IDOSOS E CRIANÇAS: VÍTIMAS INDEFESAS

Alguém que chega, alguém partindo. Na lei da vida, criança é página em branco, sendo escrita aos poucos. A jornada na última etapa coloca as reminiscências de ter vivido para contar, memória com o coração cantando vitória pelo que termina e não pelo que começa, como já escreveu Santo Agostinho.

Começo e fim, alfa e ômega, trajetória entre nascer e ser criança, vulnerável, e depois os anos vividos com os mais variados tipos de recordação. Você vê o menininho e a menininha e não sabe o que poderão ser, porque é preciso ajudá-los no crescimento em estatura e graça. São elos de ligação. Completam-se. O bebê dentro de casa é majestade, “príncipe” ou “princesa”. Os idosos, pai e mamãe, vovó e vovô, podem ser tratados com reconhecimento, ternura e carinho. Ou serem colocados com desprezo num canto da casa, renegados, quando não encaminhados para uma casa dita de “repouso”, eufemismo para o isolamento social e familiar deliberado. Triste solidão, para não dizer deprimente, tanto quanto serem chamados, com a maior naturalidade desrespeitosa, de “véias” e “véios”.

O Brasil é um país de muitos idosos, 15% da população, e por isso a faixa etária entrou na área de risco e predominância nas mortes provocadas pelo Covid-19. Para eles, há um Estatuto do Idoso, elaborado em 2003, e em tese estariam com seus direitos protegidos. Digo “em tese” porque nem sempre é assim.

Vidas de idosos e crianças se cruzam, complementam-se. Um será; outro foi.

As Escrituras proporcionam ensinamentos relevantes a respeito. No Evangelho segundo Mateus 19.13-14, lemos que algumas pessoas levaram crianças à presença de Jesus, pedindo que Ele as abençoasse com imposição das mãos. Os discípulos não gostaram, reprenderam as pessoas, e aí foi Jesus quem não gostou. E disse: “Deixai os pequeninos, não os embaraceis de vir a mim, porque dos tais é o reino dos céus”.

A narrativa é repetida em Lucas 18.15-17, com vigoroso acréscimo: “Quem não receber o reino de Deus como uma criança, de maneira alguma entrará nele”.

O Senhor, sempre Mestre, ensina que criança é prioridade número 1 no Reino dos Céus por uma razão simples: ela é limpa e pura de coração, sem maldade. Perdoa, releva, é espontânea, não sabe o que é falsidade, não oculta sentimentos – enfim, tudo aquilo que nós, adultos, não somos. Num outro momento, Jesus dirá que uma das bem-aventuranças é ter o coração limpo, condição para que se veja a Deus (Mt 5.8). São lições entrelaçadas.

Num sábio contraponto, a filósofa existencialista e escritora francesa Simone de Beuvoir, a companheira de Jean-Paul Sartre, tido como um dos maiores pensadores do século XX, bem compreendeu: “O que é um adulto? Uma criança inchada pela idade”. Ou como escreveu o poeta Fernando Pessoa: “Podemos vender o nosso tempo, mas não podemos comprá-lo de volta”.

Todos nós trazemos dentro de nós a criança que fomos. Por isso, Saint-Exupéry, autor do livro O Pequeno Príncipe, afirmou que “nenhum livro para criança deve ser escrito para crianças”. A profundidade da obra é para adultos: “Só se vê bem com o coração, o essencial é invisível para os olhos”; “As crianças têm de ter muita tolerância com os adultos”. 

Os idosos de hoje podem ser pais e mães. Registre-se que na tábua mosaica dos dez mandamentos (Ex 20.12), um deles é honrar o pai e a mãe, o único com promessa: “Para que se prolonguem os seus dias sobre a terra”.

Sentem-se na presença dos idosos, honrem os anciãos, recomenda Levítico 19.32.O velho que já foi jovem contará que as estradas da vida mostraram a ele que nunca se viu o justo mendigar o pão (Sl 37.25). Isaías, o profeta lírico, registra (46.4) a presença do Altíssimo em todo tempo, como se não houvesse relógio biológico: “Mesmo na sua velhice, quando tiveres cabelos brancos, sou aquele que o sustentará”.

