A AUTORIDADE DA BÍBLIA SEGUNDO OS REFORMADORES

Como única regra de fé e prática para o cristão e principal fundamento da religiosidade protestante, a Bíblia deve ser lida de forma responsável. Conhecer a hermenêutica utilizada pelos reformadores do século 16 é fundamental.

Contestando alguns pressupostos defendidos pela igreja de sua época, reformadores como Lutero, Zuínglio, Bucer e Calvino enfatizaram o conceito que passou a ser conhecido como ” Sola Scriptura“, isto é, somente a Bíblia tem autoridade suprema em questões de fé.

Sem abandonar a riqueza elaborada pelos grandes pensadores da fé cristã, caso da patrística, as Escrituras determinam as doutrinas e costumes das jovens igrejas evangélicas. Na contramão de segmentos fundamentalistas que praticam uma leitura literalista do texto sagrado, os reformadores colocaram em prática uma diferente e dinâmica forma de interpretação.

Segundo Lutero, todo texto bíblico deve estar submetido à pessoa de Jesus Cristo, a Palavra de Deus encarnada. Assim, as Escrituras passam a ser interpretadas segundo a vida e obra do Messias. “Este é o verdadeiro critério para julgar todos os livros; se a gente vê se tratam de Cristo ou não, uma vez que toda a Escritura mostra Cristo. O que não ensina Cristo não é apostólico, ainda que Pedro e Paulo o ensinassem. Por sua vez, o que prega a Cristo, isto seria apostólico, ainda que Judas, Anás, Pilatos ou Herodes o fizesse”, escreveu o reformador alemão.

Fica claro que toda forma de literalismo que considera cada palavra verbalmente inspirada ou inerrante pelo simples fato de se encontrar na Bíblia, não encontra base em Martinho Lutero.

Outro critério hermenêutico usado por Lutero, baseado no primeiro, é o encontro pessoal do leitor com Jesus Cristo. Escreveu o pastor de Wittenberg: “A Bíblia é uma manjedoura, na qual está contida Jesus. Se não o encontramos, só temos palha”. Ao invés de ser seguida apenas como um manual de regras ou doutrinas, a Bíblia deve proclamar Jesus Cristo.

João Calvino, o maior expoente da tradição reformada, ensinou que, sem a confirmação do Espírito Santo no coração da pessoa cristã, por meio da oração, a leitura bíblica se tornaria semelhante a de qualquer livro.

Outro relevante conceito defendido por Calvino recebeu o nome de “acomodação”. Segundo essa ideia, Deus transmitiu sua palavra por meio de uma linguagem simples e corriqueira, para que uma verdade superior fosse compreendida pelo leitor de sua época, possuidor de precários conhecimentos sobre vários assuntos.

Com essa premissa, torna-se óbvio que a Bíblia não deve ser encarada como um manual de astronomia, biologia ou de qualquer outra ciência natural, devendo ser considerada a bússola espiritual do cristão.

Calvino foi além dos pontos citados, chegando a admitir a existência de erros gramaticais e secundários no transcorrer das Escrituras. Discorrendo a respeito de uma imprecisão cometida pelo apóstolo Paulo, ao citar um trecho do Salmo 51.4 em Romanos 3.4, assim escreveu: “Ao citar as Escrituras, os apóstolos frequentemente usavam uma linguagem mais livre do que o original, visto que eles se contentavam em aplicar a citação ao seu assunto e, portanto, não eram exageradamente cuidadosos no uso das palavras”.

Além de admitir pequenas imprecisões textuais, Calvino defendeu que os escritores do Novo Testamento atualizaram inúmeras passagens do Antigo.

Fiel às ideias esboçadas pelos reformadores, Epaminondas Melo do Amaral, saudoso teólogo e pastor presbiteriano independente, assim escreveu: “A fim de colocar em posição legítima seu princípio, terá o protestantismo de rejeitar todo o literalismo que ele tenha impregnado. Valerá para nós a Escritura, sem imposições da inspiração literal, sem o peso da indiscriminada aceitação em bloco, porém com as insuperáveis virtudes de sua mensagem espiritual “.

Rev. André Tadeu de Oliveira
Pastor da IPI de Alexânia, GO
Membro do Conselho Editorial de O Estandarte e da revista Vida & Caminho

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