DEUS – PALAVRA MUITO USADA E MUITO GASTA

A partir da edição de fevereiro, passamos a publicar, por decisão do Conselho Editorial de O Estandarte, os textos do e-book que se encontra no site da IPI do Brasil, intitulado “A Coragem de Confessar”.


“Santo, santo, santo é o Senhor dos Exércitos; toda a terra está cheia de sua glória” (Is 6.3).

Uma palavra muito usada por todos é a palavra “Deus”. Observe o número de músicas populares em que a palavra “Deus” está presente. Veja também como a palavra “Deus” nas conversas diárias das pessoas. “Vai com Deus”, “Deus te ajude”, “Deus te abençoe”, “Meu Deus!” são expressões ditas habitualmente, sem qualquer reflexão a respeito de quem é Deus ou a que Deus está se fazendo referência.

É aí que está exatamente o problema! “Deus”, para nós, passou a ser uma palavra muito usada, mas vazia de qualquer significado. Daí a importância do estudo que iniciamos neste capítulo.

Recordar é fundamental

Antes de entrar nesse assunto, vale a pena fazer uma breve recordação. Já tivemos quatro capítulos sobre a Confissão de Fé de Westminster (CFW). Foram dois introdutórios e mais dois sobre a revelação de Deus e a Bíblia.

Nesses capítulos, procuramos descobrir a importância da CFW e, ao mesmo tempo, as suas limitações. Examinamos, também, o grande valor que a CFW atribui à Bíblia, considerando-a como “regra de fé e prática” (CFW 1.2).

Tudo o que estudamos está contido no capítulo I da CFW. Agora, vamos examinar o que a CFW diz a respeito de Deus. Isso corresponde aos capítulos II, III, IV e V da CFW.

Os antropomorfismos modernos

Os gregos da antiguidade eram politeístas, como os vários povos de sua época. Tinham vários deuses. Isso aparece no livro de Atos, quando Paulo visitou a cidade de Atenas e ali viu inúmeros altares, um dos quais dedicado ao “Deus desconhecido” (At 17.16-34).

Todavia, o que mais chama a atenção na religião dos gregos antigos era o antropomorfismo religioso. Isto é, os gregos acreditavam que os deuses eram iguais aos seres humanos, sendo diferentes somente pelo fato de serem imortais.

Assim, os deuses gregos eram imaginados com as virtudes e os defeitos que todos nós temos. Os deuses gregos amavam e odiavam, brigavam e se reconciliavam, tinham ciúmes e inveja, etc. A tudo isso chamamos de antropomorfismo religioso.

É por aqui que vamos começar a falar do nosso Deus.

Frequentemente, nós repetimos, sem querer e sem pensar, o antropomorfismo dos gregos em relação ao Deus da Bíblia. Pensamos em Deus como se Ele fosse “um bom velhinho que fica lá em cima”. Imaginamos que Deus passa todo o seu tempo a nos vigiar, anotando em um grande livro os nossos erros e acertos. Supomos que Deus esteja “preso” a determinados lugares, como o templo, e passamos até a “marcar encontros” com Deus nesse local. Usamos, para falar de Deus, uma linguagem antropomórfica, fazendo referência aos “braços de Deus”, aos “olhos de Deus”, “à face de Deus”, etc.

A Bíblia e a nossa situação

Na verdade, é impossível escapar de tudo isso. A própria Bíblia utiliza essa forma de tratamento em relação a Deus. São inúmeros os textos bíblicos que falam de Deus “lá em cima” ou que fazem referência a partes do “corpo” de Deus. No Antigo Testamento, por exemplo, Deus conversou com Moisés, dizendo-lhe que não poderia mostrar-lhe a sua “face”, mas permitiu-lhe ver as suas “costas” (Êx 33.17-23). No Novo Testamento, Jesus despediu-se dos seus discípulos e “subiu aos céus” e “assentou-se” à direita de Deus (At 1.9 e Hb 1.3).

Não poderia ser de outra maneira. Para falar a respeito de Deus, a Bíblia só poderia ter usado uma linguagem humana. Afinal de contas, ela foi escrita por seres humanos e para os seres humanos. Se fosse usada outra linguagem, não poderíamos entender sua mensagem.

