NÃO SOMOS “TERRIVELMENTE” EVANGÉLICOS

Incomoda-me esse tipo de classificação, que se pretende evangélica, hoje um incômodo balaio que comporta conteúdos interpretativos variantes e equivocados das Escrituras, para destacar posicionamentos pessoais com objetivos meramente políticos.

Esta, a sinopse dos espetáculos surreais, tantas vezes deprimentes quanto decadentes, cabendo aos cristãos reformados a árdua missão de manter intacta a Palavra, sabendo interpretá-la, o que exige estudos, conhecimento e sabedoria. Assim procede a nossa igreja.

Ora, se Evangelho é a boa notícia, a boa nova, a síntese de tudo o que é bom, por óbvio não se pode chamá-lo de “terrível”. Por consequência, impossível definir a personalidade de alguém que se pretenda detentor de caráter “terrivelmente evangélico”.

Afinal, o que se pretende com isso? Implantar um qualificativo? Seria o sectário de uma crença? Nós sabemos o que vem a ser evangélica, temos uma Catedral – a 1ª IPI de São Paulo – que é muito mais do que um monumento arquitetônico gótico.

É uma comunidade de fé onde se presta o louvor com o máximo humano de qualidade, valoriza-se a música sacra, estimula-se a introspecção, esmera-se na pregação da Palavra, convida-se à oração e à reflexão, engaja-se em obras sociais.

Tem denso conteúdo, envolto em amor, o que exige mergulhos diários nas águas profundas do próprio Evangelho.

Desse modo, o “terrivelmente” soa como uma perigosa contradição, pois Evangelho é o oposto de algo que, por ser naturalmente terrível, somente poderia ser medonho e aterrorizante. Não existem dribles semânticos nem sofismas que se possam direcionar para esse tipo de conceito.

Aí é que está o busílis, o nó da questão: quem é, de fato, evangélico, não se define jamais como “terrível”, simplesmente porque tal expressão é… anticristã!

O formato de linguagem identifica quem a rigor não tem fé, mas em contraponto possui muita ambição, envolta em misticismo e populismo. Rigorosamente interpretada a Palavra – estudando o que autores disseram e não o que certo tipo de leitores prefere sugerir – recorrer ao “terrível” é apenas uma forma de tentar impingir uma pseudoreligião, como proveta de contemporâneos vendilhões do templo, devidamente expulsos ao seu tempo pelo grande Mestre e Senhor.

Sejamos rigorosos, pragmáticos, cartesianos: evitemos as superinterpretações que ultrapassam os limites semânticos do texto, prevalecendo a imposição da vontade do leitor, que se apodera dos sentidos por conveniência.

No caso concreto de que estamos falando, além de se apoderar do texto, a corrente “terrível” distorce o que foi dito e escrito, quando temos de respeitar a forma adotada para se expressar, como manifestava Umberto Eco – filósofo, escritor, filólogo, para quem “os textos dizem mais do que os autores pretendiam dizer do que muitos leitores incontinentes gostariam que eles dissessem”. Lição para escritores, jornalistas, juristas e teólogos, dentre outros.

A Palavra mostra-se na sua concretude. O Verbo, feito carne, ajuda-nos a compreendê-la linguisticamente. Adicionamos o alimento da fé e conseguimos chegar à plenitude. Aprendemos a fugir na hora certa de Nietzsche: “Fatos não existem; o que existe são apenas interpretações”.

Aprendemos várias realidades e, com elas, diferentes visões. “Em verdade vos digo”, costumava esclarecer Jesus ao ser interpelado por embusteiros. A nossa realidade é despida de sofismas: Cristo é a Verdade e a Vida, e sendo Verdade nos liberta.

Sem medo de pensar: somente porque há fatos – Cristo é um fato – é que existem interpretações. A tônica dos sermões. A exegese das prédicas. A inspiração do pregador. As aulas da Escola Dominical. A sintonia espiritual do ouvinte. A sinergia espiritual.

Não há porquê nós, cristãos reformados, nos curvarmos diante da designação “terrível”, rigorosamente uma humilhação antievangélica, como bem definiu o sociólogo José de Souza Martins: “Se os protestantes dessem visibilidade aos nomes de seus intelectuais que contribuíram decisivamente para a formação do Brasil moderno, o povo brasileiro ficaria surpreso e agradecido”.

