AS COISAS MATERIAIS FORAM CRIADAS POR DEUS

A partir da edição de fevereiro, passamos a publicar, por decisão do Conselho Editorial de O Estandarte, os textos do e-book que se encontra no site da IPI do Brasil, intitulado “A Coragem de Confessar”.


“E Deus viu que tudo o que havia feito era muito bom” (Gn 1.31)

Introdução

Uma tendência muito comum entre os cristãos sempre foi a de dividir a realidade em dois grandes blocos: a) uma parte material, que é considerada inferior e má; b) uma parte espiritual, que é considerada superior e boa.

É por causa disso que:

a) Quando a igreja se reúne, as pessoas fazem referência às atividades que são chamadas espirituais (culto, reunião de oração, etc.), as quais são consideradas mais importantes; e às atividades de outra natureza (sociais, recreativas, esportivas, etc.) que são tidas como inferiores em relação às primeiras.
b) Desenvolveu-se a ideia de que o sexo e tudo o que com ele se relaciona deve ser considerado como algo vergonhoso ou imoral. Muitos há que continuam a considerar o relacionamento sexual como um mal necessário, que serve somente para a reprodução da espécie.
c) Quando um cristão morre, costuma-se desprezar o corpo e valorizar a alma, transmitindo-se a ideia de que aquilo que vai para a terra não tem importância alguma, visto que a parte espiritual, a alma, que é a mais importante, já está com Deus.

Todas essas ideias precisam ser melhor avaliadas, à luz do ensino bíblico a respeito da criação.

A criação – uma mensagem bíblica muito atual

Antes de mais nada, precisamos fazer uma importante observação. Sempre que se coloca o problema da criação, a única coisa discutida é a forma em que ela ocorreu.

Diante da teoria da evolução, muito conhecida e difundida, os cristãos chegam, muitas vezes, a ficar assustados e preocupados, assumindo uma posição de defesa da interpretação literal da narrativa da criação, conforme lemos no texto de Gênesis.

As disputas em torno dessa questão são tantas que se perde a conta delas. E, em meio a tais discussões, fica esquecida, totalmente, a mensagem que a narrativa da criação apresenta para os dias de hoje.

A nossa preocupação aqui é com a mensagem da narrativa bíblica da criação e não com a forma como se deu a criação. Vamos analisar a seguinte questão: o que a narrativa da criação, no livro de Gênesis, tem a dizer para os nossos dias?

A criação é muito boa

A Confissão de Fé de Westminster (CFW) repete o texto bíblico dizendo que Deus criou “tudo muito bom”.

Duas coisas devem ser destacadas a partir daí:

1) Deus é o criador das coisas materiais;

2) As coisas materiais são boas, pois têm origem divina.

Cai por terra, diante disso, a nossa costumeira divisão da realidade em duas partes, uma espiritual e boa, e outra material e má. Não podemos aceitar que Deus tenha criado uma algo ruim.

Em muitas épocas, cristãos sinceros pensaram fazer a vontade de Deus privando-se das coisas boas da natureza ou martirizando o próprio corpo. Como cristãos, a nossa atitude deve ser diferente. Devemos desfrutar das coisas boas da criação, com alegria, reverência e gratidão. A criação é uma dádiva de Deus para o bem do ser humano.

É lógico que hoje enfrentamos problemas com a natureza. Mas devemos reconhecer que o próprio ser humano, com seu pecado, tem agredido e violentado a criação de Deus.

A boa criação de Deus, feita para a felicidade do ser humano, tem sido utilizada para a satisfação do egoísmo e da vaidade. Nesse aspecto, a nossa atitude cristã deve ser diferente: precisamos defender o bom uso da natureza, com respeito, com amor e com justiça, preocupando-nos com a sua preservação.

A CFW não traz nenhuma palavra a respeito dessas questões. Nem poderíamos esperar que trouxesse. Afinal de contas, ela foi produzida no século XVII, quando não existia nenhuma preocupação ecológica. Somente contemporaneamente tem sido despertada uma consciência ecológica, por causa do agravamento da condição ambiental.

