CEIA DO SENHOR E RECONCILIAÇÃO

A Ceia do Senhor é o sacramento da comunhão no Corpo de Cristo. Não há comunhão sem reconciliação, pois a comunhão é fruto da amizade e a amizade com Deus é fruto da reconciliação de Deus com a sua criação e conosco, o ser humano, participante da criação. Quando celebramos a Ceia, participamos de uma realidade que nos transcende. Na tradição calvinista, essa experiência é chamada de presença real de Deus no momento sacramental da Ceia do Senhor. Participamos da realidade reconciliadora da ação de Deus, em Cristo e no poder do Espírito Santo. Em que consiste essa reconciliação? Essa realidade da qual participamos e nos empodera para viver de modo reconciliador?

Colossenses 1.15-20 é um dos textos fundamentais de Paulo para tratar do tema da reconciliação. É um hino que possui duas estrofes que celebram a ação de Deus em Cristo, por meio de Cristo e para Cristo. Na primeira estrofe, o hino celebra a ação de Cristo na criação (v. 15-17) e, na segunda (v.18-20), celebra a ação reconciliadora de Deus em Cristo. A palavra mais repetida no hino é, em duas formas, tudo ou todas as coisas. Assim como Deus criou tudo o que existe, Ele, em Cristo, reconcilia todas as coisas consigo mesmo.

Vejamos o texto bíblico: “Ele é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação, pois nele foram criadas todas as coisas nos céus e na terra, as visíveis e as invisíveis, tronos ou soberanias, poderes ou autoridades; todas as coisas foram criadas por Ele e para Ele, e nele tudo subsiste. Ele é a cabeça do corpo, que é a igreja, é o princípio e o primogênito dentre os mortos – para que em tudo tenha a supremacia – pois foi do agrado de Deus que nele habitasse toda a plenitude e por meio dele reconciliasse todas as coisas, tanto as que estão na terra, quanto as que estão nos céus, estabelecendo a paz pelo seu sangue derramado na cruz” (Cl 1,15-20)

Na primeira estrofe, celebra-se o fato de que Deus, no e através da ação do Messias Jesus, criou todas as coisas e as orientou para o próprio Messias (‘para ele’), de tal modo que a vida de toda a criação somente se dá nele – em Cristo. Na segunda estrofe, o hino celebra o fato de que o Messias, que é a cabeça do corpo de Deus, é o próprio Deus e reconcilia com Deus todas as coisas criadas através de sua morte na cruz. Entre as duas estrofes está implícita a noção de que, em algum momento após Deus ter criado o ser humano, ‘todas as coisas’ se afastaram de Deus, tornaram-se inimigas dele, precisando de reconciliação.

Mediante a sua própria ação, o ser humano se coloca sob um jugo que não pode desfazer, e se afasta de Deus, rompendo a amizade com Ele e vivendo por sua própria conta e soberania. Paulo afirma, em Romanos 7.14, que a vida no pecado é a vida marcada pela cobiça, a cobiça infinita de satisfação infinita em uma realidade finita. Ou seja: querer ser igual a Deus, não podendo ser igual a Deus. Querer ter uma vida infinita, quando só podemos ter uma vida finita. Contra a finitude, contra o limite, a pessoa deseja transcender essa finitude ou limitação. Assim, deixamos de ser fieis a Deus, deixamos de reconhecer que a vida infinita pertence a Deus e somente em comunhão com Deus nós podemos participar da vida eterna. Isso é o pecado: nós cobiçamos a infinitude e a eternidade de Deus, imaginando que nós mesmos podemos viver de modo infinito.

Tudo isto parece muito abstrato. Porém, esta explicação abstrata nos ajuda a entender muita coisa que acontece no mundo humano. A falta de amizade entre as pessoas, entre as famílias, entre as nações, pode ser explicada pela cobiça. Queremos ter mais do que as outras pessoas, famílias ou nações. Queremos ter mais dinheiro, mais poder, mais felicidade, mais bens, mais influência, mais santidade, etc. Nestes tempos tão complicados, na política e na saúde, sempre queremos ter mais razão do que os outros – não aceitamos que outros pensem diferentemente de nós; não aceitamos viver dentro de limites para que outros possam apenas sobreviver. Em outras palavras, a inimizade acontece quando desejamos tanto um objeto qualquer (poder, dinheiro, prazer, voto, razão, etc.) que fazemos das pessoas diferentes de nós os nossos inimigos.

