AFIRMAÇÕES DE FÉ COMO RENOVAÇÃO ESPIRITUAL

Credos e Afirmações de Fé são inovações novidadeiras?

Nos dias de hoje, muitos membros de nossa igreja não dão a mínima importância ao uso dos credos e das afirmações de fé. Muitos pastores e líderes de igrejas não os incluem nos cultos. Chegam a considerar seu uso como uma inovação novidadeira e desnecessária.

Por outro lado, muitos, quando ouvem a palavra “credo”, associam-na ao catolicismo romano. Supõem que não faz parte da tradição reformada a criação ou a utilização de credos em nossos cultos.

Será que é isso mesmo? Será que os credos e as afirmações de fé não fazem parte da nossa tradição?

Para responder, vamos recordar um pouco da história da igreja. Os especialistas em Novo Testamento afirmam que uma das mais antigas afirmações de fé da igreja cristã é aquela que declara simplesmente: “Jesus é Senhor” (Fp 2.11; Rm 10.9). Por que a igreja fazia tal declaração de fé? Ocorre que, naquela época, “Senhor” era um título divino. O imperador romano exigia que todos afirmassem: “César é Senhor”. Diante disso, os cristãos se rebelaram. Em oposição à exigência do imperador, os cristãos diziam: “Jesus é Senhor”. Tal afirmação de fé era, portanto, uma resposta da igreja a uma situação que enfrentava.

O mesmo se pode dizer a respeito do Credo dos Apóstolos. Suas afirmações eram uma resposta ao desafio doutrinário trazido pelo gnosticismo, cuja doutrina estabelecia profunda dicotomia entre as realidades material e espiritual, afirmando que o mal estava na realidade material e o bem, na espiritual. De acordo com isso, um Deus bom jamais poderia ter criado o universo material e nem mesmo Jesus poderia ter sido um ser humano de carne de osso. A elaboração do Credo dos Apóstolos foi uma resposta dos cristãos ao gnosticismo ao afirmar a crença no Deus criador e no Jesus histórico.

Tudo isso serve para comprovar a antiguidade da tradição cristã de formular afirmações de fé e credos. Tudo isso também demonstra que a formulação de afirmações de fé e de credos representa a resposta da igreja a desafios que lhe são colocados pela situação histórica que enfrenta.

Essa tradição cristã foi reafirmada na Reforma do Século XVI. A partir da Reforma, uma grande quantidade de confissões de fé foi elaborada (Confissão de Augsburgo, Confissão Escocesa, Confissão Helvética, Confissão Francesa, Confissão de Genebra, Confissão de Berna, Confissão de Zurique, etc.). Todas elas representam respostas do movimento da Reforma Protestante a situações específicas que se apresentavam em diferentes lugares e em diferentes épocas.

Mais recentemente, essa tradição vem sendo recuperada. Em 1934, diante do enorme desafio colocado pelo nazismo, o Sínodo Confessional da Igreja Evangélica Alemã, reunido na cidade de Barmen, aprovou a Declaração Teológica de Barmen. Em oposição àqueles que declaravam “Hitler é Senhor”, afirmou o senhorio de Jesus.

Outro exemplo da recuperação dessa tradição foi dado pela Igreja Presbiteriana dos Estados Unidos (PCUSA). Diante do desafio da discriminação racial, a Confissão de 1967, corajosamente, afirmou: “A obra reconciliadora de Deus em Jesus Cristo e a missão de reconciliação para a qual ele chamou a sua igreja são o coração do evangelho em qualquer época”.

Podemos, pois, afirmar que faz parte da espiritualidade reformada a formulação de credos e de afirmações de fé. Não poderia ser diferente. Afinal, em diferentes épocas e em diferentes lugares, a igreja é desafiada a declarar qual é a sua fé em resposta à situação em que está inserida.

Além disso, ao se dedicar à formulação de credos e de afirmações de fé, a espiritualidade reformada não estava inventando uma nova moda. Muito ao contrário, o movimento reformado estava, simplesmente, retomando uma tradição que tem sua origem na igreja primitiva.

O uso dos credos e afirmações de fé encontra sentido em nossos dias?

Se pudéssemos retroceder um século e participar de cultos em denominações diferentes, perceberíamos algumas diferenças. As denominações cristãs eram poucas. As diferenças entre elas resumiam-se a aspectos da compreensão dos sacramentos e ao movimento ‘pentecostal’ que acabara de chegar ao nosso país.

