POR UMA ESPERANÇA GENEROSA

Reflexão sobre 2 Coríntios 8 e 9

Neste pequeno texto bíblico, o tema da “generosidade” nos desafia. Essa palavra, em nossa língua, indica a atitude de quem age com bondade, sem dar prioridade aos seus próprios interesses. Assim, podemos dizer que a Bíblia está repleta de exemplos de generosidade. Ao pensar nesse tema, lembramos do texto que está em 2 Coríntios 8-9. Sabemos que a 2ª carta de Paulo aos Coríntios suscita uma série de questões sobre a sua formação como texto único, o que não interessa abordar neste texto. Há dúvidas sobre os dois capítulos pertencerem à mesma carta originalmente. O que nos interessa aqui é que ambos os capítulos tratam do mesmo assunto.

Nos dois capítulos indicados, o apóstolo trata de uma “coleta” que ele organiza entre igrejas da Macedônia e Acaia para os pobres de Jerusalém. Paulo torna isso claro também em Romanos 15.25-27, onde ele se declara devedor, pois dos judeus procedem os “valores espirituais” dos quais os gentios participam. É importante perceber que a palavra coleta não é satisfatória tendo em vista o texto na língua original, o qual apresenta palavras mais ricas que trazem a ideia de “compartilhamento” e “serviço”. Isso é importante, pois a questão das ofertas tem sido bastante desvirtuada em certas instituições chamadas “evangélicas” nos dias atuais.

Nos textos indicados da 2ª Carta aos Coríntios, o assunto da “coleta” está em pauta, e a palavra “generosidade” aparece algumas vezes: 8.2; 9.5,11,13 (Nova Almeida Atualizada – SBB, 2018). Algumas traduções utilizam a palavra liberalidade. A ideia dessa expressão na língua grega é de disponibilidade, simplicidade, autenticidade e solidariedade; um tipo de qualidade própria de verdadeiras comunidades. Ao colocar em foco a atitude daqueles que se abriram diante das necessidades “dos santos” de comunidades distantes, Paulo coloca lado a lado a fé e a prática, a teologia e a ação. Ser parte da Igreja de Cristo significa ter atitudes de solidariedade. Diante de pessoas formadas na cultura grega, o desafio de Paulo não era pequeno.

Os dois capítulos indicados impressionam o leitor ao mostrar que a argumentação do apóstolo se fundamenta na “graça” (a palavra aparece dez vezes nos dois capítulos). Evidentemente, o sentido maior de graça é encontrado na ação do próprio Deus em Jesus, que, sendo rico, se fez pobre por amor a nós (2Co 8.9). Dessa forma, aqueles que receberam graça agem pela graça. “Assim, evidentemente, para Paulo era da natureza da graça expressar-se em ações generosas. A graça, poderíamos dizer, só fora realmente experimentada quando produzia pessoas graciosas” (DUNN, James D. G., A Teologia do Apóstolo Paulo. São Paulo: Paulus, 2003, p.795). Colocar-se à disposição do próximo em amor é um sintoma da graça redentora de Deus. Ajudar é uma graça, pois é um privilégio partilhar e, assim, sentir-se parte da comunidade cristã.

Mais do que um conceito teológico teórico, a graça, em Paulo, parte da ação de Deus para a ação dos seres humanos, tendo em vista aqueles que estão em necessidade. Nesse sentido, o povo de Deus testemunha de maneira concreta a sua fé, indicando esperança diante do egoísmo e desigualdade. Conforme indicamos na citação acima, a verdadeira graça de Deus produz pessoas generosas, pessoas que estão dispostas a oferecer parte do seu conforto para suprir a necessidade dos outros, sem esperar retribuição (expressão de “graça”). A sociedade em que vivemos não tem produzido pessoas generosas, o que nos desafia para a missão.

O texto no qual refletimos nos convida a um olhar menos espiritualizado para a Palavra de Deus. Ele fala de maneira concreta sobre irmãos e irmãs que tiveram carências e tiveram oportunidades para a manifestação do amor (2Co 8.24). A esperança cristã se torna forte quando vivida em comunidade, de maneira generosa. Agindo assim, o povo de Deus terá sempre motivos para render graças a Deus.

Graças a Deus pelo seu dom indescritível” 2Co (9.15).


Rev. Fernando Bortoletto Filho
Pastor da 3ª IPI de Guarulhos, SP
Diretor executivo da Associação dos Seminários Teológicos Evangélicos (ASTE)

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