É, então, que surge a necessidade da reconciliação. E a possibilidade de viver reconciliadoramente existe em Cristo. Deus nos reconciliou, reconciliou todas as coisas consigo mesmo, para que nós possamos ser amigos dele. Sendo amigos de Deus, temos poder espiritual para sermos amigos uns dos outros; para sermos amigos de toda a criação. Se somos amigos, não desejamos ter mais do que nossos amigos. Somos livres da ideia errada de que temos de ser mais do que os outros para levar uma vida boa. Somos libertados do egoísmo – o desejo de ter sempre mais, de acumular sempre mais. E, quanto mais acumulamos, menos deixamos para o próximo. Daí a violência, a guerra, a fome, a intolerância, a miséria.

Deus, porém, mostra que pode existir outro jeito de viver. Um outro modo de viver é possível. Uma vida de reconciliação, uma vida de amizade, uma vida de fidelidade. Ou, se preferirmos, uma vida de amor ao próximo como a nós mesmos.  Como Deus torna possível viver em reconciliação? Agindo de modo contrário ao modo egoísta. Deus não quer ter mais, Deus não precisa ser mais. Deus aceita perder para que a amizade volte a imperar na sua criação. O Império Romano (todo império funciona assim) manifestava sua fome de mais mediante a estratégia da conquista, de matar o inimigo para conquistar a sua terra e seus bens, e fazer novos escravos para ter sempre mais. A essa estratégia violenta e assassina, os romanos chamavam de fazer a paz! Ironia das ironias: a paz é feita mediante a morte do inimigo. O oposto da reconciliação: a opressão, a dominação. Deus faz exatamente o oposto: Jesus Cristo, sendo fiel a Deus e à criação, morre para eliminar a inimizade entre a criação e Deus; para eliminar a inimizade entre os seres humanos. Deus morre pelo inimigo para reconciliá-lo e torná-lo amigo.A fidelidade divina revelada na fidelidade de Jesus Cristo restaura a amizade rompida e dá início a uma aliança de compromissos mútuos: amar a Deus acima de todas as coisas, amar o próximo, amar a mim mesmo.

A Ceia do Senhor é o sacramento dessa reconciliação. Os antigos cristãos chamavam a Ceia de ágape – amor, ou a refeição do amor. Reconciliação gera amizade, amor fraterno, amor entre amigos. Fidelidade é outro nome para o amor. Na celebração da Ceia, reconhecemos que Deus perdoa o pecado e possibilita uma nova vida. Na celebração da Ceia, reconhecemos que a nova vida é vida da comunidade, do Corpo de Cristo. Na celebração da Ceia, oramos para que a reconciliação de Deus seja uma realidade poderosa em nossa vida. Na celebração da Ceia, anunciamos que a reconciliação de Deus está à disposição de todas as pessoas e de toda a criação. Na celebração da Ceia, nós recebemos a presença real de Deus, a presença da realidade reconciliadora de Cristo, a presença do poder reconciliador do Espírito Santo.

Na celebração da Ceia, recebemos o chamado de Deus para sermos agentes da reconciliação. Para sermos pessoas que levam a reconciliação de Deus a todo lugar onde vivemos. Ser missionário é ser fiel à experiência da presença real de Deus no sacramento da Ceia do Senhor. Ser missionário é, simplesmente, ser amigo de Deus. É ser amiga ou amigo do próximo. É ser amigo de toda a criação de Deus. A Ceia é o sacramento da reconciliação, da amizade, da hospitalidade, da fidelidade. Em tempos de crise, nossa melhor contribuição ao mundo, à sociedade e ao próximo é a amizade, a hospitalidade da reconciliação. É a acolhida ao outro em sua diferença, assim como Deus nos acolheu sendo nós ainda pecadores.

O sacramento da Ceia é o sacramento da reconciliação. Reconciliemo-nos com Deus, uns com os outros, e com toda a criação de Deus.


Rev. Júlio Paulo Tavares M. Zabatiero
Professor e coordenador da pós-graduação da Faculdade de Teologia de São Paulo da IPIB (FATIPI)

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