UM TEÓLOGO COM OS PÉS NO CHÃO

“O bom teólogo deve segurar a Bíblia em uma das mãos e o jornal em outra.” Frase de Karl Barth, teólogo suíço nascido em 10/5/1886. A relevância da frase é clara. A Bíblia contém a base para a elaboração do pensamento teológico cristão, mas sua aplicação deve estar vinculada à realidade. A Escritura traz a verdade; o jornal trata dos fatos cotidianos. O papel do teólogo não se restringe ao estudo de doutrinas transcendentais, mas abarca assuntos diários. Entre esses, a política é um dos mais importantes. Coerente com o pensamento que cunhou, Barth o praticou. Pautou seu trabalho na luta por um mundo mais justo e fraterno, e na denúncia dos ídolos políticos que ameaçavam a igreja. Façamos breve passeio por sua história.

Entre a sala de aula, o púlpito e a militância
A Carta aos Romanos
Foto: Editora Sinodal

Karl Barth nasceu na Basileia, importante cidade suíça. Criado em um lar calvinista, teve em seu pai a inspiração para abraçar a docência teológica e o pastorado. Sua formação teológica se deu nas Universidades de Berna, Tubingen, Berlim e Marburgo.  Em 1909, foi ordenado pastor na Igreja Reformada Suíça, assumindo uma igreja em Genebra. Até 1914, refletindo a teologia predominante na Europa, Barth era um entusiasta da teologia liberal. O liberalismo teológico eliminava a distância entre Deus e o ser humano, cultivando uma ingênua crença no progresso e bondade humanas. A desilusão de Barth com essa corrente teológica se deu em 1914, quando vários de seus antigos professores, todos liberais, apoiaram a participação da Alemanha na I Guerra Mundial. Inconformado com essa posição e com o liberalismo teológico, publicou, em 1919, a primeira edição de seu “Comentário aos Romanos”. Era o início da chamada Teologia Dialética ou Neo-Ortodoxia.  As doutrinas cristãs clássicas foram reafirmadas. A teologia dos reformadores, redescoberta. A infinita distância entre Deus e o ser humano voltou a ser anunciada.

Nesse período, Barth enveredou pelos caminhos da militância política. Assumindo-se socialista, sua teoria política se tornou prática no pastorado da vila suíça de Safenwil. várias das fiéis pastoreadas por Barth eram funcionárias da empresa têxtil do local. Com salários baixíssimos, sem direitos sociais e desprovidas de organização sindical, encontraram no jovem pastor o agente para mudanças. Barth auxiliou na organização do sindicato local, proferiu palestras sobre direitos trabalhistas, pregou e escreveu a respeito da identificação do evangelho com os pobres. Após violentas reações por parte dos industriais de Safenwil, Barth se desligou de sua amada paróquia. Seu destino foi a Alemanha, onde desenvolveu uma sólida carreira como docente e uma nova forma de atuação política.

Oposição ao nazismo: a Declaração de Barmen

Em 30/1/1933, Adolf Hitler, líder do Partido Nazista, foi indicado ao cargo de chanceler da nação. Barth já estava integrado à sociedade germânica, exercendo a docência teológica na Universidade de Bonn. A igreja evangélica na Alemanha viu-se mergulhada em um momento dramático. A intenção de Hitler era unificar a igreja em uma estrutura eclesiástica rígida, a fim de dominá-la. Para isso, o ditador com o apoio de um contingente substancial da própria igreja. Vários pastores e membros das igrejas ingressaram no movimento dos “cristãos alemães”. Sua ideologia era simples e terrível: reformular inúmeras doutrinas cristãs de acordo com os ideais nazistas. Defendiam: a retirada de todos os elementos judaicos da fé cristã, renegando completamente o Antigo Testamento; a não aceitação de judeus como membros da igreja; a identificação de Jesus com um guerreiro ariano; e a completa vinculação da igreja com o estado hitlerista.

Em 27/5/1933, o estado conseguiu criar a tão sonhada igreja nacional. Os cristãos alemães intensificaram o proselitismo nazista nas fileiras da igreja.

Barth não aceitou a situação. Como reação, escreveu “Existência Teológica hoje”, onde postulou a fidelidade da igreja e de seus ministros exclusivamente à Palavra de Deus. Era uma clara crítica ao totalitarismo nazista que buscava cooptar a igreja.

A situação piorou. Um grupo minoritário de crentes e pastores organizou uma comunidade cristã paralela à igreja oficial. Passaria para a história como Igreja Confessante. Esses fiéis protestantes convocaram a reunião de um sínodo clandestino, realizado entre os dias 29 a 31/5/1934. Desse encontro surgiu uma confissão de fé que confrontou as pretensões nazistas de dominar a igreja. Falamos da Declaração de Barmen, escrita por Karl Barth em conjunto com outros dois teólogos, com a redação final do teólogo suíço.

O documento não foi redigido como uma confissão de fé clássica, em que os pontos centrais do cristianismo são apresentados. Sua intenção era despertar a igreja contra a dominação ideológica à qual estava sendo submetida. Seu texto afirma que a unidade da igreja deve ter como base apenas as Sagradas Escrituras e as tradicionais confissões de fé. Era uma crítica clara às heresias implantadas pelos cristãos alemães.

A Declaração de Barmen encerra cada tópico com rejeições explícitas ao nazismo que dominava a igreja:

  1. Rejeitamos a falsa doutrina de que a igreja tem o dever de reconhecer, além da Palavra de Deus, outros acontecimentos e poderes como fontes de pregação e revelação divina;
  2. Rejeitamos a falsa doutrina de que, na nossa vida, há áreas que não pertencem a Jesus Cristo, mas a outros senhores;
  3. Rejeitamos a falsa doutrina de que à igreja é permitido substituir a forma da sua mensagem e organização de acordo com a ideologia reinante;
  4. Rejeitamos a falsa doutrina que autoriza o Estado a tornar-se a diretriz única e totalitária para a existência humana;
  5. Rejeitamos a falsa doutrina de que a igreja pode assumir deveres e dignidades estatais;
  6. Rejeitamos a falsa doutrina de que a igreja pode colocar sua obra a serviço de qualquer plano arbitrário de poder .

As rejeições afrontavam diretamente a identificação da igreja com o nazismo. Por isso, a Declaração de Barmen foi considerada um manifesto teológico e político, no qual a participação de Barth foi claramente percebida pelas autoridades. Como consequência, teve sua permissão para lecionar suspensa e foi destituído de sua função de professor na Universidade de Bonn. Restou-lhe voltar para Basileia.

Da Suíça, Barth continuou fornecendo suporte teológico para a Igreja Confessante resistir ao nazismo. Após o fim da Segunda Guerra, Barth não abandou sua atuação política. Manifestou-se contra o rearmamento da Alemanha Ocidental e contra o desenvolvimento de armas nucleares. Sua vocação de teólogo público o acompanhou até o fim da vida.

A resistência de Barth ao nazismo traz importantes ensinamentos à igreja brasileira. Em nossos dias, parcela significativa da comunidade evangélica brasileira tem sido omissa diante dos problemas econômicos, sociais e políticos de nossa realidade. A igreja tem deixado de ser uma voz profética a denunciar as injustiças e a combater as desigualdades sociais que nos cercam. Nessa situação, Karl Barth serve de inspiração à igreja para direcionar sua fidelidade somente a Jesus Cristo.


Rev. André Tadeu de Oliveira
Pastor da IPI de Alexânia, GO
Membro do Conselho Editorial de O Estandarte e da revista Vida & Caminho

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