O que, ele argumenta, é diferente nas reações ao “voraz uso da fé pelo poder” e, cobrança, “as igrejas vacilam na vigilância em relação ao respeito às grandes tradições de sua fé e de sua história na sociedade brasileira”. Isso porque colocar vinculação religiosa ao lado da biografia, como se faz no Brasil, “certamente é injusto em relação às igrejas e àqueles que são fiéis aos valores rígidos de suas crenças”.

Incomoda-me, aqui, a nossa quase neutralidade, que deriva para a omissão, e a necessidade de um professor universitário secular ver-se praticamente obrigado a fazer isso em nosso lugar. Afinal, somos reformados e não deveríamos ser conformados!

Uma das coisas piores desse “terrível” é a sua própria gênese. Há uma referência histórica famosa, a de Ivan IV, este sim, o terrível, czar russo que se tornou conhecido pela sua violência sanguinária. Morreu jogando xadrez, em 1584, não se sabe se de um infarto ou de envenenamento. Sua fama incluía um qualificativo a mais: “O Apavorante”.

Na boca de quem diz “terrivelmente evangélico” pode parecer, só aos politicamente incautos e religiosamente frágeis, que esta seria uma virtude, uma abnegação, ser maniqueísta lutador ao lado do bem, num bom combate contra os maus, preservando assim valores transcendentes.

Algumas características são suas posições, declarações, testemunhos que nem poderiam ser chamados de “testemunho”, porque são deprimentes e constrangedores, simplistas, toscos, reducionistas. Isso nos obriga a nos identificar como evangélicos, sim, mas não terríveis e muito menos cúmplices de determinados comportamentos que não nos representam.

A corrente do “terrível” nos humilha, infantiliza, distanciando-nos da verdadeira face não oculta, comprometida com nosso Senhor, que é robusta, sólida, poderosa, eficiente, comprovável, autêntica, amorosa, solidária, fraterna. Não tem nada de “terrível”. Tem, sim, de bondade, amor, comprometimento, solidariedade, cidadania em seu verdadeiro sentido.

Os “terríveis” querem nos arrastar para visões que incluem – pálido exemplo – tempos atuais com prognóstico de fim dos tempos, como se pudéssemos ignorar que o próprio Senhor nos ensinou, no Evangelho (Mt 24.36), que nem Ele mesmo sabe quando isso irá acontecer.

Ao contrário de terrível”, o Evangelho nos mostra que Deus, Criador, nos contempla como ápice dos seus bem-feitos, concentrando em nós sentimento e vontade, imanência e transcendência. Previdência onipresente. Vivemos, nos movemos, existimos (At 17.28).  O Senhor é antes de todas as coisas e nelas tudo subsiste (Cl 1.17). E Jesus, Redentor nosso, é a grande notícia: é tudo em todos! (Cl 3.11). Espetacular obra, da qual Deus é autor ex-nihilo, ou seja, a partir de nada, o que está além da nossa compreensão (finita), porque está acima do finito.

Então, escanteado o “terrível”, deixemos muito bem claro: diante do Senhor, não existem terríveis ou fantásticos, porque o Senhor – sem nenhum tipo de preferência – não faz separação entre quem seria mais ou quem seria menos.

 Foi isso que o apóstolo dos gentios escreveu. É a notícia boa divulgada de maneira explícita.

O terrível provoca terror. Evangélico desperta o amor.

Terrível era Átila, o rei dos hunos, que chegou a ser considerado “flagelo de Deus”. Jesus é o sumo bem! É maravilhoso! Nunca foi terrível!

Percival de Souza
Jornalista e Escritor
Membro da 1ª IPI de São Paulo, SP

One thought on “NÃO SOMOS “TERRIVELMENTE” EVANGÉLICOS

  • 27 de janeiro, 2022 em 21:19
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    “Ao contrário de terrível”, o Evangelho nos mostra que Deus, Criador, nos contempla como ápice dos seus bem-feitos, concentrando em nós sentimento e vontade, imanência e transcendência.”

    ótima análise, precisamos ser portadores do Evangelho da Paz e do Amor!

    Esse texto sim me representa

    Resposta

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