O tempo passou, as denominações evangélicas proliferaram. As diferenças entre elas se tornaram abissais na forma do culto, no conteúdo da fé e em seu propósito. O culto deixou de expressar o conteúdo da fé e de proclamar a salvação em Cristo. Seu propósito deixou de ser o proclamar o “evangelho do reino” para transmitir uma mensagem reduzida à satisfação das necessidades humanas de cura e de prosperidade. A mudança de propósito do culto é o resultado de uma nova mentalidade caracterizada pelo subjetivismo, auto verdade, hedonismo e pragmatismo.  

Este novo jeito de cultuar é fruto de um novo jeito de pensar e de conceber a dinâmica da fé e sua relação com a vida cotidiana. O resultado é o estabelecimento de uma dicotomia entre o “que se crê” e o “que se vive”. Charles Taylor, em seu livro “A era secular”, define este estilo de vida moderno como “secularizado”, portador de um “ego soberano”.

O “ego soberano” é a retirada da autoridade do comando de “uma verdade externa” e o “empoderamento” do eu, isto é, “a verdade interna”. Assim, o que a Bíblia diz sobre “o dever de amar ao próximo” (verdade externa) perde sua autoridade para o “ego soberano” que busca “ser feliz”, “realizado”, “satisfeito” (verdade interna). Entre o dever de amar e o de ser feliz, o ego soberano não ‘pensa duas vezes’.

Mas o que isso tem a ver com o uso de credos e afirmações de fé em nossos cultos?

Em primeiro lugar, os credos (Apostólico e Niceno) e as afirmações de fé do Manual do Culto da IPIB são textos confessionais que reforçam o fundamento da nossa fé. O sermão, por mais fiel que seja às Escrituras, não consegue jamais abarcar a integralidade das doutrinas fundamentais da nossa fé. O uso dos credos e afirmações de fé nos convidam a professar as doutrinas que nos identificam como discípulos de Jesus.

Cabe aqui ressaltar que o conteúdo bíblico dos credos foi reconhecido pelos reformadores. João Calvino comentou o Credo dos Apóstolos em sua “Institutas” (1536) e em seu Catecismo (1537). Ele compreendeu que, nele, está o fundamento da fé que todo cristão deve conhecer e professar. Nele, estão as principais doutrinas da fé cristã.

Estudar seus temas ou pregar uma série de sermões baseada no Credo Apostólico pode ser um fabuloso antídoto para a mentalidade do “ego soberano” da secularização atual.

Outro motivo para o uso dos credos e afirmações de fé do nosso Manual de Culto é que eles reforçam a unidade e combatem o individualismo.

Somos uma igreja confessional. Isto nos torna parte integrante da família Reformada em todo mundo.  Ao contrário das chamadas “igrejas livres”, não somos igrejas isoladas, que são autônomas sobre o conteúdo da fé, sobre a forma do culto e propósito. Embora tenhamos certa liberdade quanto à liturgia dos cultos, esta é uma liberdade limitada, disciplinada, pelos nossos documentos confessionais.

Os Credos Apostólico e Niceno são resumos do conteúdo doutrinário. Eles reforçam o entendimento bíblico da unidade da igreja. Somos confessionais, mas não exclusivistas.

O caráter exclusivista pertence às seitas, baseadas em heresias. Os cristãos confessam sua unidade com a confissão dos credos, apesar das suas diferenças.  Se compreendemos que alguns professam os Credos, mas desprezam seu conteúdo doutrinário, fica para todos nós o alerta do apóstolo Paulo: “Aquele que pensa estar em pé veja que não caia” (1Co 10.12). Ler e professar os credos em nossos cultos nos unem a todos os cristãos em todos os lugares do mundo.

Este sentimento de pertencimento e de unidade nos arranca das amarras de uma fé individualista e vazia de significado. Sobre este fato o Manual de Culto da IPIB declara: “Ao recitar um credo, confessando a fé universal da Igreja no Trino Deus em cujo nome fomos batizados, reafirmamos o nosso desejo de viver e morrer nesta fé. Também damos testemunho de que nossa fé pessoal não existe isoladamente em relação à fé da igreja através dos séculos”

Assim, os credos e as afirmações de fé do nosso Manual do Culto nos auxiliam a nos mantermos firmes no conhecimento essencial da fé cristã. Livrando-nos do erro de menosprezar as doutrinas essenciais da fé cristã, também nos mantêm unidos à igreja de Cristo em todo mundo e nos motivam à busca por maior entendimento do que cremos, a fim de estarmos “sempre preparados para responder a todo aquele que pedir razão da esperança” que temos (1Pe 3.15).


Rev. Gerson Correia de Lacerda
Pastor-auxiliar da 1ª IPI de Osasco
Editor de O Estandarte

Rev. Ézio Martins de Lima
Pastor da IPI Central de Brasília, DF
1º Vice-Presidente da Diretoria da Assembleia Geral da IPIB

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