MINISTÉRIO PASTORAL, UMA VOCAÇÃO CIENTÍFICA

Max Weber é considerado, junto com Émile Durkheim e Karl Marx, um dos autores fundamentais da sociologia. Jurista e economista de formação, Weber destacou-se como um dos expoentes mais criativos da ciência sociológica, tendo a religião como um de seus principais objetos de estudo.

Seu livro “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo” se converteu em obra indispensável para a sociologia da religião.

Um dos trabalhos mais instigantes do pensador alemão traz o seguinte título: “Ciência e Política, duas vocações”. Dividido em duas partes, Weber analisa as prerrogativas necessárias para a boa formação de cientistas e políticos.

A proposta deste artigo é aplicar os conceitos weberianos a respeito do cientista ideal à pessoa que decide ingressar no ministério da Palavra e Sacramentos.

De acordo com Weber, o bom cientista deve estudar com afinco o objeto de sua pesquisa e, ao mesmo tempo, se transformar em professor, jamais guardando o conteúdo para si. Esse mesmo alvo é fundamental para o ofício pastoral.

O cristão realmente vocacionado ao ministério pastoral não pode menosprezar o conhecimento teológico. É indispensável recorrer à sua biblioteca e “devorá-la”, reler os velhos livros teológicos.

Após esse exercício intelectual, o pastor é impulsionado a compartilhar seu conhecimento com a congregação. Dessa forma, a teologia se torna algo útil, vivo e transformador, desassociando-se de qualquer pecha elitista e clerical.

Após essa clara delimitação, Max Weber afirma que o cientista, agora revestido da função magisterial, não pode deixar de ensinar os assuntos mais profundos da maneira mais simples.

Banalizar o conteúdo é inaceitável. Mas explicá-lo de uma maneira incompreensível também se transforma em erro crasso.

Profundidade e clareza caminham de mãos dadas. Tal deve ser a filosofia de trabalho do ministro. Sua comunidade de fé merece um conteúdo teológico sólido.

A Escritura e os pontos essenciais da fé cristã não podem ser negligenciados. Por outro lado, o pastor necessita comunicar essas verdades evangélicas da forma mais compreensível para toda a comunidade.

A terceira qualidade de um bom cientista, segundo Weber, é a atualização do conhecimento. A ciência jamais é algo inerte. Muito pelo contrário, atualiza-se com absoluta rapidez.

Uma antiga verdade científica pode se converter em teoria obsoleta. O mesmo se dá com a teologia.

Diferentemente do que apregoa o fundamentalismo, a teologia cristã sofreu transformações durante toda a história. Esse processo de mutação ainda se faz presente no mundo teológico. Tal como um cientista, a pessoa investida de liderança religiosa não pode negligenciar essa realidade. É fundamental renovar seu conhecimento teológico. O rebanho do Senhor é digno de sorver o vinho novo.

Chegamos aos dois últimos predicados que não podem faltar ao bom cientista. Paixão e intuição.

O cientista capaz ama o que faz. Tem prazer em seu trabalho.

Sua análise dos fatos, por sua vez, não é apenas algo frio e calculista. A intuição se faz presente.

Não é necessário um grande esforço para defender a presença dessas características no pastor ou na pastora. Um ministério sem paixão é algo sem vida. A pessoa investida do ministério pastoral deve nutrir paixão por Deus, pela igreja, pela criação e por sua própria vocação! 

O mero cumprimento da obrigação mata um pastorado.

O mesmo ocorre com a intuição. A liderança religiosa saudável observa fatos e situações, não tem uma agenda pronta para aplicar independentemente do contexto, mas faz uso da intuição como ferramenta essencial de seu pastorado.

Acreditamos que as marcas do verdadeiro cientista, segundo a leitura de Max Weber, se encaixam como uma luva para verdadeiros vocacionados ao ministério pastoral e outras funções fundamentais para a Igreja de Jesus Cristo.

Rev. André Tadeu de Oliveira
Pastor da IPI de Alexânia, GO
Relator do Conselho Editorial de O Estandarte e da revista Vida & Caminho

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