As ações de cada um são a sua própria essência, como pregou o padre Vieira. A essência humana pode ser deturpada, infectada com vírus na alma, que se torna perversa, assassina, praticante da tortura, abjeta. Banalidade do mal. É a face, parcialmente oculta, da sociedade da brutalidade, capaz de chegar ao extremo da boçalidade e estupidez, fazendo da insensatez uma índole com ausência de caráter. Essas condições inescrupulosas vitimam idosos e crianças, sem piedade. Vítimas de eunucos morais que infestam a sociedade, que conhece apenas parcialmente os fatos estampados por essa realidade, que cheira mal, por não a considerar asséptica. É a sociedade pautada pela anomia, a ausência de regras e normas.

Conheço muito bem essa ribalta por onde desfilam os mais variados e inimagináveis tipos humanos.

Os idosos-vítimas: são alvo, muitas vezes, dos próprios filhos, alguns urubus despudorados ainda no velório, outros ansiosos para ficar com seus bens por herança, eliminando-os com crueldade. Mesmo que não cheguem ao ato extremo da violência, matar, criam um clima de desavença que inspirou um provérbio forense: “Só se conhece verdadeiramente uma família após o primeiro inventário”. As disputas, alimentadas por cobiça, são ferozes. Muitos familiares nem conversam entre si. Transferem a tarefa deplorável para advogados.

Existem os idosos que sonham terminar seus dias tranquilos numa chácara, num sítio, distantes da cidade. São presas fáceis de facínoras/crápulas que não hesitam em exterminá-los para se apoderar dos seus bens, encerrando seus dias com crueldade absoluta. Existem filhos que usam e abusam de seus pais, deixando os seus netos inteiramente por sua conta que, mesmo por eles cuidados, são capazes de trucidá-los para obter algum benefício. Temos ainda os filhos que vivem inteiramente às custas dos pais que, mesmo idosos, são obrigados a administrar a inutilidade de quem não quer saber de estudar ou trabalhar. Nesse grau de dependência vadia, ainda espancam os pais. Nesse cenário, inserem-se punhaladas, tiros, pauladas, ocultação de cadáver e atrocidades múltiplas.

As crianças: são envolvidas nos atos de terror, que incluem abusos sexuais. Existe padrasto que odeia a criança porque lembra ex-companheiro e receia a possibilidade de retorno ao relacionamento anterior, descarregando suas iras na criança indefesa. Registram-se muitos casos de padrastos espancadores, que não querem ouvir choro de criança e a barbarizam de todos os modos, até matá-la, muitas vezes com a conivência total da companheira que, entre o filho trucidado e a besta-fera que mora com ela, prefere proteger o facínora.

Os omissos assépticos ficam à distância, repletos de teorias inúteis, bizantinas, ausentes dos lugares marcados pela tragédia repugnante. Embora tenha de ver profissionalmente o que de pior a humanidade pode produzir, meu calcanhar de Aquiles particular é a criança. Não consigo deixar de assimilar emocionalmente o peso que significa cada um dos casos que nenhum processo qualifica por inteiro. Processo significa apontar um crime, sua autoria e o atroz modo de agir – modus operandi – para praticá-lo. E só. As cicatrizes na alma, o coração apunhalado, o ataque traiçoeiro, a dor incurável… nada disso, que será juízo de Deus, faz parte de processo algum. A lei é gélida, nada flexível, abstrata e fictícia em termos de estabelecer punições de acordo com o socialmente adequado. Uma criança trucidada, por exemplo: qual seria o seu potencial de vida? O que ela poderia ser? Como comparar a sua vida preciosa com a de seu algoz?

E o idoso, num leito em estado grave, o médico tendo de decidir entre o que se convencionou chamar de “expectativa de vida”, em comparação com um paciente, mais jovem, que tenha maiores condições de sobrevivência? Quem pode (ou deve) viver ou morrer? E a ética de Hipócrates, onde fica? Está liberado o genocídio dos mais velhos?  Tais dilemas martirizam os escrúpulos impostos pela consciência, se consciência houver. Agir contra ela “não é seguro nem honesto”, comentou o reformador Lutero. É lampejo divino, a nos lembrar o que significam idosos e crianças nas Escrituras, repletas de ensinamentos incontestáveis, tantas vezes ignorados.


Percival de Souza
Jornalista e Escritor
Membro da 1ª IPI de São Paulo, SP

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