SOMOS FAMÍLIA BENDITA DO SENHOR

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“Se sois de Cristo, então sois descendência de Abraão e herdeiros da promessa” (Gl 3.29).

Celebramos, neste mês de julho, 118 anos de organização da  IPIB!

Louvamos ao Senhor pelos anos de serviço ao seu Reino por parte de nossa amada igreja. Somos o povo de Deus, o corpo de Cristo e o templo do Espírito Santo. Somos a igreja que confessa sua fé no Deus trinitário.

O apóstolo Paulo foi contundente, em suas cartas, ao revelar estas imagens da igreja. Por sua vez, os pais da igreja, nos primeiros séculos, afirmaram, inclusive no Credo Apostólico, as qualidades pertencentes à igreja, sedo elas: unidade, santidade, catolicidade e apostolicidade.

Há muito conteúdo na teologia bíblica e sistemática que nos conduzem à afirmação de que somos família bendita do Senhor.

Nesta pastoral da Diretoria da Assembleia Geral, anseio por despertar em você o interesse em aprofundar-se na reflexão sobre a vocação da igreja.

Temos uma linda e rica história. Sabemos que a igreja cristã sempre enfrentou grandes desafios desde o seu nascedouro.

O livro “História do Pensamento Cristão”, escrito por Paul Tillich, inicia suas páginas definindo a palavra “dogma”, do vocábulo grego que significa “pensar, imaginar ou ter uma opinião”. Entretanto, os dogmas da igreja foram elaborados como medidas protetoras para combater interpretações errôneas que surgiram dentro da própria igreja.

A história de nossa denominação completa 118 anos, mas a essência de quem somos retrocede às páginas do Novo Testamento, firmada na nova aliança em Cristo e prossegue com a reflexão teológica no decorrer de sua existência.

Tenho orado e refletido bastante nestes últimos meses sobre o momento que estamos vivendo diante do cenário pandêmico e político.

Os desafios que a igreja deste século está enfrentando e ainda enfrentará determinarão qual é, de fato, nossa compreensão eclesiológica. Entendo que, apesar de alguns dogmas já estarem consolidados em nossa teologia sistemática sobre o artigo em questão, será a práxis da igreja que manifestará no que cremos realmente. 

A vida cristã não é uma caminhada solitária. Somos uma família. A conversão leva o cristão a uma vida em comunhão com um grupo de fiéis que declaram a mesma fé.

Os dogmas não são declarações teóricas individuais, mas são manifestações comunitárias, que expressam uma realidade específica, a realidade da igreja.

 Somos membros da família bendita do Senhor (Ef 2.19-22). Somos pedras vivas do edifício da igreja de Jesus Cristo (1Pe 2.5).

Entendo que tenha sido neste sentido que Karl Barth, em Church dogmatics, publicado em 1936, afirmou que uma das maneiras da igreja testemunhar a respeito de Jesus Cristo é simplesmente pela sua existência.

Desta forma, ao tratarmos deste assunto tão importante, não poderíamos negligenciar o que tem ocorrido na igreja nos últimos anos.

Dois resultados pragmáticos estão presentes em nossos dias e têm sido prejudiciais para uma reflexão mais profunda sobre a eclesiologia.

Um dos problemas é simplesmente a relativa falta de ênfase na teoria ou na doutrina da igreja, em grande parte das comunidades cristãs. Penso que a boa intenção em encontrar formas de aliviar a dor e o sofrimento existencial dos cristãos nas comunidades tem levado líderes a se dedicarem à elaboração de discursos focados na autoajuda, ao invés de fortalecer as bases bíblicas e teológicas da igreja.

Outro problema é a utilização de metodologias e estratégias que pareçam estar funcionando em outros lugares e tentar implantá-las na igreja local sem os cuidados devidos. No anseio por alcançar resultados em uma sociedade que exige eficiência e incentiva a competitividade, somos tentados a implantar planos que deem resultados, sem uma reflexão mais profunda. 

Conforme o teólogo sistemático Millard J. Erickson: “O século 20, com sua muito difundida aversão à filosofia, e particularmente à metafísica e à ontologia, esteve menos interessado na natureza teórica de algo do que em suas manifestações históricas concretas. Portanto, parte da teologia contemporânea está menos interessada na essência da igreja, o que ela ‘realmente é’ ou ‘deveria ser’, do que em sua incorporação, no que ela concretamente ou dinamicamente está se tornando”.

A partir dessas palavras, devemos perguntar: qual é o desafio da igreja neste século?

Devemos ser sensíveis à maneira como a sociedade lida com suas estruturas, sempre entendendo o fluxo da vida contemporânea, pois vivemos em um mundo dinâmico.

Contudo, apesar desta dinamicidade estar presente, não podemos perder o foco dos conceitos teológicos que afirmam qual é a essência da igreja. Nossa vocação não pode ser reduzida à simples presença empírica. A igreja não é um evento ou projeto, mas, sim, uma entidade completa e realizada. Somos o povo de Deus, o corpo de Cristo e o templo do Espírito Santo. 

De forma sucinta, cito três teólogos que contribuíram para a reflexão sobre a igreja na tentativa de fortalecer a compreensão de sua essência, mas também não negligenciar sua função.

Um deles foi Emil Brunner, um dos pioneiros da teologia protestante do século XX. Brunner define a igreja como órgão portador da revelação do evangelho: é a existência proclamadora.

Sua ênfase está na afirmação de que a igreja é toda forma de existência histórica que tem origem em Jesus Cristo e o reconhece como seu fundamento e norma suprema.

O teólogo suíço Karl Barth aponta para os meios com os quais a igreja exerce o seu ministério: palavra e ação. À palavra pertencem a adoração, a pregação, a instrução, a evangelização, a missão, a teologia. À ação pertencem a oração, a cura das almas, o diaconato ou serviço em benefício daqueles que necessitam e a ação profética. Todos esses ministérios implicam em responsabilidade por parte da comunidade.

Jürgen Moltman, nascido em Hamburgo, pai de dois grandes movimentos conhecidos como teologia da esperança e teologia da cruz, afirma: “Hoje, em todos os seus simples aspectos, uma eclesiologia deverá levar em conta pelo menos essas quatro dimensões: a igreja de Cristo, a igreja missionária, a igreja ecumênica e a igreja política.”

A proposta de Moltmann é a de promover “uma comunidade eclesial do povo no povo”, uma comunidade na qual o fiel vive continuamente e não apenas ocasionalmente, uma comunidade de fé, esperança e fraternidade que se torna o fermento de vida para todo o mundo. Sua eclesiologia é firmada sobre o pilar da vocação da igreja, que é uma vocação universal.

As funções exercidas pela igreja são importantes, até mesmo porque ela foi trazida à existência para cumprir o propósito do Senhor e não para existir como um fim em si mesma.

Contudo, a igreja não pode cumprir sua missão a qualquer custo e nem mesmo sem uma profunda e séria reflexão bíblica-teológica.

Conseguiremos ser excelentes no exercício de nossa missão se formos fiéis à nossa essência. Mesmo cientes de que Deus está agindo na história e observando o que Ele está fazendo, não devemos nos esquecer de que nossa essência está firmada em quem Ele é. 

Rev. Alex Sandro dos Santos
Pastor na 1a IPI de Machado, MG, e 1o secretário da Diretoria da Assembleia Geral da IPIB

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