreja é missão de Deus para combater injustiças e fazer ouvir sua voz profética na sociedade.

Ela precisa aprender a ouvir e escutar pobres e oprimidos. Precisa colocar em prática os ensinos de Jesus que afirmou que seus seguidores são “o sal da terra e a luz do mundo”.  Nossos púlpitos precisam ser fiéis aos clamores dos marginalizados e injustiçados, como dizia o Rev. Eduardo Carlos Pereira.

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