Devemos, contudo, lembrar que a própria Bíblia usa, em relação a Deus, uma palavra muito importante para o nosso estudo. A Bíblia diz que Deus é “santo”. Isaías quando foi vocacionado por Deus para ser profeta, teve uma visão na qual os serafins clamavam: “Santo, santo, santo é o Senhor dos Exércitos” (Is 6.3).

Hoje em dia, a palavra “santo” tem um significado muito pobre e pequeno. “Santo” é aquele que não comete pecados ou que não tem defeitos. Ora, devemos lembrar que a Bíblia foi escrita há muito tempo, por pessoas que tinham outra cultura e outra mentalidade. Assim, para a boa compreensão da Bíblia é preciso, sempre, examinar o que a linguagem bíblica queria dizer no tempo em que foi escrita e para as pessoas que a escreveram.

Uma coisa é certa: “santo”, na Bíblia, tem um significado maior e mais profundo do que costumamos pensar. Segundo um importante comentarista, quando a Bíblia diz que Deus é “santo”, ela está querendo dizer que “Ele é o todo-outro, o incompreensível, o indefinível, o insondável”. Isso quer dizer que a Bíblia aponta para a enorme distância que existe entre Deus o ser humano. “Deus é o todo-outro”.

É verdade que Deus ama o ser humano e busca o ser humano para se relacionar com ele. Mas Deus está infinitamente acima e além da nossa capacidade de compreensão.

É muito importante conservarmos essa noção da santidade de Deus. São frequentes as tentativas que fazemos para capturar Deus em nossas concepções. Todavia, Ele é santo. Não o alcançamos jamais. Tudo o que dissermos sobre Deus será sempre limitado. Todas as nossas palavras e ideias serão sempre ideias e palavras humanas. Deus permanecerá sempre como o “todo-outro, o incompreensível, o insondável, o indefinível”. (Leia Jó 38 a 42)

A CFW e a nossa situação

Vamos agora examinar duas coisas que a CFW nos ensina sobre Deus:

Primeira:

A CFW afirma que “na divindade há três pessoas de uma mesma substância, poder e eternidade – Deus, o Pai, Deus, o Filho, e Deus, o Espírito Santo” (CFW 2.3).

Cremos, portanto, no Deus Trino. Não cremos em três deuses ou em três modos de Deus se apresentar. Cremos em três pessoas que são uma só divindade.

Segunda:

A CFW usa vários adjetivos falar de Deus: “espírito puríssimo, invisível, sem corpo, membros ou paixões; é imutável, imenso, eterno, incompreensível, onipotente, onisciente, santíssimo, completamente livre e absoluto”, etc. (CFW 2.1).

Ao afirmar que Deus é Trino e ao atribuir vários adjetivos para Deus, a CFW está só tentando resumir o que a própria Bíblia nos transmite.

Conclusão

Concluímos com mais três observações:

a) Uma tentativa

A CFW faz uma tentativa de explicar em que Deus nós cremos, a partir da Bíblia. Devemos, contudo, ter sempre em mente que Deus é “santo”, isto é, o “todo-outro”, o que está além da nossa capacidade de compreensão. Tudo o que dizemos sobre Deus são sempre palavras nossas, humanas e limitadas demais para expressar a grandiosidade do Senhor.

b) Deus se revelou

Só podemos dizer algo sobre Deus por causa de sua revelação. Deus se revelou na história do povo de Israel (Antigo Testamento) e na pessoa de Jesus de Nazaré (Novo Testamento). Não é a nossa capacidade intelectual ou espiritual que nos permite entender a Deus e dizer alguma coisa a respeito dele.

c) Atos históricos

A revelação de Deus sempre ocorreu através de atos históricos. Deus não ficou apresentando definições sobre si mesmo. A Bíblia não chega nem mesmo a usar a palavra “Trindade” ou “Trino” para se referir a Deus. Essa concepção foi extraída da Bíblia, a partir do que ela conta sobre a atuação de Deus (leia Mt 3.13-17). Podemos, então, concluir da seguinte maneira: a Bíblia conta o que Deus fez e a CFW tenta explicar Deus a partir de sua ação exposta na Bíblia.

Rev. Gerson Correia de Lacerda
Editor de O Estandarte
Pastor Auxiliar da 1ª IPI de Osasco

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