A FOME DE DEUS

Não pensei que uma viagem, feita anos atrás, ainda pudesse proporcionar reflexos nos dias de hoje. Mas os fatos cavalgaram do pretérito para o contemporâneo, com a publicação de um relatório pela FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação), Unicef (Fundo das Nações Unidas para Infância), Programa Mundial de Alimentos e Organização Mundial da Saúde. É o mais completo estudo planetário sobre nutrição.

O relatório revela quem tem muita gente passando fome no mundo. Fome, literalmente fome. É o que os técnicos chamam de “insegurança alimentar” para encobrir. Fome é fome. Pronto.

Fome e vulnerabilidade alimentar significam que milhões de pessoas não têm como colocar a alimentação na mesa.

No caso brasileiro, 37,5 milhões de pessoas no ano de 2013, e 43,1 no ano passado. Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) a cada 58 mil domicílios, 37% estavam nessa situação entre junho de 2017 e julho de 2028.

Ajudazinha emergencial não tira ninguém da miséria; apenas permite sobreviver na miséria.

As Escrituras utilizam a palavra “iníquo”, o inverso da equidade, o que é justo. Menciona até um juiz assim: julga os outros, mas é terrivelmente iníquo. Há muita iniquidade nessas constatações. É degradante porque não está faltando alimento e, sim, sobrando pobreza.

Veja o paradoxo: somos, Brasil, um dos maiores produtores de alimentos do mundo. Se a pobreza não for reduzida e as desigualdades sociais não pararem de galopar, não haverá quem resista – até porque temos uma legião de iníquos absolutamente insensível a tudo isso.

Tiremos a trava do olho! Nosso País é repleto de miseráveis econômica e politicamente!

Revelações em Patmos

Uma das coisas que me surpreenderam (e emocionaram) na ilha banhada pelo Egeu, é que nela existe uma Escola do Apocalipse, formatada como se fosse a Escola Dominical, ou seja, destinada à arte de ensinar a aprender em todas as faixas etárias aquilo que João recebeu como revelação dentro de uma caverna. É disciplina em todas as escolas, e nelas se refere a João, respeitosamente, como “teólogo”, ou seja, aquele que nos fala exatamente sobre as revelações de Deus.

E fala o que? Entre outras coisas, nos quatro cavaleiros do Apocalipse, que nada têm a ver com o fim do mundo, como erroneamente se costuma dizer.

Dentro da caverna, há uma atmosfera envolvente, o clima das revelações codificadas chega a ser perturbador. João descreve (Ap 6.5) a visão de um cavalo preto, montado por um cavaleiro com uma balança na mão, acrescentando a seguir que, com um denário, (equivalente ao salário de um dia de trabalho) seria possível adquirir um litro de trigo. Três medidas de cevada, grão inferior ao trigo, não seriam suficientes para alimentar uma família. O cavalo negro, portanto, seria o simbolismo da fome, do mesmo como os outros três cavalos representariam a peste, a guerra e a morte.

A fome permeia várias narrativas bíblicas. Jesus sentiu-a, após os tempos da tentação no deserto (Lc 4.2) Sabia perceber a fome no seu estômago e no dos outros. Muita gente o seguia, ficando muito tempo sem nada comer. Abençoou cinco pães e dois peixes, todos puderam comer fartamente e ainda sobraram doze cestos cheios (Mt 14.13-21). 

Um contraponto espetacular: Ele sente fome, mas é ao mesmo tempo o pão que sacia a nossa fome.

Precisamos nos alimentar! É essencial para o nosso corpo, do mesmo como como Deus é indispensável para nosso espírito.

Quando reaparece, após-triunfar sobre a morte, Jesus pergunta aos discípulos se têm algo para comer (Lc 24.41) e eles lhe apresentam um peixe assado. O Mestre comeu na presença deles.

