ENTREVISTA – SÍNDROME DE BURNOUT E O MINISTÉRIO PASTORAL

Com uma formação diversificada e atuação em ambiente corporativo por mais de 25 anos, o Rev. Marcos Wagner, atualmente pastoreando a IPI de Vila Prudente, São Paulo, obteve recentemente o título de Mestre em Psicologia com a tese “Síndrome de Burnout e Ofício Pastoral – a psicossomatização do estresse em pastores da IPIB em São Paulo”. Nesta entrevista, relata como realizou a pesquisa e qual foi a conclusão, explica e alerta os principais fatores de risco sobre a síndrome, além das orientações gerais para o cuidado e apoio para lidar com situações adversas potenciais para o adoecimento emocional. 

Além da função pastoral, o Rev. Marcos Wagner faz atendimentos clínicos e realiza palestras de prevenção e sensibilização sobre temas como suicídio, luto, dependência química, família e economia doméstica em tempo de crises.

É comum as pessoas dizerem que estão cansadas ou exaustas de suas atividades profissionais. Em qual momento podemos identificar o desenvolvimento da Síndrome de Burnout? Qual seria um sinal importante de alerta?

A Síndrome de Burnout se manifesta em três dimensões e em diversos níveis de intensidade. As dimensões são Exaustão Emocional(sensação de esgotamento físico ou mental, frustração, tensão, falta de vínculo afetivo, etc.); Despersonalização (frieza e impessoalidade nas relações, cinismo, negação do sofrimento, vínculo afetivo substituído pelo vínculo racional) e Baixa Realização Profissional (sentimento de fracasso, impotência, baixa motivação, baixa autoestima, incapacidade de cumprir demandas). A gravidade é definida pelo conjunto e intensidade com que se manifestam os sintomas relativos a cada dimensão.

Em sua pesquisa de mestrado, um dos objetivos era compreender se o ofício pastoral poderia ser considerado um meio para a manifestação de Burnout. Chegou a uma conclusão?

Sim.  A função pastoral, por sua abrangência, escopo e exigências, pode ser inserida ao lado de outras profissões com alta propensão à manifestação da Síndrome de Burnout, como bombeiros, professores, profissionais da saúde e da assistência. Tais profissões são marcadas por situações que causam ambivalência de emoções (morte e vida, saúde e doença), irregularidade de horários, excesso de carga de trabalho, situações de escassez recursos e de sofrimento humano. Há também certa idealização em relação a tais profissões pelo senso comum. Do pastor, além das atividades que ensejam cuidado, ensino, assistência social e religiosa, imersão em contextos familiares diversos, é exigida uma atuação impecável no tocante à exposição de aulas e sermões, planejamento eclesiástico, além de certa pressão pela realização de resultados. E, a exemplo das ocupações citadas, nem sempre o pastor possui autonomia ou condições para realizá-las plenamente. Portanto, o ofício pastoral dos ministros presbiterianos independentes pode ser classificado como uma ocupação de risco potencial pra adoecimento por Burnout, muito mais em razão do conjunto de suas atribuições (natureza emocional de suas tarefas, da proximidade do sofrimento e do contraditório, e por sua representação simbólica) do que pela atividade isoladamente.

8cc63fEm resumo, como foi sua pesquisa com os pastores e pastoras da IPIB e qual foi o resultado obtido?

De acordo com os instrumentos aplicados, em relação às três dimensões que caracterizam a Síndrome de Burnout, os pastores e pastoras em São Paulo apresentaram-se moderadamente esgotados e relativamente realizados com sua ocupação. Conforme tratamento estatístico, o crivo varia entre 1-5. A média apurada para a dimensão Exaustão Emocional (EE) foi de 2,97; para a dimensão Despersonalização (DP), 2,97; e para a Baixa Realização Profissional (BR), 3,75.

Conforme especialistas, a predominância de EE pode indicar o início do adoecimento, pois é a primeira dimensão e é preditor para as demais dimensões. Pesquisamos também se a IPIB (igreja local ou denominação) contribuía para o adoecimento laboral dos ministros. Destacamos aqui dois resultados relevantes:

  1. Os ministros (56,9% da amostra) não se percebem reconhecidos satisfatoriamente pela denominação;
  2. A maioria dos ministros (72,60%) declarou-se reconhecida (plenamente ou na maioria das vezes) pela igreja local.

Estas duas percepções mostram-se estatisticamente relevantes na correlação entre Burnout e a dimensão BR do instrumento utilizado. Nota-se que a IPIB dá diretrizes (ordenamento jurídico) e suporta institucionalmente o pastor, por meio de benefícios (seguro de vida, auxílio funeral, previdência complementar, instituição de pecúlio, abono 13º, descanso semanal, férias, licença para tratamento/maternidade), além de programa de educação continuada, que tem como objetivo atualizar e fornecer ferramental para o exercício do pastorado e, ainda, uma Secretaria de Ação Pastoral, cujo objetivo é cuidar da saúde ministerial dos pastores e pastoras da IPIB, mas sua percepção é de insuficiência em relação ao acolhimento recebido. Já a igreja local é o palco onde o ministro desenvolve suas atividades e vivencia os desafios da contemporaneidade, os anseios do grupo, as relações humanas e eventuais contrariedades entre membros, famílias e lideranças em relação ao pastor e sua família, mas ainda assim a percepção é de acolhimento e reconhecimento. Talvez porque expressões graciosas e acolhedoras, por menor que sejam, ocorrem justamente no ambiente local, o que já é suficiente para gerar percepção de reconhecimento e apoio, enquanto a organização é, por natureza, mais distante. Com diversas outras variáveis, concluímos que tanto a denominação quanto a igreja local não são ambientes isoladamente responsáveis pela manifestação da Síndrome de Burnout.

