A IGREJA E A CONSCIÊNCIA NEGRA

“De um só fez toda a raça humana para habitar sobre toda a face da terra” (At 17.26).

O Dia da Consciência Negra começou a ser celebrado no início da década de 70 por iniciativa de movimentos sociais negros no Rio Grande do Sul. As celebrações, entretanto, ocorriam apenas no âmbito desses movimentos.

A partir de 2003, a celebração passou a fazer parte do calendário escolar e, em 2011, foi sancionada a Lei nº 12.519, que instituía oficialmente o dia 20 de novembro como o Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra.

A celebração do Dia da Consciência Negra é de suma importância não apenas por fazer alusão ao dia da morte de Zumbi dos Palmares, um importante líder negro que atuou resistentemente na libertação dos escravizados, mas também por conscientizar a sociedade brasileira da trajetória do negro no Brasil.

Ao considerarmos essa trajetória, estima-se que, no auge do período escravagista, a cada ano, média de 50.000 de negros chegavam ao Brasil na condição de escravos. De acordo com o sociólogo Clovis Moura, o Brasil foi responsável pelo maior percentual de importação de negros para o novo mundo, média de 40%.

Assim, pode-se afirmar que a trajetória do negro no Brasil foi marcada pelos açoites, pela inibição da sua cultura e religião, pela subalternidade que relegava ao negro à condição de coisa (e não de ser humano), mas, felizmente, essa trajetória foi também marcada por muita resistência.

O Dia da Consciência Negra é, portanto, um dia para celebrar e encorajar à resistência que, em pleno século XXI, ainda se faz necessária, pois o Brasil está longe de ser um país livre do racismo e longe de ser promotor da igualdade racial.

O filósofo Sílvio Almeida aponta que, no Brasil, o tema do racismo é compreendido a partir de diferentes concepções, a saber:

a) concepção individualista que nega a existência de uma sociedade e instituições racistas, colocando o problema do racismo apenas em nível individual;

b) concepção institucional que afirma a hegemonização por determinados grupos raciais nas instituições como fator que viabiliza a discriminação a partir da imposição dos interesses políticos e econômicos destes grupos;

c) concepção estrutural que destaca o racismo presente na sociedade como um todo, a partir dos comportamentos individuais e dos processos institucionais.

Essa concepção estrutural do racismo delega às instituições a seguinte responsabilidade de acordo com Almeida: “Em uma sociedade em que o racismo está presente na vida cotidiana, as instituições que não tratarem de maneira ativa e como um problema a desigualdade racial irão facilmente reproduzir as práticas racistas já tidas como ‘normais’ em toda a sociedade” (Almeida, 2018, p. 34).

É a partir dessa responsabilidade outorgada à igreja, como uma dentre as várias instituições na sociedade, que estabeleço um diálogo com o tema da Consciência Negra e do racismo subjacente ao tema.

Parafraseando Martin Luther King que, em um de seus sermões afirmou que a igreja deve ser a “consciência do Estado”, afirmo que a igreja deve ser a consciência da sociedade como um todo.

Antes, porém, de abrir-se para fora, esse processo de conscientização deve voltar-se para dentro da própria igreja, pois não podemos ignorar que as equivocadas interpretações teológicas serviram para legitimar a escravidão e, consequentemente, o racismo.

De igual modo, não podemos ignorar que, ao longo da história moderna, a própria igreja valeu-se amplamente do sistema escravagista. É preciso que olhemos para nossa trajetória histórica, reconheçamos nossos erros e nos arrependamos.

No processo de conscientização para fora, ou seja, voltado para toda a sociedade, a igreja precisa romper o silêncio diante de um tema tão crucial, pois silenciar-se frente ao racismo perpetrado na sociedade brasileira, contribuindo para a sua naturalização, torna a igreja uma instituição, se não racista, pelo menos conivente com o racismo.

Nesse sentido, quanto ao tema do racismo, a igreja deve assumir a vanguarda que dela se espera em questões onde a vida humana é aviltada. Ações que se apresentem antirracistas (como debates e estudos sobre o racismo à luz da fé cristã) precisam ser promovidas em nossas igrejas. Que tal iniciarmos pela valorização e incentivo à celebração do Dia da Consciência Negra?

Rev. Vardilei Ribeiro da Silva
Pastor da IPI do Parque Ipê, São Paulo, SP
Presidente do Presbitério São Paulo da IPIB

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