O AMOR COMO BASE DA ÉTICA CRISTÃ

Ética, um termo usado e abusado, mas muitas vezes mal compreendido. Dentre várias ideias, podemos definir seu significado da seguinte forma: “Segmento da filosofia que se dedica à análise das razões que ocasionam, alteram ou orientam a maneira de agir do ser humano, geralmente tendo em conta seus valores morais”.

A ética orienta o comportamento humano, seja em seus relacionamentos interpessoais ou com os inúmeros entes sociais.

A fé cristã teria uma ética específica, destoante das demais? Segundo o filósofo e teólogo Paul Tillich, a resposta é afirmativa. Usando o pensador alemão como base, meditemos na importância do tema para o dia a dia da pessoa crente.

Paul Tillich: vida e obra

Paul Tillich
(Foto: Wikipedia)

Paul Tillich nasceu em 1886 em Starzeddel, Alemanha (atualmente, uma localidade polonesa). Seu pai era pastor da Igreja Territorial da Prússia, gerando uma forte influência no adolescente Tillich.

Realizou seus estudos teológicos nas Universidades de Berlim, Tubingen e Halle. Exerceu o pastorado entre 1912 a 1918. Foi capelão no exército alemão durante a I Guerra Mundial. Os horrores da guerra mudaram o pensamento teológico de Tillich, no qual a liberal crença na bondade inata do ser humano foi demolida diante da maldade existente na trincheira.

Junto com o pastorado e a teologia, Tillich transitou em diversas áreas. Obteve o doutorado em filosofia, atuando como professor em várias universidades alemãs. Foi um dos líderes do movimento socialista religioso, que buscava formular uma resposta cristã à situação do proletariado. Fez parte do grupo que originou a famosa Escola de Frankfurt, tornando- se um ácido opositor ao nazismo. Como decorrência dessa oposição, foi expulso da Alemanha, estabelecendo, em 1933, residência nos EUA. Ali, lecionou no Seminário Teológico Unido e nas universidades de Colúmbia, Harvard e Chicago. Faleceu em 1965.

Teologia Sistemática
Foto: Editora Sinodal

Sua principal obra teológica é a “Teologia Sistemática”. Dentre várias contribuições importantes, destacamos o conhecido “método da correlação”, fundamental para se compreender a relação entre religião e cultura.

As éticas errôneas

Segundo Tillich, há três visões éticas que buscam nortear a existência humana. Todas equivocadas. A primeira é conhecida como “estática sobrenaturalista”, na qual o mundo  é interpretado como um sistema de estruturas eternas, cuja origem se encontra em Deus. Assim, a ética aplicada jamais mudará. Os comportamentos de séculos posteriores são exigidos como normativos para os dias atuais. Essa ética religiosa, predominante no magistério da Igreja Católica Romana e nos protestantismos fundamentalistas, é criticada por Tillich, pois, além de ser opressiva, não responde mais às demandas de uma sociedade em constante mutação.

A segunda formulação ética é nomeada “dinâmico-naturalista”. De acordo ela, as diretrizes éticas se alteram de acordo com o tempo, sendo influenciadas por fatores naturais, históricos ou econômicos. Dessa forma, não há qualquer critério moral para nortear o comportamento das pessoas, mas, sim, uma determinada lei descoberta e vigente em uma época. Tillich se contrapôs a esse pensamento, exemplificando-o nas leis vigentes durante o nazismo na Alemanha, nas quais a ética despiu-se de qualquer compaixão, estando direcionada à consolidação de uma raça supostamente pura. Podemos contextualizar essa orientação ética na atual glorificação do mercado altamente desregulado e em seu liberalismo econômico, responsáveis por naturalizar as desigualdades sociais.

A terceira corrente ética citada e criticada por Tillich passou a ser conhecida como “racionalista-progressista”. Segundo esse ponto de vista, há valores éticos imutáveis, mas os mesmos não são decorrentes de qualquer divindade. São absolutamente naturais e provenientes da própria humanidade.

Após apontar essas tendências, Tillich oferece o único critério ético que deve orientar os cristãos: o amor.

O amor como critério absoluto

É errônea a concepção de amor como mera emoção. Amor, para a fé cristã, é algo prático que tem como suprema finalidade unir o que se encontra separado. Tillich aponta acertadamente que há uma enorme separação entre o ser humano e o próximo, a natureza e Deus. Tal separação é responsável pela exploração do homem pelo homem, pela destruição da natureza, e pela religiosidade doentia e alienante. Como resposta, só o amor pode consumar a verdadeira união e criar uma ética justa.

Mas, para exercer sua influência ética regeneradora, o amor necessita do poder, que nada mais é do que afirmação da importância de cada ser vivo. Sem o poder, o amor se deturpa e retroage a um sentimentalismo barato e ineficiente para a formulação ética. O poder faz uso, quando necessário, da força e da compulsão para implantar a ética cristã que visa reordenar parcialmente nosso mundo caótico. Para coibir o excesso ou fragilidade do poder em amor, a justiça é associada, restaurando o direito da vítima, reeducando o infrator e concedendo perdão diante do arrependimento.

Amor, poder e justiça – a tríade proposta por Tillich para a construção de parâmetros cristãos para a ética cotidiana. A grande verdade bíblica é esta: “Aquele que não ama não conhece a Deus, pois Deus é amor” (1Jo 4.8). O conhecimento de Deus molda nossos comportamentos éticos, sendo o amor o critério derradeiro.


Rev. André Tadeu de Oliveira
Pastor da IPI de Alexânia, GO
Membro do Conselho Editorial de O Estandarte e da revista Vida & Caminho

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