Nos últimos anos, alguns pastores no Brasil e de outros países, cometeram suicídio. Entre outros transtornos, o Burnout pode ter sido o gatilho?

Sim, mas não o único. Enquanto consolidava os dados (2019), foi noticiado pela mídia pelo menos 8 casos de suicídio entre líderes religiosos. Em todos eles, a marca comum foi a depressão.  Vale ressaltar que síndromes são caracterizadas pela associação de mais de um sintoma, ou seja, no caso da Síndrome de Burnout, outras manifestações como ansiedade, tristeza ou irritabilidade excessiva, apatia, etc., podem estar presentes.

Nos Estados Unidos, de acordo com o Instituto Schaeffer, 70% dos pastores lutam constantemente contra a depressão, 71% se dizem esgotados, 80% acreditam que o ministério pastoral afetou negativamente suas famílias e 70% dizem não ter um amigo próximo. O que pode ser feito diante dessa realidade?

Em geral, o enfretamento (coping) se dá por meio de ações que reequilibrem o estado emocional e o estado fisiológico, que são extremamente afetados pelo esgotamento laboral e fracasso pessoal.  Dentre essas ações, destacamos a necessidade de suporte social (família e amigos), hábitos saudáveis (lazer, atividades físicas, boa alimentação, descanso, etc.), técnicas de relaxamento, terapia e, eventualmente, tratamento medicamentoso. No caso de pastores, há certa resistência em assumir a condição de fragilidade, como se fosse algo não permitido ou ligado à falta de competência. A não admissão da realidade faz com que não percebam os alertas emitidos pela alma manifestos no corpo em forma de sintomas e, sem que percebam, são levados a um estado de exaustão, afetando não apenas aspectos físicos, cognitivos, emocionais e comportamentais, como também a vida pessoal, ministerial e familiar.

E como os concílios podem trabalhar a prevenção?

Primeiramente, reconhecendo a existência e os perigos da questão. O estresse vem sendo estudado cientificamente desde a década de 50 e Burnout desde os anos 70. Somente em 2019, a Organização Mundial da Saúde (OMS) reconheceu o Burnout como um distúrbio ocupacional e o incluiu na atualização do CID-11 (Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde) que entrará em vigor em 2022. Isto indica que o problema vem se agravando e não estamos isentos.  É necessário também intensificar a disseminação da informação. Na última edição da Educação Continuada de Ministros, o tema foi abordado de maneira brilhante. E, por fim, acrescentaria o envolvimento da igreja local no acolhimento e apoio devido aos pastores e suas famílias. Infelizmente, nas últimas décadas, temos visto um desgaste e uma desvalorização da função pastoral, sinais de uma sociedade que se liquefaz em seus valores, práticas e ambições.

Os pastores têm dificuldade em ocupar o tempo livre com atividades que lhe sejam saudáveis?

Sim, isto também ficou evidente em nossa pesquisa e concorda com outros estudos a este respeito.

Ministros da IPIB em São Paulo tendem a negligenciar, por seu estilo de vida, hábitos de lazer, nutrição, atividade física, autocuidado e relacionamentos saudáveis. Observou-se que 72,50% da amostra dedicavam até 40 horas semanais ao ministério, 58,80% até 14 horas semanais à suas famílias e a maioria (76,50%) dedicava apenas até 7 horas ao autocuidado. Sabe-se que a ocupação do tempo livre com atividades saudáveis constitui um importante elemento estratégico-defensivo contra os desconfortos laborais e no equilíbrio de disfunções emocionais, porém a condição socioeconômica exerce pressão negativa preponderante no grupo, tendo em vista que 70,6% trabalhavam em mais de um emprego e 72,6% dependiam financeiramente da segunda atividade para compor renda entre 4 e 9 salários mínimos (82,4%). Este panorama reflete uma penosa realidade e deve ser objeto de reflexões e ações contundentes.

Com a pandemia do coronavírus e a crise econômica, esse ano será bem difícil e estressante para muitos brasileiros. Como lidar com as incertezas que não estão sob nosso controle para não adoecer emocionalmente?

Não lide!  Uma boa forma de agir é não “pre-ocupar” a mente com aquilo que é incerto. A orientação bíblica de Mateus 6.27-34 é viver um dia por vez, considerando que sempre haverá obstáculos diários, e não destinar energia vital naquilo que não pode ser gerenciado, tendo a certeza de que o Senhor suprirá nossas necessidades. Com simplicidade e confiança, nossa parte é administrar recursos de modo criativo, exercer solidariedade e gratidão, criando ambiente emocional e mental para a manifestação do amor de Deus.

Uma passagem bíblica para terminar a entrevista.

“Havendo Deus terminado no dia sétimo a sua obra, que fizera, descansou nesse dia de toda a sua obra que tinha feito” (Gn 2.2). Esta é a manifestação da lógica divina que dará origem ao quarto mandamento. É nos exigido um dia de descanso contemplativo a cada seis dia de trabalho. É um princípio de vida. Se Deus até “parou” e “descansou”, por que é que nós não descasaremos?

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