Será que, como cristãos, não devemos nos interessar cada vez mais por esse assunto, lutando para preservar a criação de Deus?

O ser humano foi criado para viver em comunidade

A Bíblia não diz que Deus criou somente a natureza. Deus criou também os seres humanos. E fica claro, na narrativa do Gênesis, que Deus se preocupou com a solidão do homem, pois “não é bom que o homem viva sozinho” (Gn 2.18). Por isso, Deus criou também a mulher e disse que fossem fecundos e se multiplicassem e enchessem a terra (Gn 1.28).

Aqui também há uma mensagem para os nossos dias. Vivemos numa sociedade tremendamente competitiva. O outro é visto sempre como um adversário ou um inimigo. O outro representa uma ameaça para a nossa posição, para o nosso emprego e para o nosso bem-estar. O outro é considerado como um ser que temos de vencer para progredir e garantir um lugar ao sol.

Ora, não foi essa a intenção de Deus na criação. Deus criou a mulher para ser uma companheira do homem. Deus fez a mulher a fim de que o homem vivesse em comunidade. Em outras palavras, na ótica divina, o outro existe para ser um amigo, um irmão, uma criatura solidária ao nosso lado.

O ser humano e o trabalho

A Bíblia diz ainda que Deus colocou o ser humano num jardim para o cultivar e guardar (Gn 2.16).

Isso indica que Deus não criou o ser humano para que ficasse sem fazer nada. Ao contrário, Deus atribuiu-lhe uma tarefa. Ao desincumbir-se dela, fazendo a vontade de Deus, o ser humano sentir-se-ia plenamente realizado como criatura de Deus.

Não é isso o que vemos hoje em dia. O trabalho, em nossa sociedade, tem sido fonte de sofrimentos e de injustiças. Muitos trabalham demais e não se sentem realizados com seu trabalho. Outros pouco ou nada trabalham, mas desfrutam fartamente das riquezas e dos bens produzidos pelo suor alheio.

Assim, o trabalho se transformou em motivo de conflitos e em fonte de exploração entre as pessoas. É por isso que existem associações de proprietários e associações de trabalhadores em luta constante entre si. Daí também as greves, as leis trabalhistas, etc.

Não foi esse o plano de Deus. Deus deu o trabalho ao ser humano para que ele se realizasse, vivendo bem, comunitariamente. O que existe hoje em dia não reflete o plano divino, mas a sua corrupção por causa do pecado humano.

O ser humano como companheiro de Deus

Finalmente, a narrativa da criação ainda diz que o ser humano foi colocado por Deus com domínio sobre todas as outras criaturas (Gn 1.26). E acrescenta que o ser humano foi chamado por Deus para dar nome a todos os seres viventes (Gn 2.19).

Isso mostra a posição privilegiada que o ser humano ocupou na criação de Deus. Ele foi feito para ser um companheiro de Deus, participando na direção das coisas criadas. Em outras palavras, o ser humano não é igual às demais criaturas, vivendo simplesmente por instinto.

O ser humano não está preso às determinações de um destino estabelecido pelas leis da natureza. O ser humano é um ser racional pela graça de Deus. Ele foi posto por Deus em condições de dirigir as coisas criadas, através do uso das capacidades que Deus lhe concedeu.

Conclusão

Fizemos um pequeno estudo bíblico a respeito da criação, procurando extrair a mensagem bíblica a respeito desse assunto. Procuramos mostrar que a narrativa do Gênesis é profundamente atual.

Ao falar da criação, a Bíblia nos ensina que as coisas materiais são boas e que temos a responsabilidade de cuidar da natureza, aproveitando seus recursos, com gratidão e reverência, pois são dádivas de Deus para nós.

Ao tratar da criação, a Bíblia também nos mostra que fomos criados para viver em comunhão uns com os outros e em comunhão com o Criador.

É essa a mensagem bíblica que temos de viver e proclamar nos dias de hoje a respeito da criação.

Rev. Gerson Correia de Lacerda
Secretário Geral da IPI do Brasil
Pastor-auxiliar da 1ª IPI de Osasco
Editor de O Estandarte

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