Há muito mais, porém. Os famintos ficam desfigurados (Jó 30.3), a ponto de considerar-se mais felizes as vítimas da espada do que as vítimas da fome (Lm 4.9), “porque estas se definham”. Havia fome na terra, Abrão desce para o Egito (Gn 12.10), onde, no futuro, José seria o provedor. Sobreveio uma grande fome naquele país escolhido pelo filho pródigo para ocultar-se de Deus (Lc 15.14). Longe de Deus, perto da fome: seria melhor guardar porcos: “Eu aqui morro de fome” (Lc 15.17).

Insegurança espiritual

A miséria é a triste condição dos famintos. O pão precisa ser repartido, a grande lição ficou registrada na Santa Ceia.

A engenharia social está muito mal feita e o que estamos vivendo hoje é consequência de uma série de fatores, omissões, secularismo envolto numa camada glacial. Ficamos com a impressão de que gerações inteiras, as novas principalmente, passam a impressão de não sentir falta de Deus, questionando o que se pode considerar fundamental no sentido da vida. É grande o nosso esforço em manter intacta a Palavra de Deus, a boa nova do Evangelho.

Perguntar, questionar, buscar, descobrir. Tarefas incômodas. Sou da geração em que meus antepassados afirmavam com vigor que era necessário conquistar almas para Cristo.

Talvez tenhamos substituído este “conquistar” por “dar testemunho”. Não se trata, aqui, de uma mera variação semântica, mas a percepção cristã de que conquistar e testemunhar são formatos eficientespara “evangelizar”. Algo criativo, diferente de rótulos política e ideologicamente engajados, direcionados para uma teologia que pode até ser dominante no país, mas que é terrivelmente medíocre no conteúdo e na consistência.

Há fome no País. Há fome no mundo. Há fome de Deus. Há desnutrição espiritual.

Cabe a nós alimentar solidamente, nutrir, suprir preencher carências e necessidades, lutar pela dignidade, honestidade e caráter. Ser nutrólogo espiritualizado daquele alimento sólido de que Paulo falou. Temos fome de saber sobre nós mesmos. E tudo vai se conjugando: conquistar, testemunhar, salvar… desde que estejamos bem alimentados.

Este viver com dignidade é regido (ou deveria ser) por um contrato social, pelo qual a humanidade tenta caminhar desde Sócrates, passando por Platão, Hobbes, Locke e Rousseau. Formas buscadas para melhorar a qualidade de vida.

Não há um modelo único, pois o aperfeiçoamento deve ser constante. O contrato brasileiro atual está esculpido na Constituição de 1988, que faz previsões sobre os direitos de cada um e as obrigações (“deveres”) do Estado. Mas não consegue tirar a economia da estagnação, e o mapa da fome, ou insegurança alimentar, é a Carta Magna sendo olhada pelo espelho.

Esses grandes autores citados nos remetem à análise de que cada um deles acha que Deus seja da sua opinião, como ironizou Fernando Pessoa, pois, segundo o poeta, “a fé é o instinto da ação”. Sinais dos tempos, vestígios da passagem, marcos da presença do Senhor, mostrando a cada época que temos energia, inteligência e amor para conseguir vencer em todos os níveis.

Essa observação que se ajustaria sobre nossas opiniões quer dizer que, neste mundo sem compasso, somos pedantes (ou pecadores, diríamos sob o prisma da Reforma). Chega a ser arrogante comparar “opinião” humana com a vontade expressa de Deus. Mas, com a desnutrição espiritual, as coisas são perigosamente confundidas, com o ser humano chegando ao cúmulo de construir a sua própria imagem sobre o divino e fazendo escolhas personalizadas sobre o que considera “semelhança”. Intelectualmente ridículo e teologicamente lamentável.

Esses absurdos da vida não podem nos conduzir ao desespero. Carentes de alimentos, somos convidados a descobrir os segredos do Código das Felicidades (Mt 5) e quais são as respostas de fé e amor para os planos de Deus, pois absolutamente nada pode nos separar da caridade de Cristo, o infundido divino sopro da vida, o princípio vital, a alma racional que se torna imortal.

Percival de Souza
Jornalista e Escritor
Membro da 1ª IPI de São Paulo, SP

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